Movimento Estudantil Nacional


copa-capitalismo-contradicoesDe acordo com a FIFA, a grande festa do esporte retorna ao país do futebol. A entidade proclama que durante a Copa do Mundo, todos os brasileiros andarão “Juntos em um só ritmo”. Entretanto, o que justifica que 1,5 mil policiais com sua cavalaria armada removam 6 mil famílias dos entornos dos estádios do RJ¹? Que 8 operários percam sua vida nas obras dos estádios?² Que 250 mil pessoas percam suas casas sem pagamento das devidas indenizações?³ Ao que parece, muitos brasileiros estão em um ritmo bastante diferente da entidade internacional do futebol.
Por um lado, a Copa do Mundo aparece ao Brasil enquanto uma possibilidade de vitória para a nação, além de um benefício para a infra-estrutura do país. Aparece enquanto a prática saudável do esporte proporcionando diversão e lazer para a totalidade dos brasileiros: super-homens que atingem as capacidades de desempenho e de performance esportivas – força, velocidade, superação de limites físicos, etc. – inimagináveis pelos não-atletas; vemos equipamentos e materiais da mais alta e avançada tecnologia sendo produzidos.
Por outro lado, vemos a degradação da natureza explicitada por gigantescos elefantes brancos, na infra estrutura urbana, ou na exploração da força de trabalho de operários da construção civil, que precisam cumprir prazos, metas e projetos sob as piores condições de pressão, com direitos trabalhistas irrisórios, sem condições de trabalho e salários.  Ao lado disso, vemos a destruição de vidas inteiras por conta de anos de treinamento desportivo ou pelo uso de substâncias químicas; vemos também a utilização da força de trabalho de atletas ser sugada até as suas últimas reservas.
Ao analisarmos este outro lado, entendemos toda a lógica que está por trás dos megaeventos esportivos: O importante é gerar mais lucro às empresas que irão patrociná-los (A FIFA estima o lucro de, pasmem, 10 bilhões de reais) enquanto o Estado paga 85% dos gastos. Por meio de obras gigantescas, vendas de imagens dos jogadores, materiais esportivos e álbuns de figurinhas os empresários se lambuzam com os lucros provenientes do megaevento esportivo.
Mas por que isso acontece? A copa do mundo não passa de um reflexo de outros elementos presentes em nossa sociedade. Não é à toa, por exemplo, que operários das obras da copa não tinham acesso à moradia e estavam expostos a péssimas condições trabalhos a ponto de 8 deles morrerem. A estes trabalhadores, assim como à imensa maioria da população, não resta outra possibilidade para sobreviver senão vender suas forças de trabalho para quem pode comprá-la. Estes últimos, que detém os meios necessários para produzir a vida em sociedade (máquinas, fábricas, etc) são a Classe Burguesa; Esta classe vive às custas da exploração do trabalho daqueles primeiros. A Odebrecht, construtora de quatro estádios da Copa, teve lucro líquido de 490 milhões em 2013, enquanto às famílias dos operários mortos resta somente lamentar suas perdas.
Vivemos em um cenário em que os trabalhadores precisam trabalhar muito para garantir o sustento de suas famílias. Um momento em que o tempo livre, bastante reduzido, é usado para repor as energias gastas com o trabalho ou tentar qualificar sua força de trabalho (escola, universidade) para poder vendê-la por um pouco a mais futuramente, visando a melhoria da qualidade de vida da família. As mudanças que ocorrem caminham no sentido de retirar direitos historicamente conquistados pela classe como: jornada de trabalho de oito horas, férias remuneradas, garantia à aposentadoria; as horas extras tornam-se centrais para manter o salário necessário para o trabalhador, etc.
Esse cenário não ocorre à toa. Não é produto do destino e nem proveniente das idéias de um grupo especial de pessoas que planejaram fazer a sociedade funcionar assim. É, ao contrário, produto da organização da classe trabalhadora durante um longo período no Brasil, através do PT e sua estratégia, o Projeto Democrático e Popular.
No fim da década de 70 os trabalhadores brasileiros começam uma ascensão reivindicatória como resposta às pioras de condição de vida da classe naquele período. Ocorrem grandes greves nas regiões fabris – agora a classe trabalhadora têm uma nova forma de lutar que coloca em prática. Agora o projeto da classe para tentar garantir seus direitos é, não só através das mobilizações de massas, e aqui vemos os grandes braços do PT, a CUT, MST, UNE, mas também da luta institucional, na ocupação do Estado pelos trabalhadores para a construção de reformas que beneficiem a classe e rumem a uma transformação da sociedade, o Socialismo.
Nesse período, os dirigentes sindicais estavam junto do trabalhador do “chão da fábrica”, ao lado do camponês, viviam o cotidiano de seu trabalho e estavam junto dos seus colegas. Ao ocuparem cargos estatais para garantir as reformas públicas eles não só se distanciam dos trabalhadores como tiram deles a resolução dos seus problemas. Agora o trabalhador constrói seu projeto político votando na pessoa que fará por ele. Agora os movimentos sociais são cooptados e utilizados como manobra para garantir as reformas que o governo pretende por em prática. Mas essas reformas, que poderiam potencializar a condição de vida do trabalhador, perdem seu caráter, pois nesse projeto político construiu-se uma aliança com o empresariado, que visa aumentar suas taxas de lucro e, portanto, aumentar a exploração dos trabalhadores. As reformas agora atendem ao interesse dessa classe em detrimento dos trabalhadores. Vemos assim a cada vez maior exclusão dos direitos do funcionalismo público, da garantia das horas de trabalho e ao invés de melhorar a condição de vida dos trabalhadores, vemos o incentivo ao crédito para o empresário e a garantia de investimentos públicos monumentais para os donos de grandes capitais, como a Copa do Mundo.
A classe não vive só dessa proposta política. Ela, ao não dar respostas à realidade, começa a ser negada e os trabalhadores começam expressar alguns traços de inconformidade. Estamos presenciando um momento em que a incoerência do ciclo de lutas encabeçado pelo PT começa a demonstrar sua insustentabilidade e a ascensão de uma nova forma de fazer luta desponta no país. Nos últimos anos ocorre um crescimento do número de greves no Brasil, é o trabalhador se colocando como protagonista do seu interesse. E ao mesmo tempo em que esse ciclo de cooptação do trabalhador definha grandes eventos que desmascaram o papel do Estado acontecem.
A exemplo disso, para caracterizar a despreocupação e truculência despendidos com os trabalhadores, citamos o recente ocorrido com os moradores da favela Metro-Mangueira, situada próxima ao estádio do Maracanã, onde mais de mais de 500 familias foram expulsas de suas casas e tiveram-nas demolidas para, segundo a Prefeitura da cidade, construir um centro comercial e áreas de lazer. Podemos ainda relembrar o caso dos moradores da região do Engenho Novo, Zona Norte do Rio, em que 80 militares e 1,5 mil policiais desabrigaram mais de 8 mil trabalhadores, situação que foi marcada por uma série de tumultos e ações violentas. Essas remoções forçadas têm representado uma calamidade para diversas famílias brasileiras. Desde o início das obras para a Copa do Mundo, estima-se que 250 mil pessoas estejam passando por despejos relacionados às construções para o evento. Nota-se, com isso, que o real interesse do governo é entregar as terras e a força de trabalho do proletariado brasileiro ao mercado e seus projetos, deixando os empresários enriquecidos e a classe trabalhadora, desvanecida.
O papel dos Megaeventos no Brasil, e em todo o mundo, está articulado à forma de organização da sociedade capitalista e condiz, obviamente, com os interesses da classe dominante. Esta sociedade baseia-se na apropriação individual do trabalho coletivo onde os burgueses, donos dos meios de produção (fabricas, terras, matérias primas etc.), apropriam-se das riquezas produzidas pelos trabalhadores. Periodicamente esse sistema passa por crises de superprodução de mercadorias onde a tendência é a queda da taxa de lucro devido à falta de mercado consumidor para os seus produtos, por isso, o capitalismo por sua natureza tende a ser expansionista, ou seja, sempre tentará buscar novos locais/mercados para que o ciclo da mercadoria possa ser realizado.
