Contra Corrente


copa-capitalismo-contradicoesDe acordo com a FIFA, a grande festa do esporte retorna ao país do futebol. A entidade proclama que durante a Copa do Mundo, todos os brasileiros andarão “Juntos em um só ritmo”. Entretanto, o que justifica que 1,5 mil policiais com sua cavalaria armada removam 6 mil famílias dos entornos dos estádios do RJ¹? Que 8 operários percam sua vida nas obras dos estádios?² Que 250 mil pessoas percam suas casas sem pagamento das devidas indenizações?³ Ao que parece, muitos brasileiros estão em um ritmo bastante diferente da entidade internacional do futebol.
Por um lado, a Copa do Mundo aparece ao Brasil enquanto uma possibilidade de vitória para a nação, além de um benefício para a infra-estrutura do país. Aparece enquanto a prática saudável do esporte proporcionando diversão e lazer para a totalidade dos brasileiros: super-homens que atingem as capacidades de desempenho e de performance esportivas – força, velocidade, superação de limites físicos, etc. – inimagináveis pelos não-atletas; vemos equipamentos e materiais da mais alta e avançada tecnologia sendo produzidos.
Por outro lado, vemos a degradação da natureza explicitada por gigantescos elefantes brancos, na infra estrutura urbana, ou na exploração da força de trabalho de operários da construção civil, que precisam cumprir prazos, metas e projetos sob as piores condições de pressão, com direitos trabalhistas irrisórios, sem condições de trabalho e salários.  Ao lado disso, vemos a destruição de vidas inteiras por conta de anos de treinamento desportivo ou pelo uso de substâncias químicas; vemos também a utilização da força de trabalho de atletas ser sugada até as suas últimas reservas.
Ao analisarmos este outro lado, entendemos toda a lógica que está por trás dos megaeventos esportivos: O importante é gerar mais lucro às empresas que irão patrociná-los (A FIFA estima o lucro de, pasmem, 10 bilhões de reais) enquanto o Estado paga 85% dos gastos. Por meio de obras gigantescas, vendas de imagens dos jogadores, materiais esportivos e álbuns de figurinhas os empresários se lambuzam com os lucros provenientes do megaevento esportivo.
Mas por que isso acontece? A copa do mundo não passa de um reflexo de outros elementos presentes em nossa sociedade. Não é à toa, por exemplo, que operários das obras da copa não tinham acesso à moradia e estavam expostos a péssimas condições trabalhos a ponto de 8 deles morrerem. A estes trabalhadores, assim como à imensa maioria da população, não resta outra possibilidade para sobreviver senão vender suas forças de trabalho para quem pode comprá-la. Estes últimos, que detém os meios necessários para produzir a vida em sociedade (máquinas, fábricas, etc) são a Classe Burguesa; Esta classe vive às custas da exploração do trabalho daqueles primeiros. A Odebrecht, construtora de quatro estádios da Copa, teve lucro líquido de 490 milhões em 2013, enquanto às famílias dos operários mortos resta somente lamentar suas perdas.
Vivemos em um cenário em que os trabalhadores precisam trabalhar muito para garantir o sustento de suas famílias. Um momento em que o tempo livre, bastante reduzido, é usado para repor as energias gastas com o trabalho ou tentar qualificar sua força de trabalho (escola, universidade) para poder vendê-la por um pouco a mais futuramente, visando a melhoria da qualidade de vida da família. As mudanças que ocorrem caminham no sentido de retirar direitos historicamente conquistados pela classe como: jornada de trabalho de oito horas, férias remuneradas, garantia à aposentadoria; as horas extras tornam-se centrais para manter o salário necessário para o trabalhador, etc.
Esse cenário não ocorre à toa. Não é produto do destino e nem proveniente das idéias de um grupo especial de pessoas que planejaram fazer a sociedade funcionar assim. É, ao contrário, produto da organização da classe trabalhadora durante um longo período no Brasil, através do PT e sua estratégia, o Projeto Democrático e Popular.
