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O intuito desta formulação é tentar apontar elementos de conjuntura e algumas tendências do que pode vir acontecer no próximo período. Já iniciamos alguns dos pontos que serão trazidos aqui no texto “Ainda sobre a onda conservadora” em que defendemos que não existe, de forma generalizada, um movimento fascista no Brasil tal como afirmam os defensores da tese de que existe uma onda conservadora. No Brasil e no mundo, o capital continua avançando sobre a extração de mais valia dos trabalhadores e a contradição entre as forças produtivas e as relações sociais de produção não se agudizaram ao ponto de que se tornasse necessária à constituição de um novo período histórico.

Entendemos que vivemos na fase imperialista do capital e o Brasil tem uma economia altamente desenvolvida, com o Estado altamente desenvolvido, com estratégias de coerção e de cooptação com características próximas aos Estados de economias mais desenvolvidas do capitalismo (tal como EUA, Japão e Alemanha). Desde 1989, foi iniciado um período histórico de democratização do Estado capitalista brasileiro tanto com a fase ‘neoliberal’ de Collor/Itamar e FHC como com o projeto democrático popular (PDP) encabeçado pelo PT.

Tanto o ‘neoliberalismo’, de Collor/Itamar e FHC, como o PDP, do PT, serviram aos interesses da burguesia no desenvolvimento do capitalismo no Brasil, democratizando o Estado1, criando estratégias de apassivamento da classe2, repassando empresas públicas para a iniciativa privada3, e, entre outras coisas, retirando direitos de trabalhadores4.

As eleições para escolha de presidente do Brasil reafirmam a existência de um mesmo projeto político – o projeto da burguesia – que, na aparência, trajava-se como dicotômico, tendo o PT e a sua base aliada de um lado e o PSDB e sua base aliada de outro. Essa aparente divergência de projeto político era pautada no histórico de formação das duas forças políticas: o PT representava a história de um partido que foi construído com os trabalhadores; o PSDB representava a velha política de aliança com a burguesia.

Se na história o PT e o PSDB defendiam projetos políticos antagônicos, na atualidade, representam o mesmo projeto, nos fazendo lembrar até a disputa entre ‘democratas’ e ‘republicanos’ nos EUA5.

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Um conjunto de medidas para a burguesia após as eleições

Análise econômica

O ‘espetáculo da democracia’ aconteceu, ganhou aquele grupo que poderia atender melhor aos interesses dos monopolistas e, antes mesmo da posse, já se foi anunciando um conjunto de medidas para isso.

Começando pela análise do momento, enquanto a mídia burguesa usava seus dados particularizados da realidade para mostrar que o Brasil estava em um período de ‘recessão técnica’, ou seja, o crescimento econômico não era grande e isso ameaçava as indústrias, o governo contra-argumentava reafirmando que não havia ‘recessão técnica’.

Após as eleições, afinaram as opiniões: o governo ‘reconheceu’ que não atingiria as metas previstas e a mídia ‘evitou’ buscar as particularidades para explicar a globalidade6.

Na realidade, nem governo nem os veículos de comunicação têm as ferramentas e o método necessários para compreender a totalidade – os limites da economia clássica burguesa e da ideologia não permitem ir além. Quando se observa os espaços centrais de produção da vida, no trabalho humano, percebe-se o aumento da produção de mercadorias. O que parecia uma recessão técnica, na verdade é um período de readequação e reorganização da força de trabalho, com ampliação da rotatividade e aumento da produtividade, fazendo com que a indústria no Brasil acompanhe o jogo monopolista de produção de capital.

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Controle da inflação

Diante dessa análise ‘equivocada’ do momento, uma das primeiras medidas adotadas após a reeleição foi feita pelo Banco Central (BC) ao anunciar constantes aumentos de juros com a justificativa de ‘reduzir a inflação’. A medida não foi eficiente e os economistas burgueses, inspirados na tese da oferta e da procura, deliraram tentando entender porque a inflação continuava aumentando. A inflação não descia, carecendo de sucessivos aumentos de juros e o delírio idealista se ampliava7. No final, o pragmatismo deu a resposta necessária: a única medida que poderia ajudar o comitê central da Burguesia a cumprir a meta era mudar a meta! Então, nos acréscimos do segundo tempo, as metas foram alteradas8.