Diante desse quadro, os megaeventos cumprem um papel fundamental que é possibilitar a circulação do capital através das construções de instalações esportivas, obras de infraestrutura e através também da mercadorização do esporte, ou seja, ampliando seus locais de aplicação. Na última década, o eixo dos megaeventos tem sido girado para os países subdesenvolvidos, visto que estes têm maiores carências na estrutura de aeroportos, rodovias e instalações esportivas; precisando, assim, de uma maior quantidade de obras de infraestrutura para se adaptar aos padrões FIFA e COI do que os países desenvolvidos. Dessa maneira, os Estados Nacionais dos países periféricos acabam deslocando verbas para a iniciativa privada (nacional e internacional) em colossais proporções.
As últimas estimativas apontam que os gastos com a Copa do Brasil ultrapassarão os 30 bilhões de reais, dos quais mais 85% são de dinheiro público, enquanto a estimativa inicial era de até 26 bilhões. Há quem diga que esses gastos podem superar os das três últimas Copas (Japão, Alemanha e África do Sul) somados.
A justificativa oficial para legitimar a vinda dos megaeventos e os seus gastos abusivos do dinheiro público gira em torno dos supostos legados que este poderia trazer para a população brasileira.  Isso legitima que o país realize obras que durariam décadas em um curto período de tempo, colocando uma boa visibilidade ao país a nível mundial e, supostamente, deixando “legados” para a população local, como a melhoria da infraestrutura e mobilidade urbana, rodovias, aeroportos, etc. Entretanto, estas aconteceram em número extremamente reduzido em relação ao planejamento inicial e em sua maioria nos locais estratégicos para a realização da Copa, não de acordo com as necessidades da população.
Em linhas gerais, a vinda dos megaeventos segue a risca a cartilha Neoliberal dos governos PSDB e PT, na medida em que as obras financiadas com o dinheiro público serão entregues aos grandes empresários para que esses possam extrair lucro. Todos os estádios da Copa serão privatizados após os jogos (lembrando que três deles já estão privatizados: Itaquerão em São Paulo, Beira Rio em Porto Alegre e Arena da Baixada em Curitba) apesar de 90% dos gastos com os estádios advirem dos cofres públicos)
Um dos primeiros contrapontos aos Megaeventos pode ser constatado em meados do ano passado durante a Copa das Confederações: muitas pessoas indo às ruas, aparentemente insatisfeitos unicamente com a má qualidade do transporte público, mas que se torna um movimento de massa agregando as mais diversas pautas, inclusive a contrariedade à Copa do Mundo. Estas mobilizações, mais que um simples levante espontâneo, são um ressurgimento das mobilizações no nosso país depois de mais de uma década neoliberal do governo PT.
Como forma de conter as mobilizações, o Estado e os seus governantes vêm apostando todas as suas fichas no seu poder repressor, expressos na “leis antiterrorismo” e no investimento absurdo do patrimônio público: 1,9 bilhões em equipamentos, transporte e custeio de um contingente de 157 mil soldados para garantir a realização da copa. Tudo isso somado à isenção de 1 bilhão de reais garantidos pelo Estado brasileiro, que garantirá que a FIFA e os seus megaempresários tenham o maior lucro da história de todas as Copas
Embora não tenham se repetido as grandes manifestações do ano passado, esse ano vimos o ascenso de várias categorias de trabalhadores organizados que há muito não se movimentavam, e muitas vezes contra suas próprias direções. Podemos dizer que toda aquela quantidade de manifestantes vista ano passado começa a dar sinais que pode se transformar em qualidade, onde as reinvidicações estão bem mais claras, estão focadas na luta contra a extração de mais valia e as organizações tradicionais da classe trabalhadora como os partidos e os sindicatos não são rechaçadas.
Estamos cientes que todo estudante que ler esse texto tem alguma insatisfação com sua formação, seja o transporte, com o restaurante universitário lotado, no currículo que não atende as nossas necessidades profissionais, na falta de professores e muitos outros, e pode ficar a pulga atrás da orelha: “o que isso tem a ver com os megaeventos?”. É difícil fazer esse exercício de “juntar” fatos aparentemente sem relação, mas é preciso, pois, um ajuda a entender o outro. Os recursos tão necessários para garantir uma educação com o mínimo de qualidade estão sendo onerados nas construções de gigantes inúteis, inúteis ao menos para os nossos objetivos, mas um grande negócio para a FIFA e seus sócios.
Diante da constatação desses elementos da conjuntura, megaeventos como lógica destrutiva, o sucateamento da educação, a intensa repressão policial e ao mesmo tempo uma retomada das greves e da rua como local de reinvindicação dos trabalhadores, aparentemente poderíamos não relacionar todos esses fatos, mas no atual cenário essa ligação entre eles é evidente. Fica a questão: o que exatamente cabe à nós estudantes nesse momento? Qual nossa real capacidade diante desses acontecimentos? E, sabendo das nossas capacidades, qual é a nossa tarefa?
Primeiro devemos medir nossas forças, há uma condição histórica que limita nossas ações, vejamos quanto transtorno causa aos patrões uma greve de trabalhadores rodoviários, em poucos dias o impacto é tremendo, e uma greve de estudantes, podemos citar o caso concreto da recente greve na UECE (Universidade Estadual do Ceará), durou três meses até os estudantes conseguirem negociar com o governo do Estado, e ainda assim, poucas reivindicações foram atendidas. Percebemos assim, que os as conquistas estudantis sem o conjunto da classe tendem a ser curtas, que a conquista final se dá com o triunfo do conjunto da classe.
Outro limite é conjuntural, pois hoje os estudantes encontram-se fragmentados sem nenhuma entidade nacional que consiga nos agrupar, e fazer valer nossas reivindicações, dizendo de outra maneira “não podem se vestir com nossos sonhos” logo, não podemos admitir que “falem em nosso nome”, mas, se o problema é não termos uma entidade, fica questão por que não criamos uma? Por que não é um simples ato de vontade, se criarmos um instrumento que não seja construído com o conjunto dos estudantes essa nova entidade pode se limitar à ser mais uma logomarca e um adesivo, e nossas necessidades de organização vão além desses adornos.
O panorama é este, um limite histórico nos coloca como coadjuvante nas lutas, pois nossa força máxima só aparecerá junto à classe trabalhadora, e outro – conjuntural -nossas poucas forças estão fragmentadas e por isso não conseguimos ser relevantes, mas esses limites não querem dizer que há tarefas a serem cumpridas, entendemos que o caminho mais sólido, porém o mais difícil para superar, é o que chamamos de trabalho de base.
Por trabalho de base entendemos a atuação cotidiana nos nossos locais de estudo, pois só compartilhando diariamente os problemas vividos pelos nossos colegas é que entenderemos quais as demandas que podem impulsionar a luta, mas isso só não basta, é necessário estudar para entender melhor a realidade, entender o projeto de educação que está sendo implementado e a quais interesses ele serve, entender que educação na qualidade que sonhamos não se realiza nessa sociedade, por isso devemos lutar também por outra sociedade, é preciso socializar com os nosso colegas as conclusões de nossos estudos por diversos meios, em conversas no corredor, em textos publicados no curso ou em grupos de estudo.
Cotidianamente precisamos conversar com nossos colegas sobre as dificuldades e os problemas que enfrentamos na universidade. Trabalhar as questões cotidianas com os colegas é fomentar as reflexões sobre o curso, a universidade, sobre o que ele está fazendo ali. É através dessa conversa, de espaços que debatam temas pertinentes, que o estudante começa a perceber que os problemas que pareciam ser só dele ou do seu grupo de amigos na verdade são de todos os estudantes, em todas as universidades. A culpa disso é esse projeto de educação superior minimalista e temos que dar uma resposta a isso. Temos que dizer um grande não a esse ensino precarizado, quantas vezes for necessário
As jornadas de junho mudaram a conjuntura brasileira. A discussão política volta a interessar a juventude. Esse fato evidencia que a tarefa do momento é continuar a conscientizar nossos colegas, a estudar mais sobre como essa sociedade funciona, a pensar melhor que caminho devemos seguir, e, principalmente, a se colocar em movimento pela luta por uma sociedade que não haja exploração do homem pelo homem, e que o esporte não seja mais um evento na televisão e sim faça parte da vida de todo trabalhador. Só assim futuras Copas serão realmente do povo e para o povo.