No fim da década de 70 os trabalhadores brasileiros começam uma ascensão reivindicatória como resposta às pioras de condição de vida da classe naquele período. Ocorrem grandes greves nas regiões fabris – agora a classe trabalhadora têm uma nova forma de lutar que coloca em prática. Agora o projeto da classe para tentar garantir seus direitos é, não só através das mobilizações de massas, e aqui vemos os grandes braços do PT, a CUT, MST, UNE, mas também da luta institucional, na ocupação do Estado pelos trabalhadores para a construção de reformas que beneficiem a classe e rumem a uma transformação da sociedade, o Socialismo.
Nesse período, os dirigentes sindicais estavam junto do trabalhador do “chão da fábrica”, ao lado do camponês, viviam o cotidiano de seu trabalho e estavam junto dos seus colegas. Ao ocuparem cargos estatais para garantir as reformas públicas eles não só se distanciam dos trabalhadores como tiram deles a resolução dos seus problemas. Agora o trabalhador constrói seu projeto político votando na pessoa que fará por ele. Agora os movimentos sociais são cooptados e utilizados como manobra para garantir as reformas que o governo pretende por em prática. Mas essas reformas, que poderiam potencializar a condição de vida do trabalhador, perdem seu caráter, pois nesse projeto político construiu-se uma aliança com o empresariado, que visa aumentar suas taxas de lucro e, portanto, aumentar a exploração dos trabalhadores. As reformas agora atendem ao interesse dessa classe em detrimento dos trabalhadores. Vemos assim a cada vez maior exclusão dos direitos do funcionalismo público, da garantia das horas de trabalho e ao invés de melhorar a condição de vida dos trabalhadores, vemos o incentivo ao crédito para o empresário e a garantia de investimentos públicos monumentais para os donos de grandes capitais, como a Copa do Mundo.
A classe não vive só dessa proposta política. Ela, ao não dar respostas à realidade, começa a ser negada e os trabalhadores começam expressar alguns traços de inconformidade. Estamos presenciando um momento em que a incoerência do ciclo de lutas encabeçado pelo PT começa a demonstrar sua insustentabilidade e a ascensão de uma nova forma de fazer luta desponta no país. Nos últimos anos ocorre um crescimento do número de greves no Brasil, é o trabalhador se colocando como protagonista do seu interesse. E ao mesmo tempo em que esse ciclo de cooptação do trabalhador definha grandes eventos que desmascaram o papel do Estado acontecem.
A exemplo disso, para caracterizar a despreocupação e truculência despendidos com os trabalhadores, citamos o recente ocorrido com os moradores da favela Metro-Mangueira, situada próxima ao estádio do Maracanã, onde mais de mais de 500 familias foram expulsas de suas casas e tiveram-nas demolidas para, segundo a Prefeitura da cidade, construir um centro comercial e áreas de lazer. Podemos ainda relembrar o caso dos moradores da região do Engenho Novo, Zona Norte do Rio, em que 80 militares e 1,5 mil policiais desabrigaram mais de 8 mil trabalhadores, situação que foi marcada por uma série de tumultos e ações violentas. Essas remoções forçadas têm representado uma calamidade para diversas famílias brasileiras. Desde o início das obras para a Copa do Mundo, estima-se que 250 mil pessoas estejam passando por despejos relacionados às construções para o evento. Nota-se, com isso, que o real interesse do governo é entregar as terras e a força de trabalho do proletariado brasileiro ao mercado e seus projetos, deixando os empresários enriquecidos e a classe trabalhadora, desvanecida.
O papel dos Megaeventos no Brasil, e em todo o mundo, está articulado à forma de organização da sociedade capitalista e condiz, obviamente, com os interesses da classe dominante. Esta sociedade baseia-se na apropriação individual do trabalho coletivo onde os burgueses, donos dos meios de produção (fabricas, terras, matérias primas etc.), apropriam-se das riquezas produzidas pelos trabalhadores. Periodicamente esse sistema passa por crises de superprodução de mercadorias onde a tendência é a queda da taxa de lucro devido à falta de mercado consumidor para os seus produtos, por isso, o capitalismo por sua natureza tende a ser expansionista, ou seja, sempre tentará buscar novos locais/mercados para que o ciclo da mercadoria possa ser realizado.