Ou seja, mudaram as regras do jogo no final para tentar manter o clima de harmonia entre a burguesia.

A mudança das metas não é capaz de esconder que não conseguiram atingir a meta de superavit, ou melhor, o fundo anticíclico não é tão grande como deveria ser. Desse modo, o governo não conseguiu acumular a quantia necessária para criar um fundo anticíclico que deve servir para ajudar a burguesia em períodos de crise e isso, a curto e médio prazo, pode ser um elemento que aponte para um corte maior de custos da malha do Estado9.

Mais ataques aos trabalhadores10

Antes mesmo do ano terminar, no dia 29 de dezembro, a equipe de transição para o novo governo anunciou cortes em direitos dos trabalhadores que não são fruto de concessão de governos e patrões, mas resultado de anos de luta do conjunto da classe trabalhadora. Algumas das principais propostas do pacote do governo contra os trabalhadores foram:

1) O abono salarial (PIS) que todos os trabalhadores têm direito desde que tenham no ano trinta dias de trabalho, a proposta é que só seja para quem trabalhar por seis meses ininterruptos durante o ano em curso;

2) o seguro desemprego que é pago a todo o trabalhador que tenha trabalhado por 6 meses durante o ano, agora a proposta é que seja pago só para aqueles que tenham trabalhado por 18 meses ininterruptos;

3) o pagamento pelo INSS aos trabalhadores que tenham que se afastar do trabalho por motivo de doença, que é feito a partir do 16° dia de afastamento, agora a proposta é que só seja pago pela Previdência depois de 30 dias de afastamento; e mais: as empresas vão poder realizar as perícias médicas.

Os burgueses pulam de felicidade com a proposta de retirada de direitos dos trabalhadores. O governo reduz seus custos com os trabalhadores tanto no abono, seguro desemprego e pagamento do INSS e assim consegue ampliar o seu fundo anticiclico, dando mais garantias para a burguesia caso uma crise ciclica do capital esteja por vir. Além disso, reafirma-se a possibilidade de retirada de direitos dos trabalhadores sem grandes conflitos, confirmando o apassivamento da classe e a possibilidade de retirar ainda mais direitos.

Os novos e velhos ministros, novas e velhas formas de apassivamento da classe

Para dar mais garantias à burguesia, o governo do PT anunciou um ministério do PSDB. Isso mesmo! O PT ganhou a presidência, mas o ministério é de quem perdeu.

Para aqueles que se pautam nas relações institucionais, a disputa ministerial talvez seja a expressão mais evidente de uma política voltada para atender aos interesses da burguesia.

O pacote de ministros foi um verdadeiro presente de natal para a burguesia e, para tentar controlar os ânimos da base do governo, foi repetida a mesma fórmula da campanha eleitoral: para um governo “menos pior”, ministros “menos piores”. Enquanto uns gritam: “abaixo ao governo comunista!”, “o PT quer transformar o Brasil em Cuba!”, a notícia era a de que o novo ministro da Fazenda será um ex-diretor do Bradesco. Bom, a história ainda não foi capaz de nos mostrar a possibilidade de existência de um banqueiro comunista11. Analogamente, outra ministra, agora a da Agricultura, aquela mesma, símbolo e maior representante do latifúndio, inimiga dos índios, dos pequenos produtores, dos ambientalistas e dos sem-terra. Mas, um momento… não é o mesmo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra que apoiou a candidata democrática e popular? O que aconteceu?. Deixando de lado o sarcasmo e tratando o assunto com a seriedade necessária: não precisamos de mais exemplos para evidenciar que o Partidos dos Trabalhadores vem implementando as políticas centrais para o fortalecimento (ainda maior) do Capital12.