Este texto foi produzido pela Articulação Nacional, composta por:
Coletivo Outros Outubros Virão
Lutar e Construir
Resistência Socialista
Contra Corrente

¹ Folha de Italva – 11/04/14
² Globo Esporte – 30/01/14
³ Portal Popular da Copa – 19/02/14

Coletivo Outros Outubros Virão

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Não é a toa que nosso coletivo é assim chamado. No mês de Outubro de 1917 ocorreu uma das experiências mais transformadoras da história tendo como objetivo a eliminação da sociedade de classes e da propriedade privada. A Revolução Russa, primeira revolução socialista marxista, marcou um momento revolucionário mundial e é um exemplo a ser seguido e superado pela classe trabalhadora em luta!

Abominamos a sociedade em que vivemos: capitalista, marcada pela apropriação privada dos meios de produção e circulação, pela divisão em classes, pela impossibilidade de desenvolvimento do ser humano em todos os seus âmbitos, pela alienação e fragmentação de nossas vidas.

Atuamos no Movimento Estudantil entendendo-o como um dos setores dentro desta sociedade cindida em que se devem escancarar as contradições e agir, se movimentar, denunciar, se organizar junto com a classe trabalhadora, porque – com base na teoria e na prática revolucionária –  acreditamos que Outros Outubros…

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HISTÓRICO
A Articulação Nacional (AN) começa a apresentar seu esboço no final de 2011, resultado da relação entre alguns coletivos do Movimento Estudantil: Além do Mito, Contra Corrente, Lutar e Construir, Outros Outubros Virão e um grupo de estudantes do Ceará – hoje, Resistência Socialista.
A demanda dessa articulação vem da análise de que esses coletivos teriam muito a contribuir uns com os outros com o intuito de potencializar a atuação e intervenção na realidade, além de socializar a formação teórica acumulada por cada coletivo.
A partir dessa relação, já tivemos alguns frutos importantes. Durante a greve nacional que ocorreu em 2012, lançamos duas edições do Além do Que se Vê, um jornal produzido pelos coletivos que compunham a AN. Esses jornais trazem nossa análise sobre a movimentação, bem como outros debates que fundamentam nossa ação. Além disso, em março de 2013, realizamos um Seminário presencial, para afinar alguns debates e sistematizar nossos acúmulos. A partir desse seminário, foi produzido o presente documento, que visa tornar pública a AN, bem como explicar o que nos une. Devemos salientar que aqui apresentamos sínteses sucintas de nossas concepções, que não devem dar conta de explicar a fundo cada um dos temas.

O QUE É A ARTICULAÇÃO NACIONAL
A AN é uma articulação entre coletivos do Movimento Estudantil que busca potencializar nossa organização, buscando alternativas de discussão e atuação para além das entidades nacionais que se colocam hoje. Fazemos a troca de debates, de formas de atuação, de análises e formulações, visando interferir de maneira conjunta e qualificada no ME nacional. É importante salientar que a AN não se propõe a ser uma entidade, mas um espaço qualificado de debate e aprimoramento das ações.

PRINCÍPIOS DA AN
A Articulação Nacional atua e se organiza a partir de quatro princípios:

1. Referencial teórico marxista utilizando o Método Materialista Histórico Dialético:
Para que tenhamos intervenções qualificadas e análises coerentes da realidade, precisamos nos utilizar de um método, o qual delineia nossa forma de ver e compreender o mundo. Avaliamos que o mais avançado para isso é o Método Materialista Histórico Dialético, a partir do qual pode-se compreender a realidade como histórica, determinada socialmente, datada e sempre em movimento. Além disso, a perspectiva marxista coloca a luta de classes como central para a compreensão do movimento da sociedade capitalista, fundamentalmente formada por duas classes antagônicas: burguesia e proletariado.

