Movimento Estudantil – UNEB


Nos próximos dias 16, 17 e 18 de Outubro, ocorrerá na UNEB (Universidade Estadual da Bahia) o evento Outubro Vermelho com o tema: Um debate Político sobre os 96 anos da Revolução Russa.  Compreendendo a importância debate desta experiência histórica na luta contra o capitalismo e suas implicações no entendimento da conjuntura política mundial atual, convidamos todxs a  participar dos debates do evento!

Inscrições: mandar email para outubrovermelho@live.com, com assunto INSCRIÇÃO
dados:
– Nome completo/RG
– e-mail
– Telefone
– Instituição de ensino/número de matricula (caso pertença a alguma)

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INTERTEXTO

Primeiro levaram os negros

Mas não me importei com isso

Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários

Mas não me importei com isso

Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis

Mas não me importei com isso

Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados

Mas como tenho meu emprego

Também não me importei

Agora estão me levando

Mas já é tarde.

Como eu não me importei com ninguém

Ninguém se importa comigo.

(Bertold Brecht)

Faremos aqui uma análise introdutória sobre o processo de construção de uma Unidade de Polícia Pacificadora, conhecida por UPP, dentro da UNEB para ‘atender’ o bairro da Engomadeira. Esta formulação não dará conta de elementos necessários para compreensão do problema (como o extermínio da população negra e uma crítica a como o Projeto Democrático Popular ainda influencia nas análises de alguns grupos), mas tentaremos trazer a tona os elementos centrais de nossa análise.

Antes, é necessário lembrar que vivemos em uma sociedade em que a apropriação do espaço urbano não é voltada para atender as necessidades sociais, mas para que os setores de circulação do capital no espaço urbano extraiam a maior quantidade de lucro possível. Na cidade de Salvador, não é difícil visualizar as contradições geradas a partir disso, pois, ao mesmo tempo que vemos grandes arranha-céus em regiões de encosta no Campo Grande e no Corredor da Vitória, vemos também anualmente os noticiários trazendo manchetes sobre os desmoronamento de inúmeras casas nas encostas das periferias por não terem a mesma infraestrutura dos grandes prédios do centro. A essa questão dão como resposta o fato de ser uma construção desordenada em áreas de risco, ao invés de deixar claro que o problema está nas condições de apropriação destes espaços. A humanidade já desenvolveu a capacidade de produzir grandes obras em regiões não favoráveis (como encostas), mas, quando está em jogo o interesse pelo lucro, é possível ter favelização ao mesmo tempo em que há grandes empreendimentos.

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É na lógica de garantir a melhor estrutura (hospitais, escolas, teatros, shoppings, farmácias) para os espaços em que há mais circulação de capitais – no caso de Salvador são as regiões turísticas e comerciais – que se potencializa um processo de ‘urbanização’ em algumas partes da cidade (Barra, Ondina, Rio Vermelho, Pituba, Iguatemi) e favelização em outras partes (Pirajá, Cajazeiras e, entre tantas outras, Periperi). As áreas favelizadas próximas às regiões em que o capital vem se desenvolvendo são as primeiras a sofrerem intervenções do Estado para que se adequem às novas necessidades do capital, como acontece com o Calabar nas imediações da Barra (assim como o Nordeste de Amaralina para o Rio Vermelho e para a Pituba).

Uma das estratégias usadas pelo Estado para desapropriar e expulsar as populações dessas regiões é a construção de UPPs. Trata-se de um projeto que pretende instituir polícias comunitárias em regiões favelizadas como forma de desarticular quadrilhas que antes controlavam estes territórios. Entretanto, não é difícil observar que essa pretensão é uma farsa de caráter hediondo que revela uma das macabras facetas do Estado ao falsear a realidade, impondo como causa geradora da violência, única e exclusivamente, o tráfico de drogas. Desse modo, justifica o genocídio de habitantes de periferias, normalmente trabalhadores e seus filhos – quase sempre descriminados por serem negros – em nome de uma “pacificação” que atenda aos interesses dos grandes empresários e das grandes corporações.

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As UPPs são, desse modo, um mecanismo do Estado de controle social de áreas desassistidas de serviços básicos como saúde, educação, pavimentação e transportes, lazer entre outros tantos, mas que marginalizadas pelas condições materiais de seus moradores e criminalizadas pelo tráfico de drogas, são vistas como pontos chaves para a intervenção policial. É preciso ressaltar que tais intervenções se reduzem ao pobre e ineficaz debate sobre segurança pública existente no país, que aponta como sendo a solução dos problemas a efetivação de mais policiais e intervenções mais ofensivas. Apesar de novas roupagens essa “nova forma” de controle social vem com o mesmo conteúdo de toda ação policial: a opressão via força e a coação via legitimação da polícia enquanto força pública mantenedora da ordem.

Sabemos que a real intenção dessa atitude é tirar do foco o cerne da questão: a existência da favelização como resultado de um processo histórico de dominação de uma classe sobre toda a riqueza que é produzida pelo trabalho de outra classe. O papel do Estado é servir a classe dominante, usando de sua estrutura política, jurídica e militar para perpetuar a relação de exploração. Essa é a raiz de tantos problemas (tráfico de drogas, altos índices de violência urbana, etc) que aparentemente se colocam como contradições a serem resolvidas sem romper com os marcos do capital.

A construção de uma UPP na UNEB para intervir na região do Cabula e Engomadeira decorre das necessidades de se construírem novas alternativas de acesso para as regiões do Iguatemi, da Paralela e Acesso Norte, como a construção da via expressa e da linha Viva. Nessas áreas, estão surgindo diversos empreendimentos como shoppings, condomínios, centros empresariais, o que vem a “justificar” a necessidade de uma base comunitária na região.

Não é a primeira vez que nos deparamos com as contradições reveladas a partir da construção de UPP’s. No Brasil, cada vez mais há um incremento no número dessas unidades evidenciando que o seu papel é controlar as atividades em determinados locais a fim de reduzir a criminalidade (lê-se impor austeramente a política repressora e punitiva da polícia). Tais contradições dão base para que se constituía um movimento de embate à postura da UNEB que, em momento algum, consultou aos seus membros, acatando, de cima para baixo, uma decisão do governo do Estado.

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O que se vê na UNEB é a interferência do estado da Bahia na ‘autonomia’ universitária, construindo uma unidade policial com o intuito de vigiar e criminalizar os moradores do entorno da universidade. A comunidade acadêmica desconhece como se deu esse processo. É sabido que as Universidades em geral contradizem o seu discurso ao produzir conhecimento para benefício de uma parcela privilegiada, na grande maioria dos casos, e, quando tem caráter de intervenção social, normalmente não se coloca em uma perspectiva de criticar a sociedade capitalista e nem de combatê-la.

Compreendendo todas as circunstâncias redigidas, o Coletivo Contra Corrente apóia o ato contra a instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora da Universidade do Estado da Bahia. Entretanto, a luta não se encerra na universidade, é preciso estar junto com a comunidade de Engomadeira, articulados contra essa ação. Sabemos que tais intervenções, além dos problemas imediatos como exterminío e aumento das abordagens violentas, tende a interferir no processo de organização dos moradores. Diante disso, ressaltamos a importância dos moradores da Engomadeira, trabalhadores e estudantes da UNEB, manterem-se organizados de forma autônoma perante essa política pacificadora.