Os analistas defensores do PSDB aplaudiram o novo ministério e até as revistas e jornais de grande circulação (que ‘faziam oposição’ ao governo) acharam que as decisões eram acertadas13. Ao mesmo tempo, acusaram o PT de ‘estelionato eleitoral’, pois entendem que o PT defendia outra política na campanha, como negar a autonomia para o banco central e negar a retirada de direitos.

Já os analistas defensores do PT e membros da base aliada dividiram opiniões: por um lado, alguns defendiam os ministros escolhidos por Dilma14 e outros entendiam como retrocessos15.

A corrente majoritária do PT, a CNB/Articulação Sindical, também tentou demonstrar insatisfação com as indicações, já que a maioria dos poucos petistas indicados como ministros são de correntes menores do PT. Lula, que no início tentava disputar cadeiras para sua corrente agora tenta fingir que ficou insatisfeito, mas não deixou de estar presente na cerimônia de posse, declarando apoio aos novos ministros de Dilma16.

Na verdade, o PT tende a dar continuidade a um movimento que já vinha sendo feito e que se intensificou no período das mobilizações de junho de 2013: a tentativa de continuar a política de cooptação e apassivamento da classe com tentativas de diálogo. Se em 2013, o governo, na figura de Dilma e de Lula, tentou fazer reuniões com movimentos sociais e centrais sindicais para retomar o papel central que o PT, a CUT, a UNE e o MST deveriam ter no processo de apassivamento da classe, em 2014 e em 2015, a perspectiva se aprofunda e começa a ganhar formas.

Em 2013, ainda no calor das manifestações de junho e julho, o governo chamou o MPL para ‘negociar’ e tentar acabar com a onda de protestos que corria o país. Ainda era pouco, foi necessário chamar a CUT, o MST, a UNE e demais movimentos sociais para reafirmar uma plataforma de lutas em que o governo assumisse a direção do movimento nas ruas. A CUT fez sua parte: junto com outras centrais sindicais afirmou um dia nacional de lutas (11 de julho) em que a palavra de ordem não podia ser ‘fora Dilma’. O MST assumiu a campanha da reforma política, chamando um plebiscito popular constituinte que custou grande parte das atividades de 2013 e 2014. A UNE convocou protestos pelo transporte e pela educação principalmente nas capitais em que o PT não estava à frente da prefeitura17.

Em 2013, Governo, CUT, UNE, e MST fizeram a ‘autocrítica’ e tentaram tardiamente retomar a direção dos protestos. Nesse movimento, conseguiram colocar muitos setores da oposição, da esquerda, na mesma frente de batalha, defendendo a bandeira antifascista18.

Após as mobilizações, continuavam a tentar pautar as próximas mobilizações – seja tentando trajar uma luta em defesa de um projeto democrático e popular nas redes sociais, seja tentando enfraquecer as próximas mobilizações espontâneas que poderiam surgir em 2014. As mobilizações espontâneas que tomaram as ruas em junho de 2013 não se repetiram em 2014, mas aconteceram nos locais de trabalho com um número altíssimo de greves durante o ano nas mais diversas categorias (metalúrgicos, garis, professores, trabalhadores dos correios, servidores federais, operários da construção civil).

O resultado das mobilizações de 2013 e das greves de 2014, queira ou não, tiveram um impacto nas eleições presidenciais e a vitória de Dilma no segundo turno foi apertada ao ponto de muitos petistas reforçarem o movimento que já tinha sido anunciado: o apassivamento das classes precisa de uma nova forma.

Nos dois governos Lula e no primeiro mandato de Dilma, o PT, o MST, a UNE e a CUT foram responsáveis pelo apassivamento das lutas ao se retirarem das greves, mobilizações e paralizações, reafirmando o atrelamento ao governo e aos patrões. Entendemos que essa forma continuará de modo combinado com uma nova aparência que poderá ser mais usada a depender do momento e da correlação de forças.