2. Concepção de Estado:
Compreendemos que o Estado é resultado da sociedade de classes e, em qualquer época, defende os interesses da classe dominante. Na sociedade capitalista, dividida em burguesia e trabalhadores – antagonicamente inconciliáveis –, o Estado desenvolve-se de diferentes maneiras, utilizando, em alguns momentos mais e em outros menos, de seus instrumentos para reprimir a classe trabalhadora. Entendemos que só o proletariado é a classe por excelência revolucionária, capaz de iniciar o processo que resultará em uma tomada violenta do poder, a destruição da estrutura do Estado burguês, a implementação da ditadura do proletariado, que cria as condições para o desaparecimento das classes e consequentemente o definhamento do Estado e a construção do Comunismo.
Para isso, avaliamos que as experiências que colocaram a disputa do Estado burguês como meio estratégico demonstraram que essa via leva a derrotas da classe trabalhadora, que, ao invés de culminar na ruptura revolucionária, apresenta-se como forma de conciliação de classes, submetendo o proletariado aos interesses da burguesia. Além disso, é uma questão de princípio não disputar o Estado burguês (não acreditamos que essa disputa seja possível), mas não é um princípio não utilizar de alguns meios, como a via eleitoral, para divulgação do programa socialista. Essa questão deve ser parte da análise de conjuntura e elaboração da estratégia e das táticas em cada momento concreto.

3. Análise do ciclo e perspectiva de superação do Projeto Democrático Popular (PDP):
Compartilhamos da análise de que a esquerda brasileira hoje reproduz uma forma de militância que precisa ser superada. Essa forma, em que expressa um conteúdo reformista, afasta os movimentos de uma perspectiva de superação dessa sociedade, e é fruto do último ciclo de lutas da classe trabalhadora construído através do desenvolvimento do Partido dos Trabalhadores (e suas expressões no Movimento Sindical e Estudantil – CUT e UNE, respectivamente) num movimento de distanciamento da base e entrada no aparelho do Estado. Esse desenvolvimento contém em si as contradições da classe no momento histórico em que ocorreu e mostra o caminho que hoje avaliamos como desviante de nossa luta principal.
Nossa avaliação é que a reprodução de uma militância em que se faz pelos estudantes apenas, deixando-os como meros seres votantes, que escolhem seus representantes, educa-os a não se mobilizarem e atuarem coletivamente. Herdeiros que somos desse ciclo, o submetemos à crítica e buscamos superar o afastamento da base, o personalismo, o tarefismo, a agitação vazia de conteúdo, a falta de estudo, entre outros, tão característicos da forma como somos socialmente formados para a militância.

4. Concepção de Movimento Estudantil (ME):
Entendemos o ME como setor policlassista e a universidade como reprodutora das relações capitalistas, mas que ainda nos possibilita atuar no sentido de avançar na consciência de classe, ligando as pautas do ME à realidade da luta de classes. Os estudantes devem ser aliados da classe trabalhadora e atuar no ME compreendendo que ele não deve ser um fim em si mesmo.
O ME, então, deve cumprir o papel fundamental de fomentar a formação de novos quadros comunistas, por ser um espaço de experimentação, de enfrentamentos e que expressa as contradições do capitalismo.
Nesse sentido, pautamos a necessidade da atuação no ME ser associada à organização e ao processo de reorganização da classe trabalhadora, para não cairmos no erro de uma luta fragmentada da classe, nem lutarmos apenas por melhorias reformistas na Educação.

SOBRE A PARTICIPAÇÃO NA AN
A participação de novos coletivos na AN se dará a partir de debates internos dos coletivos que a compõem a partir dos seguintes critérios:
– Atuação no Movimento Estudantil que paute sua reorganização, priorizando o trabalho de base.
– Concordância em que a AN atue de acordo com seus princípios.
O afastamento de coletivos da AN se dará com base na discussão e avaliação interna da AN a partir da análise dos princípios, dos critérios e da organização interna.

Compartilhamos aqui nota do Outros Outubros Virão

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Nos últimos meses a comunidade acadêmica da UNESPAR esteve envolta na seguinte discussão: onde será a sede da Universidade? Em Curitiba, como deliberado pelo Conselho Universitário em 2011, ou em Paranavaí, a partir de decisão do governador do estado? Na terça, 04/06, foi decidido na Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP) que a sede será em Paranavaí, conforme indicação do governador. Para os estudantes, funcionários e professores da FAP que participaram do processo de reivindicação a sensação que fica é de imobilização – toda a movimentação feita não faz diferença para a decisão dos deputados?

Para evitar descrenças ou frustrações, é importante entendermos que a ALEP não é o foco de mudanças da realidade. Pelo contrário, a sua função primordial, assim como a de toda estrutura estatal, é a ordem da sociedade, ou seja, mantê-la tal como é.

Nossa sociedade é capitalista e dividida em duas classes: os proprietários e os trabalhadores. A manutenção da sociedade tal como ela é se refere, fundamentalmente, à manutenção da classe burguesa (proprietários) na sua posição de classe dominante (dona dos meios em que produzimos vida), ainda que em detrimento de melhores condições de trabalho e vida, direitos e vontades da classe trabalhadora – como expresso neste acontecimento na UNESPAR.

Na universidade isso se expressa de várias formas, como no fato das decisões sobre destinação de verba pública serem norteadas pelo interesse da classe dominante: seja priorizar as áreas acadêmicas diretamente ligadas à produção de conhecimento industrial e comercial, seja priorizando a instalação de fábricas ao desenvolvimento de espaços acadêmicos ou culturais. O próprio debate sobre a Autonomia Universitária e as decisões do COU deixou clara esta relação. Mesmo prevista por lei como instância deliberativa da Universidade, interesses externos à Universidade redefiniram o decidido no COU, bastando a indicação contrária do Governador para que a questão fosse encaminhada para ser discutida pelos deputados na ALEP e deliberada de acordo com esses outros interesses.

Além disso, a universidade cumpre uma função que não é a libertação humana, mas a formação dos trabalhadores, nos qualificando para diferentes atividades. Portanto, somos parte da classe trabalhadora, professores, funcionários, e estudantes (trabalhadores em formação). O Estado (ALEP e toda a estrutura governamental) tem em seu objetivo fundamental a manutenção da sociedade como está, atendendo os interesses da classe dominante. Então, como lutar pelos interesses da nossa classe? Como melhorar nossa realidade acadêmica, nossa formação como trabalhadores da arte, as condições de estudo, trabalho e vida?

Antes de tudo, é importante ressaltar que o Estado não é contra os trabalhadores, mas a favor da burguesia. Isso significa que até podemos ter conquistas na ALEP e outros, mas tais mudanças são mais facilmente desfeitas e dependeremos de boa vontade daqueles que votarão nossas pautas. A nossa ferramenta de mudança é outra: é o envolvimento e a participação de trabalhadores e trabalhadores em formação, que em grande mobilização exigem solução para suas demandas.

Foi assim que os estudantes da UFPR conquistaram suas pautas: o RU que hoje tem café da manhã, almoço e janta nem sempre foi uma realidade, mas resultado de várias lutas, greves e ocupações de reitoria. Ainda na UFPR, no ano passado (marcado pela greve de várias instituições federais de ensino superior) docentes, discentes e técnicos da UFPR conquistaram pautas conjuntas, tais como auxílio-creche para os estudantes e para a comunidade acadêmica, e o posicionamento do Conselho Universitário contrário à EBSERH (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares).

Outro exemplo em Curitiba de mobilização que conseguiu vitórias foi a campanha de lutas de 2012 dos professores municipais: a campanha dirigida pelo sindicato contou com uma greve de 2 dias, a participação de mais de 6 mil professores e quase 20% de aumento nos salários, que não eram reajustados há mais de 10 anos (conheça mais sobre esse processo no site do SISMMAC). Quem esteve na praça Nossa Senhora de Salette no dia 14 de março do ano passado, dia da paralisação de técnicos e docentes da FAP junto com outras universidades estaduais, deve lembrar quantas pessoas estavam reunidas na outra ponta da praça, em frente à Prefeitura.

E a luta continua!

Ainda há muitas pautas necessárias para consolidar uma Universidade que esteja comprometida com uma formação de qualidade. A assistência estudantil é uma delas: a UNESPAR é a terceira maior universidade estadual em número de estudantes, mas o que ela oferece para garantir que esses estudantes permaneçam na graduação e possam dedicar-se aos seus cursos? Assistência Estudantil não é sonho, é necessidade!

Ainda que as mobilizações não tenham garantido a sede da reitoria em Curitiba, nem a Autonomia Universitária do Conselho Universitário, a FAP/UNESPAR com certeza teve saldos do processo, pois cada vez mais aprendemos a nos organizar e lutar pelas melhorias na formação dos trabalhadores da arte.

Parte I – Afinal, como funciona a Sociedade?

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(imagens de  Pawel Kuczynsk)

É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.

Mas acreditem: é por acaso. Nada do que eu faço

Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.

Por acaso estou sendo poupado.

(Se a minha sorte me deixar estou perdido!)

(Bertold Brecht)

 

Quando lemos os noticiários diários ou até mesmo quando caminhamos pelas ruas de nossa cidade nos deparamos, muitas vezes, com realidades que expressam contradições. Vivemos em uma sociedade onde muitos têm pouco e poucos têm muito, onde alguns precisam se submeter a condições precárias de trabalho para garantir um sustento mínimo de vida e dos seus próximos, ou até mesmo onde muitos nem conseguem ter acesso a essas condições precárias de trabalho. Se o objetivo dessa formulação fosse listar as contradições da sociedade que vivemos, passaríamos o texto todo citando os mais variados exemplos, entretanto, esse não é o central. No momento, buscamos compreender, em linhas gerais, como essa sociedade se organiza e quais são os elementos gerais da conjuntura e como devemos encarar o atual momento, para então justificar as contradições observadas todos os dias.

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A sociedade capitalista é caracterizada pela relação de dominação e subordinação do processo de trabalho ao capital. Trabalho aqui é entendido como um processo que estabelece a mediação entre o homem e a natureza, permitindo ao ser humano se fazer diferente da natureza com leis de desenvolvimento histórico e social específicas. Em síntese, é a eterna condição de existência social da vida humana. Através do trabalho que transformamos a natureza e produzimos algo que antes não existia nela, como um tubo de ferro ou um automóvel. O Capital é categoria característica do modo de produção capitalista. Este modo de produção, por sua vez, será compreendido como um modo particular de desenvolvimento econômico das relações sociais que teve o apogeu da consolidação do capital após a revolução burguesa – devemos ter em mente isso para que não caiamos na ideia de que desenvolvimento tecnológico é indissociável do desenvolvimento do capital – e que perdura até os dias atuais, com reformulações na sua expressão ao longo do tempo. De modo simples, o capital personifica-se no lucro advindo de uma determinada forma de produção; o capital é gerado ou reproduzido sempre que o capitalista consegue aumentar a quantidade de valor (dinheiro) investido em um determinado processo, ou seja, no lucro.

O modo de produção capitalista é caracterizado pela relação social em que poucos indivíduos são proprietários dos meios de produção (seja a propriedade fundiária, a infraestrutura e máquinas de uma indústria ou a propriedade de uma escola particular, enquanto empresa privada do ensino) e compram a força de trabalho daqueles (muitos indivíduos) que não detêm os meios de produção da vida mediante o pagamento de um salário – cujo objetivo central é permitir ao trabalhador as condições mínimas para que ele se mantenha vivo. A força de trabalho, portanto, é considerada como uma mercadoria qualquer com um diferencial: enquanto uma máquina pode produzir mercadorias, é a força de trabalho a única mercadoria capaz de produzir valor – e as máquinas transferem esse valor.

Além disso, o trabalho assalariado é caracterizado por gerar um valor extra, que não é pago no salário, que mantém o capital investido nos meios de produção, bem como o lucro do capitalista. Chamamos esse valor de mais-valia. Para Karl Marx:

a produção capitalista não é apenas a produção de mercadoria, é essencialmente a produção de mais-valia. O trabalhador produz não para si, mas para o capital. Não basta, portanto, que produza em geral. Ele tem de produzir mais-valia. Apenas é produtivo o trabalhador que produz mais-valia para o capitalista ou serve à autovalorização do capital (MARX, 1996, p. 138)

 

A busca por lucros, mediante a extração de mais-valia, é o caminho a ser traçado e almejado pelos capitalistas. Entretanto, um capitalista não está sozinho na dinâmica do capital: ele precisa concorrer com outros capitalistas. Nesse sentido, há uma tendência de se investir cada vez mais na produtividade do trabalho para se aumentar a produção e baratear o valor unitário das mercadorias, a fim de competir com os concorrentes. Em outras palavras, a tendência desse processo é o investimento cada vez maior em tecnologia (ou o capital constante) em detrimento do investimento nos salários (ou o capital variável). Mas, como já dissemos, um capitalista não está sozinho, e ele precisa competir com outros capitalistas que almejam o mesmo objetivo: o lucro. O resultado é que:

este procedimento, inevitável na situação de concorrência, leva a uma tendência geral de queda na taxa de lucro. Estranhamente quanto mais cresce a produtividade do trabalho, quanto menos trabalhadores são responsáveis por uma produção maior, menor é a taxa de lucro. (IASI, 2006, p. 7)

E é essa queda na taxa de lucro, tomada em larga escala, que ocasiona de tempo em tempo crises no modo de produção capitalista.

Uma crise no capitalismo expressa as contradições do sistema e sua forma de funcionar. As crises são expressões das relações sociais do capitalismo. Sendo assim, podemos afirmar que uma crise no capitalismo afeta todos os segmentos da sociedade, principalmente a classe trabalhadora. Mas de que forma a classe trabalhadora é afetada por uma crise no capitalismo?