Ainda é cedo para destrinchar essa nova forma que o PT e sua base aliada se colocarão nos próximos períodos para continuar a política de apassivamento da classe. Apostamos que a tendência é que seja feito um conjunto de momentos de um movimento com o mesmo conteúdo – reafirmar a política de apassivamento da classe. Esses momentos de um mesmo movimento ampliarão a aparente separação entre governo e partido, ora fingindo negar, ora defendendo o governo e suas políticas.

Tentaremos aqui apontar alguns momentos desse movimento:

1) mesmo tendo que tomar medidas ‘antipopulares’, o governo continuará tentando dialogar, quando necessário, com os movimentos sociais e sindicais19;

2) o PT fará uma espécie de ‘autocrítica’, dando mais espaço para suas oposições internas com o intuito de reafirmar uma ‘refundação do PT’20;

3) tentando fazer com que os instrumentos de apassivamento do ciclo do PT (a CUT, a UNE, o MST e outros) encabecem os ciclos de luta que poderão surgir, alguns setores desses instrumentos encaparão lutas e protestos, quando necessário e possível, trajando-se novamente como ‘lutadores’ mesmo que se reduzam ao âmbito instituicional.

4) o movimento de apassivar a classe exige ainda retomar os espaços que foram perdidos e, dessa forma, as ‘oposições’ do PT terão mais abertura para fazer alianças com PSOL, PSTU, PCO e outras organizações que se colocam no campo da institucionalidade, reafirmando frentes de esquerda que farão ‘oposição’ ao governo Dilma21.

O PT, a CUT, a UNE e o MST continuarão a serem braços na retirada de direitos, agora tentando combinar a não atuação, forma predominante na gestão de Lula e no primeiro mandato de Dilma, com a atuação fingindo-se de oposição,  reproduzindo uma atuação institucional.

Se isso de fato vai se efetivar, somente a história poderá nos mostrar. De todo modo, o movimento dos trabalhadores deve se preparar para resistir aos ataques do capital e apontar independência de classe em relação a patrões e governos. Isso só não será o suficiente, é preciso deixar claro o limite da via institucional e a centralidade da luta da classe contra os patrões sem almejar a possibilidade de disputa do Estado.

A prioridade do próximo período é seguir no rigor da análise, na ação independente em relação aos patrões e governos, autônomo em relação aos partidos e, em cada local de trabalho, ampliar nossa organização e assim potencializar a luta por nenhum direito a menos e a cada passo dessa luta construir a força necessária por  outra e nova sociedade,  sociedade socialista.

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1 Uma das marcas da ‘redemocratização’ no período Collor/Itamar foi a abertura para a formação de novos partidos políticos. No governo FHC, foi criminalizada a compra de votos, estabelecida a Lei de Responsabilidade Fiscal, cotas de candidaturas para mulheres e votação por meio de urnas eletrônicas. Os governos Lula e Dilma ampliaram a democratização do Estado burguês com a Lei da Ficha Limpa, a ampliação da autonomia do judiciário e da polícia federal.

2 O governo FHC buscou apassivar as contradições de classe aumentando o crédito a partir do controle da inflação com o Plano Real e as políticas assistencialistas (bolsa-escola, vale-gás e o bolsa alimentação). Além disso, soube usar as forças armadas para combater os protestos e coagir as lutas, como aconteceu no ‘El Dourado dos Carajás’. O governo Lula e Dilma fez uso das mesmas estratégias: no âmbito da cooptação, ampliou a política de programas assistencialistas para aumento do crédito (no bolsa-família e no bolsa-escola), ampliou as licitações, pregões públicos, editais públicos, colocou muitos sindicalistas e integrantes de movimentos sociais em cargos de alta chefia no Estado, nacionalizou o sindicato-cidadão, ampliou programas de parceria público-privada como o PROUNI; no que tange a política de coerção, ampliaram as estratégias de coerção com a compra e fabricação de equipamentos militares modernos e ampliam a capacitação das forças armadas para conflitos de ruas.