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Num momento de crise e reestruturação do capital, percebemos o aparecimento de ideias conservadoras (e até fascistas) na nossa sociedade, e inclusive na política. Nos países que foram mais atingidos pela crise de 2008, por exemplo, percebemos o aparecimento de discursos extremamente xenofóbicos (aversão a estrangeiros), racistas e até machistas (o desemprego tem afetado mais as mulheres nesses países atingidos pela crise). Essas ideias conservadoras não têm ganhado lugar apenas nos países europeus, mas no Brasil também. Bancada evangélica no congresso, fundamentalistas religiosos na política com grande espaço na mídia, como Malafaia e Feliciano, o aumento no número de grupos neo-nazistas, estupros corretivos etc. Ao não se compreender as leis que governam o desenvolvimento histórico das sociedade, faz-se natural recorrer as mais diversas análises, dando passagem ao aparecimento deste tipo de pensamento – que se ancora no desespero da classe trabalhadora para o favorecimento de poucos aproveitadores.

Algumas mudanças significativas têm acontecido nos setores produtivos de alguns países atingidos de forma mais brutal pela crise, como a reforma na previdência, aposentadorias mais tardias, salários mais baixos, a falta de segurança no emprego, flexibilização ainda maior do trabalho e as altas taxas de desemprego. Como se não bastasse, as taxas de suicídio também têm aumentado. Nestes países, paralelo às reformas e cortes de salário, há também gigantescos programas de direcionamento de recursos públicos para bancos e empresas privadas “afetadas” pela crise. O Brasil, em 2011, direcionou recursos da ordem de R$ 475 bilhões para o combate à crise1 (mais da metade deste valor em ajuda a bancos), enquanto que, em 2011, direcionou R$ 219,5 bilhões para a educação2.

Não é segredo para nenhum de nós que os processos de reestruturação do capital atingem sempre de forma mais brutal a classe trabalhadora, a história já nos mostrou isso. A extração de mais-valia num momento como esse é ainda maior, as condições de trabalho são ainda piores, os problemas de saúde provenientes do trabalho são ainda mais frequentes. Todos devem se perguntar o porquê de essas pessoas aceitarem situações tão subumanas de trabalho, o porquê de elas se deixarem ser exploradas. Pior do que estar nessa situação, pasmem, é estar fora do setor produtivo. Existem grandes exércitos de reserva esperando por trabalhos como esses. Vale frisar, contudo, que se trata de uma “exclusão includente”, pois os desempregados são partes do sistema produtivo.

Diante disso, surge a pergunta histórica: “O que fazer?” Essa é uma pergunta que não é tão fácil de responder, mesmo para os comunistas organizados. O que sabemos é que não pode ficar do jeito que está e que o fim da exploração do homem pelo homem não virá por reformas no capital. Precisamos nos organizar, mas não de qualquer forma, não por conquistas pontuais que não levarão à libertação da classe, e sim uma organização que nos leve à conquista das condições necessárias para revolução. Dessa forma, acreditamos numa organização de formação de quadros revolucionários (militantes com acúmulo teórico que permita que sua prática política não seja dissociada da teoria marxista, enquanto teoria revolucionária de superação da sociedade atual), que deverão atuar junto à classe trabalhadora por melhorias nas suas condições de trabalho e existência (na conjuntura atual, não revolucionária) e que estejam preparados para o futuro momento revolucionário. Alguns fatores nos fazem acreditar que não vivemos um momento revolucionário, e entre eles é a falta das condições subjetivas para a revolução (que se expressam na ausência de um projeto revolucionário no seio da classe), já que não temos nenhuma organização de fato inserida na classe trabalhadora combativa ao ponto de enfrentar a classe dominante de forma efetiva.

Avaliamos que um local essencial para a formação desses quadros revolucionários é o movimento estudantil. O grupo estudantil (secundaristas, universitários) é um reflexo da sociedade de classes (burguesia, pequena burguesia, proletariado, filhos da classe trabalhadora), portanto podemos considerá-lo um grupo policlassista. O movimento estudantil permite não só a possibilidade da formação política teórica, mas também permite embates políticos de classes, como as mobilizações estudantis contra a privatização da educação, enfrentamentos estudantes versus Estado, estudantes versus universidade. Dessa forma, os espaços do movimento estudantil pode ser para os comunistas uma escola de formação e atuação de revolucionários comunistas.

 

Parte II – E como estamos atualmente?

 

Nossos inimigos dizem: a luta terminou.

Mas nós dizemos: ela começou.

Nossos inimigos dizem: a verdade está liquidada.

Mas nós sabemos: nós a sabemos ainda.

Nossos inimigos dizem: mesmo que ainda se

conheça a verdade

ela não pode mais ser divulgada.

Mas nós a divulgaremos.

É a véspera da batalha.

É a preparação de nossos quadros.

É o estudo do plano de luta.

É o dia antes da queda de nossos inimigos.

(Bertold Brecht)

 

Entender as formas como o capital utiliza para garantir a exploração dos trabalhadores é o nosso primeiro passo para qualquer análise que de fato veja quantos triângulos existem, mas não basta entender as leis, é necessário agir para mudar o sistema capitalista. A teoria é indissociável da prática e isso constitui a nossa práxis – em poucas palavras, a nossa capacidade de agir compreendendo um arcabouço teórico que nos dá base para isso.

Neste ponto, falaremos brevemente sobre o momento em que vivemos hoje e, a partir de nossa análise, podemos entender quais são as tarefas dos comunistas. Vamos começar, não à toa, pela mudança do processo produtivo que vivenciamos e mostraremos como isso afeta os outros espaços de produção e reprodução da vida.

O proletariado continua produzindo tudo que necessitamos para viver. Dê uma parada na leitura e observe as coisas materiais que estão ao seu redor (aquilo que você é capaz de ver e de tocar): quais delas não foram produzidas pelo ser humano? Provavelmente, tirando você e umas possíveis árvores, NADA, ou seja, o ser humano produz a todo o momento coisas para a existência da própria vida – e nesse processo, você e as árvores (da forma como estão) só existem por causa da intervenção do homem (no sentido de ‘o ser humano’) na natureza.

Há, contudo, mudanças cotidianas no processo produtivo. A cada dia, inventamos novas máquinas, tecnologias e até mesmo a forma como nos organizamos para produzir bens materiais é alterada e isso faz com que as nossas relações sociais sejam alteradas também.

Por exemplo, provavelmente você já deve ter visto o filme “Tempos Modernos”, em que Charlie Chaplin aparece apertando parafusos em uma fábrica. Se sim, aquilo, em certa medida, é coisa do passado, porque o processo produtivo era baseado na relação homem-máquina e tratava-se de um trabalho seriado, repetitivo, em que um operário fazia a todo o momento a mesma operação para garantir a produção. Hoje, o operário continua repetindo tarefas, mas agora ele tem que ser flexível, dinâmico, criativo, saber trabalhar em grupo, enfim, aquelas palavrinhas que aparecem no Jornal Nacional e no Fantástico.

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Ou seja, você agora tem que aprender a, em vez de só apertar parafusos, ir para a brocadeira, furar o couro, esquentar a borracha, moldar o sapato e assim por diante. Essa nova relação de produção, casada com o avanço tecnológico e a construção de máquinas cada vez mais produtíveis, faz com que o trabalhador execute mais de uma tarefa no processo produtivo – o patrão que necessitava de 20 operários para fazer 1000 sapatos, agora só precisa de 5 operários (que pode até receber um salário um pouco maior, mas não é igual ao custo que os 20 davam ao patrão) para produzir os mesmos 20 sapatos.

Essa relação nova de produção pode parecer muito característica das fábricas, mas cada vez mais tem se colocado em outras esferas de produção e reprodução da vida: na McDonalds, por exemplo, o cara que só fritava batatas, continua fritando-as, mas agora precisa fritar o hambúrguer, servir o sorvete, atender no caixa, limpar o chão – e quanto mais ele fizer coisas, mais fácil de ele ser o funcionário do mês.

Para termos funcionários flexíveis, precisamos de uma formação flexível. A educação muda também para tentar atender às necessidades do mercado, é através dela que os estudantes aprendem a trabalhar em grupo, a serem criativos, a serem líderes, a serem interdisciplinares e polivalentes.

Aqui termina o exemplo – o objetivo era mostrar que a relação de produção das coisas (a passagem do fordismo para o toyotismo) vai interferir na nossa vida em vários aspectos. Mas, o momento que vivemos hoje é também resultado de uma série histórica de processos subjetivos.

Os trabalhadores do Brasil e do mundo normalmente não compreendem que seja possível mudar a sociedade. Parece que as coisas sempre foram assim e sempre serão – é quando o peso da ideologia é forte ao ponto de pensarmos que cada cabeça é um mundo e não compreendermos as mazelas do capitalismo que afetam a todos nós. Aqui a gente observa, por exemplo, o peso da ideologia e como ela é construída desde a nossa infância: parece que a exploração do trabalho é uma coisa inerente e imutável ao ser humano, pois os flintstones já trabalhavam e jetsons, do futuro, trabalham na mesma perspectiva dos homens das cavernas. Às vezes, deixa de ser até uma característica somente humana e vemos até que a família dinossauro era uma espécie que passava pela exploração do trabalho. Não… é possível mudar o mundo, é possível acabar com o capitalismo e em vários momentos da história conseguimos mudanças que comprovaram essa possibilidade.

A ausência de perspectivas de mudança social não existe à toa – são vários os motivos e listaremos alguns de forma bem breve (e aí pode tirar dúvidas conosco que estaremos aqui para tentar ajudar): a) o avanço da pós-modernidade, fragmentando o sujeito e justificando o mundo a partir de análises puramente pessoais; b) as várias derrotas da esquerda como no Chile (em 1973), na queda do bloco soviético (1988), a queda do muro de Berlim (1989) são marcos do avanço da perspectiva conservadora; c) a reabertura democrática no Brasil e no mundo, reafirmando a possibilidade de uma social-democracia fazer reformas para os trabalhadores sem fazer revoluções; d) o avanço do individualismo e subjetivismo casado com a proposta toyotista.

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Tanto a mudança do processo produtivo, como a influência desses fatores subjetivos, fazem com que o trabalhador não se reconheça como produtor dos bens necessários para a vida e nem compreenda que é possível mudar essa sociedade se ele estiver construindo formas de luta organizadas e em articulação internacional.

Diante disso, nossas tarefas, como comunistas, é fazer com que os trabalhadores cada vez mais entendam sua tarefa diante da sociedade e possibilitar a construção de espaços organizativos para que os trabalhadores se livrem dos seus grilhões históricos e elaborem seu próprio processo organizativo, a partir das experiências históricas que já tivemos, para construirmos um novo projeto de sociedade – uma emancipação do próprio ser humano. Uma sociedade em que todos trabalhem, todos produzam, todos tenham acesso a qualquer tipo de educação, saúde, cultura. Isso só será possível, em primeira ordem, com a destruição da sociedade de classes (no caso, nossa sociedade é capitalista) em que o homem viva da exploração de outro homem.

O que acontece no mundo acontece também no nosso país. O capitalismo é um sistema internacional e para superá-lo precisamos de uma articulação internacional. Neste texto nos restringiremos em apontar as características do desenvolvimento capitalista no Brasil.

Em primeiro lugar, não podemos nos esquecer de que hoje o Brasil é uma das maiores economias do mundo. O fato de existir pobreza, fome, seca, alagamentos não quer dizer que se trata de um país menos desenvolvido… pobreza, fome, seca, alagamentos só existem ainda porque temos uma sociedade capitalista e os mesmos problemas que existem aqui existem também nos EUA, China e outras grandes potências econômicas (obviamente, de formas diferentes). Até mesmo a produção agrícola brasileira é extremamente avançada, com métodos de produção em larga escala (e sem qualidade) e o agronegócio exige cada vez mais a produção latifundiária. O Estado brasileiro é altamente desenvolvido e o exército e a polícia são cada vez mais equipados para garantir a proteção da propriedade privada – a democracia burguesa é a forma mais avançada de garantir uma exploração assalariada dos trabalhadores, criando a impressão de que somos todos ‘livres’ (liberdade que se resume a quem iremos vender nossa força de trabalho).

Se concordarem conosco no parágrafo anterior, isso aí acaba com dois mitos que são defendidos por alguns setores da esquerda:

1 – de que o capitalismo no Brasil não é desenvolvido, como se fosse ainda um país feudal, portanto, nós, comunistas, devemos colaborar no desenvolvimento do país e depois pensar em fazer uma revolução;

2 – de que o capitalismo no Brasil tem tarefas em atraso (como a reforma agrária), portanto, devemos construir lutas para garantir as reformas básicas e só depois dessas lutas conquistadas é que a classe trabalhadora poderá construir lutas para superar sua condição de explorada.

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Historicamente, alguns setores, principalmente o PCB, defenderam a primeira tese e no final houve uma ditadura militar para perseguir e matar os comunistas. Os erros de análise da primeira tese foram, de certa forma, superados pelo PT. Um dos erros do PT foi defender a segunda tese, democrática popular, fazendo uma análise equivocada do capital no Brasil (mas dentro dos limites do período histórico) e reproduziu um projeto etapista que defendia primeiro a construção de lutas de reforma para a classe trabalhadora (em aliança com alguns setores da burguesia) e depois a construção de condições subjetivas para se atingir o socialismo. A atuação do PT deu no que deu… hoje, é um partido que não mais representa os trabalhadores, mas os interesses dos patrões, de Eike Batista, da Odebrecht. As políticas do governo Lula fingiram interessar aos trabalhadores, mas, na verdade, só os prejudicam mais e ajudam a existência de maior extração de mais-valia. Oras… foi no governo dos ‘trabalhadores’ que aumentaram o período de aposentadoria, reajustaram a previdência privada, fizeram reformas neoliberais na educação, privatizaram pistas (pedágios), hospitais (as parcerias público-privadas) e agora dão rios de dinheiros para as grandes empreiteiras construírem estádios da Copa.