3 Collor/Itamar privatizaram a Usiminas, a Embraer e outras empresas. FHC privatizou a Vale do Rio Doce e fez concessões de rodovias e ferrovias. Na gestão Lula e Dilma, foram feitas concessões de rodovias e aeroportos e a política de privatização era mais sutil com parcerias público-privadas e constituição de subsidiárias ou empresas públicas de capital misto, como a EBESERH e o CorreiosPar. Para os próximos períodos, já foi anunciada a privatização da Caixa.

4 Nos governos de Collor, FHC, Lula e Dilma, houve redução de direitos e ‘modernização’ do serviço público com a construção de metas igualando-se ao serviço privado a partir de políticas como a reforma da previdência, do tributário, trabalhista, da educação.

5 Leia mais sobre isso em ‘O sexto turno’, de Mauro Iasi.

6 Veja mais sobre isso aqui.

7 Veja como os veículos de comunicação da burguesia tentam entender e explicar o aumento de juros e o controle da inflação aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

8 Os veículos burgueses não deixaram essa informação escapar aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

9 No dia seis de janeiro, o governo anunciou o corte de mais de até 66,3 bilhões de reais. Trata-se de um corte de 1/12 avos dos novos gastos previstos para 2015.

10 Veja mais na matéria da Intersindical: Instrumento de Luta e Organização da Classe

11 Na ficção, o banqueiro de Fernando Pessoa era anarquista.

12 Olha o que Sakamoto tem a dizer sobre isso.

13 Aécio comentou, a Época fez recomendações, a Istoé fingiu que não sabia e a Veja elogiou.

14 A carta capital defendeu Kátia Abreu e Kassab e o PT também defendeu.

15 O MST fez ocupação, alas do PT reclamaram, a Friboi pagou e reclamou,

16 Lula tenta brigar por cadeiras, Lula convenceu os ‘radicais’, Lula e CNB ‘perdem’, Lula vai a posse e desmente que não gostou da escolha de ministros.

17 No primeiro momento, Lula convoca as pessoas para irem às ruas. Em seguida, é reafirmado um calendário de lutas. Veja a atuação do PT, CUT, MST, UNE e outras centrais sindicais e movimentos sociais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

18 Sob o argumento da luta ‘antifascista’ e com meda da ‘ditadura’, alguns setores da esquerda se juntaram ao PT para defender Dilma. A Intersindical: instrumento de luta e organização da classe não compartilhou dessa análise e reafirmou a atuação dos trabalhadores nos locais de trabalho, potenciando a luta dos trabalhadores em defesa da bandeira ‘nenhum direito a menos’.

19 Esse processo já está sendo anunciado pelo governo como pode ser visto aqui, aqui e aqui.

20 Parece que é um processo ainda em construção, mas alguns embriões disso estão sendo construídos. Isso pode ser visto aqui, aqui, aqui e aqui.

21 Parece que os embriões desse processo começaram a ser lançados: veja isso aqui, aqui e aqui.
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Sem título

Desde as jornadas de junho de 2013, o debate sobre a composição das forças sociais tem sido travado de maneira apaixonada. O objetivo deste texto é compreender o termo “onda conservadora”, como ele é usado e por quem ele é usado. A partir disso, contribuir com o referido debate, colocando sobre a mesa a análise do Coletivo ContraCorrente.

Há uma diferença entre a “onda conservadora” que esteve presente nas manifestações de junho de 2013 e a chamada “onda conservadora” que foi enunciada por forças políticas governistas no processo eleitoral de outubro de 2014. De qualquer forma, não nos parece que há uma ascensão organizada (nacionalmente) de forças fascistas no país, embora não ignoremos que no Brasil sempre existiu, desde os tempos de Plínio Salgado até hoje, os degradados defensores do fascismo ou algo muito próximo. Inclusive, não negamos que existem como grupos organizados e agem violentamente contra as chamadas “minorias”.

bolsonaro-chargeEmbora não seja o nosso objetivo específico fazer um balanço das “jornadas de junho/2013”, não podemos deixar de versar umas linhas a fim de entender o que se chamava de onda conservadora naquele processo. Havia, como há na maioria dos estados brasileiros, uma luta a ser encarada no estado de São Paulo, a luta pela redução da passagem e pela tarifa zero. Esta luta, embora seja de caráter defensivo, ou seja, contra alguma medida do governo e das empresas, também vem tentando ser propositiva, inclusive se debruçando sobre o sistema de transporte e estudando a logística estabelecida para propor a efetividade do passe-livre1.

Acontece que a luta que seria travada em São Paulo tinha alguns ingredientes que não podem ser ignorados. O primeiro é que a luta mais expressiva do ano de 2013 até aquele momento tinha sido também uma luta contra o aumento de passagem e pelo passe-livre, só que em Porto Alegre e no início do ano2. Entre outros ingredientes podemos destacar a proximidade dos jogos da copa das confederações, a atenção das mídias de todo mundo, a desproporcionalidade das forças de repressão com relação ao movimento, a criminalização do movimento tanto pela grande mídia como pelos agentes públicos.

A repressão pesada por parte da polícia e a campanha difamatória por parte da mídia fez com que crescesse uma forte onda de solidariedade por todo o país, nacionalizando o que era uma luta local. Nesse processo de expansão da luta social, as redes sociais cumpriram um papel importante, fazendo o contraponto das mentiras espalhadas pelos veículos burgueses de informação e ajudando a difundir o movimento para um número cada vez maior de pessoas.

Essa expansão do movimento vem acompanhada de uma forte despolitização, fato percebido inclusive pelos agitadores da burguesia, como o idiota3 do Arnaldo Jabor. Essa percepção vem acompanhada de uma tentativa de dirigir o movimento via a própria mídia burguesa, dividindo o movimento entre “cidadãos conscientes” e vândalos. Nesse ponto, é importante observar o forte sentimento anti-partido que um setor grande das passeatas, majoritariamente composta por uma juventude que não vivenciou experiências de lutas de classes, exibia, dando a possibilidade de setores fascistas se inserirem nesses atos e também tentarem disputar esse processo. Além do fato de existir uma desconfiança com os partidos, havia um outro setor também desconfiado com os partidos, mas que se colocavam como linha de frente na “proteção” das manifestações, conhecidos como Black blocs. Este setor, mais combativo e aguerrido que o primeiro foi pauta de um extenso debate na esquerda.

A perspectiva anti-partidária que permeava as mobilizações de junho e julho abria possibilidade aos militantes fascistas de aparecerem nos atos como setores nacionalistas e patriotas. Podemos caracterizar que uma parte dos defensores dessa perspectiva não viveu outras experiências além do governo “popular e democrático” do PT, não se organiza, exceto pelas redes sociais, tem verdadeiro horror a ser massa de manobra, mas acaba sendo massa dos dirigentes do status quo.

Esse conjunto de característica foi associado a uma possível “onda conservadora”, mas nem de longe pode ser considerada uma ofensiva de grupos da extrema-direita. A definição sobre a ascensão de uma fração fascista à frente do Estado dependerá da correlação de forças entre o capital e o trabalho, além das necessidades do capital, de sua reprodução.

Outra situação em que surgiu com bastante força a denominação de “onda conservadora” foi no processo eleitoral de outubro de 2014. Nesse processo em que se polarizou a disputa entre PT e PSDB houve, por parte de ideólogos ligados ao PT, uma campanha para fazer crer que o PT representava a esquerda, os trabalhadores e a juventude, ao passo que o PSDB representava a parte mais reacionária da sociedade. Essa falsa polarização entre esquerda e direita, resultado do suposto acirramento da luta de classes e de um levante da “onda conservadora”, de cunho fascista, como nos queria fazer crer os petistas nestas eleições presidenciais de 2014, pode ser facilmente refutada na composição ministerial do novo governo Dilma, em que todas as frações da classe burguesa estão representadas nas figuras de Kátia Abreu, Gilberto Kassab, Joaquim Levy e Cid Gomes, por exemplo.