A solução de nossos problemas não é retirar o PT e colocar outro partido. Na verdade, não será pelas vias democráticas da burguesia que conquistaremos aquilo que queremos. É necessário, sim, construir lutas por reformas para que as contradições do capital afetem menos às condições de vida dos trabalhadores, mas a nossa atuação nessas lutas deve estar sempre casada com uma tentativa de avançar na consciência da classe, tentando fazer com que os trabalhadores sejam agentes do próprio processo de organização. É necessária uma reorganização dos trabalhadores!

Convidamos você para o debate e esperamos que continue tendo interesse em compreender os problemas sociais causados pelo capital, bem como nossas tarefas para acabar com o capitalismo, e que possamos aprender com os erros e com os acertos da esquerda no Brasil e no mundo. E o mais importante: convidamos vocês para o combate, ombro a ombro, das mazelas da sociedade capitalista.

Coletivo Contra Corrente, junho de 2013.

REFERÊNCIAS

IASI, Mauro Luís. Porque as fábricas demitem: o que muda e o que não muda no capitalismo contemporâneo. in Revista Intersindical, n. 01, 2006.

MARX, Karl. Capítulo XIV: Mais-valia absoluta e relativa. in Marx, Karl. O Capital, São Paulo, Nova Cultural, 1996.

Repassamos que a nota do Coletivo Outros Outubros virão sobre o congresso da UNE e da ANEL.

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O Coletivo Outros Outubros Virão vem se posicionar sobre os Congressos das Entidades Nacionais do Movimento Estudantil – UNE e ANEL – que ocorrerão entre os dias 30 de maio e 02 de junho de 2013.

Como já discorremos em outros textos, como no “Enterrar a insepulta UNE: Avançar na organização do movimento estudantil” e no “Entre o atraso e a precocidade, entre o velho e o novo, nem UNE nem nova entidade”, fazemos a análise de que as entidades devem estar respaldadas pelas movimentações reais de cada categoria. No ME, há anos a UNE expressa sua falência como representante efetiva dos estudantes, já que se encontra extremamente afastada das lutas dos estudantes e aparelhada com as políticas do governo, as quais precarizam cotidianamente a educação. Este descolamento da base estudantil tampouco foi solucionado pelo surgimento da ANEL em 2009, autoproclamada “direção” pelas organizações que a formaram, que também não responde à necessidade dos estudantes neste momento, por antecipar e artificializar um novo ciclo de lutas afastado das reais movimentações da classe.

Nesta nossa posição, compreendemos que a realidade encontra-se em contínuo movimento e que as análises e intervenções que realizamos devem ser coerentes com esse mesmo movimento. Isso significa que nossas avaliações não são estáticas e imutáveis, mas que devem ser sempre retomadas fazendo correspondência às lutas que percebemos na realidade brasileira. Desta forma, nossa análise do distanciamento dessas entidades do ME de sua base real, advém da nossa atuação com elas nos locais de estudo e executivas em que estamos, bem como das observações que já fizemos em congressos e espaços anteriores dessas mesmas entidades.

Sabemos que tanto a UNE quanto a ANEL são entidades que intervém de alguma maneira no ME nacional e local. Por mais que discordemos da maioria das práticas e concepções dessas entidades, não podemos ignorar suas existências. Sabemos também que são qualitativamente muito distintas em suas atuações e propostas no movimento estudantil – temos claro o papel da UNE ao lado do Estado, enquanto a ANEL se coloca como oposição e ao lado do ME combativo. Contudo, não nos propomos a construir nenhuma delas, já que, para nós, o ME tem outras prioridades neste momento.

Para dar conta de acompanhar o movimento, na tentativa fazer as análises mais qualificadas possíveis – isto é, condizentes com a realidade – decidimos ir como observadores a ambos os Congressos.

Para nós, essa decisão não significa de maneira alguma a construção ou disputa da UNE ou da ANEL, já que iremos em busca de elementos para nossas análise do ME e para a relação com esses coletivos/organizações, tal como fizemos em momentos anteriores – o que garantiu a materialidade de nossa crítica às práticas e conteúdos de ambas entidades. Não enviaremos delegados, não deslocaremos nossa base para esses espaços, nem faremos assembleias ou materiais para propagandeá-los.

Esta nota vem, portanto, no sentido de explicitar que estaremos em poucos militantes nestes congressos, com os objetivos acima citados. Pretendemos também reafirmar que consideramos importante a atuação nacional do ME, e por isso, atuamos em executivas de curso e na Articulação Nacional (espaço em que nos articulamos com outros coletivos do ME, que compartilham de muitas análises e que não veem a construção de uma entidade nacional como resposta para a reorganização do ME hoje). Compreendemos ainda que algum tipo de organização nacional dos estudantes – como uma entidade – deve ser resultado de um novo ciclo de movimentações e lutas do movimento estudantil. Assim, mais uma vez afirmamos que as tarefas prioritárias do ME hoje são a construção do trabalho de base, na busca de colocar os estudantes em movimento, numa relação cotidiana com eles, trazendo à tona as contradições dessa sociedade e as possibilidades de superá-la.

Contribuição do Coletivo Lutar e Construir para o debate de reorganização do ME e a conjuntura na UEFS.

Carta de Maio: Sobre a conjuntura da UEFS e o movimento estudantil

“[…] Lá no passado tínhamos um futuro
Lá no futuro tem um presente
Pronto pra nascer
Só esperando você se decidir.
Porque são tempos de decidir,
Dissidiar, dissuadir,
Tempos de dizer
Que não são tempos de esperar
Tempos de dizer:
Não mais em nosso nome
Se não pode se vestir com nossos sonhos
Não fale em nosso nome! […]”
(Mauro Luis Iasi – Dissidência ou a arte de dissidiar)

Crescemos em nossa sociedade apreendendo, de forma hegemônica, que o Estado é a instituição capaz e responsável pela garantia dos direitos da população, permanecendo neutro aos interesses das classes. Entretanto, o Estado é fruto do antagonismo inconciliável entre as classes, garantindo que não haja acirramento da luta entre elas, visto que há interesses distintos. Partimos da concepção de que o Estado é classista, no sentido de atender os interesses dos dominantes, o que já demonstra a existência da submissão de uma classe em relação à outra. Portanto, atua na manutenção da “boa” ordem social, para manter uma falsa conciliação, marcada pelas contradições camufladas.
A demonstração disso é que, nos últimos anos, em vários países, foram injetados trilhões dos cofres estatais para a recuperação de grandes empresas capitalistas. Aqui no Brasil, no ano de 2011, apenas o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) disponibilizou para a iniciativa privada nada menos que R$ 139 bilhões! A longo prazo e com juros baixíssimos. Não bastando essa pequena quantia “emprestada”, os gastos para a copa do mundo de 2014 e Olimpíadas de 2016 vão somar cerca de R$ 970 bilhões! Garantindo lucros exorbitantes principalmente para as empresas da construção civil. Além disso, o Estado brasileiro vem gastando cerca de 1 trilhão de reais para o pagamento dos juros das dívidas interna e externa.

Continue lendo em carta-de-maio-20131.pdf

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