A verdade, porém, é que basicamente as mesmas corporações financiaram as duas candidaturas. As mesmas frações da classe burguesa estiveram representadas nas duas candidaturas. Não há, nesse sentido, nenhuma ameaça da direita ou da chamada extrema-direita. A burguesia compõe e dita as regras do governo petista, em suas diversas frações, seja o agronegócio, o capital industrial ou o capital financeiro.

Há ainda aqueles ideólogos governistas que não acreditam em uma “onda conservadora” como uma ascensão fascista, mas como um movimento de certas frações burguesas associada ao imperialismo americano para compor um governo bonapartista. Essa tese parte da premissa de que as outras frações da burguesia que compõe o governo do PT não estariam associadas ao imperialismo. No fundo, isto vem pra justificar sua postura de alianças de classes, de traição à classe trabalhadora.

2011_governo_lula_informal_f_012Para nós, militantes do Coletivo Contra-Corrente, a defesa da existência de uma onda conservadora serviu fundamentalmente para tentar afirmar setores que capitularam como setores de esquerda ou em disputa, no caso o PT. Mas não deixamos de acreditar que a ascensão de uma “onda conservadora” pode estar por vim pela frente. Essa possibilidade está fortemente vinculada com a crise que se avizinha, identificada tanto pelos economistas burgueses como pelos críticos da economia política. Esta onda conservadora pode ser formada pelos germes fascistas que uma fração da burguesia aponta como necessária para estabelecer um governo despótico/militar que lhes proporcionaria mais lucros. Cabe à esquerda em geral, e às/aos comunistas em particular, propagandear na classe trabalhadora, especialmente no operariado, as contradições viscerais entre seus interesses e os interesses da burguesia, bem como o projeto histórico da classe operária, a saber, a revolução socialista, com o consequente fim da exploração do homem pelo homem.

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2 http://jornalismob.com/2013/04/02/a-cronologia-de-uma-violencia-midiatica-a-cobertura-dos-protestos-de-porto-alegre-em-zero-hora/


O Dia da Mulher e o lento, meticuloso trabalho feito para elevar a autoconsciência da mulher trabalhadora estão servindo à causa, não da divisão, mas da união da classe trabalhadora.”(KOLLONTAI)

17502006_l7sSGMais um 8 de março chegou e, junto com a data, surgem todas aquelas ‘homenagens’ às mulheres: homenagens a sua delicadeza e sensibilidade, a seus incríveis papéis como mães, esposas, ao grande avanço que deram no mercado de trabalho, nas universidades etc, etc. Mas afinal, há o que se comemorar? As mulheres são maioria no planeta, estão entre as mais pobres (mais de 70%), mais exploradas, com os mais baixos salários e ainda precisam carregar uma tripla jornada de trabalho (trabalho, cuidadoras do lar e nas tarefas de reprodução da espécie). Elas carregam o duro fardo de serem duplamente oprimidas: pelo capital e pela escravidão do lar.

Embora vejamos um 8 de março de comemorações e pequenos atos que reivindicam apenas direitos políticos, nem sempre foi assim. O dia internacional da mulher nasceu das mulheres trabalhadoras, de uma experiência real da classe. Foi a partir da auto-organização das mulheres, em conferências internacionais que são construídas na Internacional Comunista, que o dia internacional das mulheres é criado, e que tem sua data finalmente escolhida em 1921(durante vários anos, cada país tinha autonomia para escolher uma data para o Dia da mulher), em lembrança a greve das tecelãs, que foi o grande estopim do começo da primeira fase da revolução russa (a revolução de fevereiro). A experiência da revolução russa trouxe alguns avanços importantes para as mulheres russas, como a criação de infantários públicos, cozinhas e lavanderias coletivas, igualdade legal etc, mas, depois da experiência stalinista e de todo retrocesso que ela trouxe para as mulheres soviéticas, o dia internacional da mulher perdeu todo o seu caráter classista e combativo.

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Perdido o caráter de classe do dia internacional das mulheres e a organização internacional das mulheres socialistas, o que restou foi o movimento feminista sufragista, liberalista, pequeno-burguês e reformista para dar conta da organização das mulheres, que, a partir de então, assume um caráter particular que não dialoga com a totalidade social e, portanto, não consegue avançar nas discussões de classe. A crença na possibilidade da emancipação real das mulheres a partir de reformas no sistema, a partir de aquisições de direitos é o que move esses “novos movimentos feministas”, mas como disse muito bem o Lênin:

O capitalismo alia à igualdade puramente formal a desigualdade econômica e, portanto, social. Essa é uma de suas características fundamentais hipocritamente dissimulada pelos defensores da burguesia e pelos liberais (…)

Mas, mesmo no que se refere à igualdade formal (igualdade diante da lei, a “igualdade” entre o bem nutrido e o esfaimado, entre o possuidor e o espoliado), o capitalismo não pode dar prova de coerência. E uma das manifestações mais eloquentes de sua incoerência é a desigualdade entre o homem e a mulher.” (LÊNIN)

Diante disso, compreendemos que o movimento feminista deve lutar por interesses comuns a classe trabalhadora, mas sem esquecer que existem demandas que estão relacionadas a demandas da classe, mas apresentam características especificas das mulheres, como sua condição de mãe, ‘esposa’ e ‘dona-de-casa’. Eis a grande diferença entre as feministas burguesas e as socialistas: enquanto as primeiras reivindicam direitos políticos, inclusive o direito de explorar outras mulheres, as segundas reivindicam direitos para todos os trabalhadores, a emancipação de toda sua classe:

Qual o objetivo das feministas burguesas? Conseguir os mesmos avanços, o mesmo poder, os mesmos direitos na sociedade capitalista que possuem agora os seus maridos, pais e irmãos. Qual o objetivo das operárias socialistas? Abolir todo o tipo de privilégios que derivem do nascimento ou da riqueza. À mulher operária é-lhe indiferente se o seu patrão é um homem ou uma mulher.
As feministas burguesas demandam a igualdade de direitos sempre e em qualquer lugar. As mulheres trabalhadoras respondem: demandamos direitos para todos os cidadãos, homens e mulheres, mas nós não só somos mulheres e trabalhadoras, também somos mães. E como mães, como mulheres que teremos filhos no futuro, demandamos uma atenção especial do governo, proteção especial do Estado e da sociedade.”(
KOLLONTAI, A.)

A sociedade capitalista é caracterizada pelo trabalho assalariado e extração de mais-valia, construindo relações sociais em que a sociedade é dividida em classes sendo duas principais: aquelas que produzem e vendem sua força de trabalho e aquelas que detém os meios de produção e compram a fora de trabalho. É importante para os burgueses (aqueles que compram a força de trabalho) criar e reproduzir formas de opressão para extrair mais valia da força de trabalho. A força de trabalho feminina executa na mesma jornada de trabalho as mesmas tarefas que a força de trabalho masculina e tem um salário menor. Combater a opressão de gênero é um elemento necessário para combater a classe burguesa. Como comunistas, defendemos o fim do Estado e consequentemente o fim das classes sociais; e não a sua reforma, por isso acreditamos que o movimento feminista não pode fugir disso. Não é a organização das mulheres, de classes distintas, que nos levará a uma emancipação real, é a organização das mulheres trabalhadoras, numa perspectiva socialista que nos levará. Como disse o Iasi , “a luta das mulheres tem um caráter estratégico na transformação integral da sociedade”.

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LÊNIN, V.I. O dia internacional da mulher ( 1920, in: O socialismo e a emancipação da mulher. Editorial Vitória, 1956.

KOLLONTAI, Alexandra. O dia da mulher.

IASI, Mauro. Olhar o mundo com os olhos de mulher?