Diante desse quadro, os megaeventos cumprem um papel fundamental que é possibilitar a circulação do capital através das construções de instalações esportivas, obras de infraestrutura e através também da mercadorização do esporte, ou seja, ampliando seus locais de aplicação. Na última década, o eixo dos megaeventos tem sido girado para os países subdesenvolvidos, visto que estes têm maiores carências na estrutura de aeroportos, rodovias e instalações esportivas; precisando, assim, de uma maior quantidade de obras de infraestrutura para se adaptar aos padrões FIFA e COI do que os países desenvolvidos. Dessa maneira, os Estados Nacionais dos países periféricos acabam deslocando verbas para a iniciativa privada (nacional e internacional) em colossais proporções.
As últimas estimativas apontam que os gastos com a Copa do Brasil ultrapassarão os 30 bilhões de reais, dos quais mais 85% são de dinheiro público, enquanto a estimativa inicial era de até 26 bilhões. Há quem diga que esses gastos podem superar os das três últimas Copas (Japão, Alemanha e África do Sul) somados.
A justificativa oficial para legitimar a vinda dos megaeventos e os seus gastos abusivos do dinheiro público gira em torno dos supostos legados que este poderia trazer para a população brasileira.  Isso legitima que o país realize obras que durariam décadas em um curto período de tempo, colocando uma boa visibilidade ao país a nível mundial e, supostamente, deixando “legados” para a população local, como a melhoria da infraestrutura e mobilidade urbana, rodovias, aeroportos, etc. Entretanto, estas aconteceram em número extremamente reduzido em relação ao planejamento inicial e em sua maioria nos locais estratégicos para a realização da Copa, não de acordo com as necessidades da população.
Em linhas gerais, a vinda dos megaeventos segue a risca a cartilha Neoliberal dos governos PSDB e PT, na medida em que as obras financiadas com o dinheiro público serão entregues aos grandes empresários para que esses possam extrair lucro. Todos os estádios da Copa serão privatizados após os jogos (lembrando que três deles já estão privatizados: Itaquerão em São Paulo, Beira Rio em Porto Alegre e Arena da Baixada em Curitba) apesar de 90% dos gastos com os estádios advirem dos cofres públicos)
Um dos primeiros contrapontos aos Megaeventos pode ser constatado em meados do ano passado durante a Copa das Confederações: muitas pessoas indo às ruas, aparentemente insatisfeitos unicamente com a má qualidade do transporte público, mas que se torna um movimento de massa agregando as mais diversas pautas, inclusive a contrariedade à Copa do Mundo. Estas mobilizações, mais que um simples levante espontâneo, são um ressurgimento das mobilizações no nosso país depois de mais de uma década neoliberal do governo PT.
Como forma de conter as mobilizações, o Estado e os seus governantes vêm apostando todas as suas fichas no seu poder repressor, expressos na “leis antiterrorismo” e no investimento absurdo do patrimônio público: 1,9 bilhões em equipamentos, transporte e custeio de um contingente de 157 mil soldados para garantir a realização da copa. Tudo isso somado à isenção de 1 bilhão de reais garantidos pelo Estado brasileiro, que garantirá que a FIFA e os seus megaempresários tenham o maior lucro da história de todas as Copas
Embora não tenham se repetido as grandes manifestações do ano passado, esse ano vimos o ascenso de várias categorias de trabalhadores organizados que há muito não se movimentavam, e muitas vezes contra suas próprias direções. Podemos dizer que toda aquela quantidade de manifestantes vista ano passado começa a dar sinais que pode se transformar em qualidade, onde as reinvidicações estão bem mais claras, estão focadas na luta contra a extração de mais valia e as organizações tradicionais da classe trabalhadora como os partidos e os sindicatos não são rechaçadas.
Estamos cientes que todo estudante que ler esse texto tem alguma insatisfação com sua formação, seja o transporte, com o restaurante universitário lotado, no currículo que não atende as nossas necessidades profissionais, na falta de professores e muitos outros, e pode ficar a pulga atrás da orelha: “o que isso tem a ver com os megaeventos?”. É difícil fazer esse exercício de “juntar” fatos aparentemente sem relação, mas é preciso, pois, um ajuda a entender o outro. Os recursos tão necessários para garantir uma educação com o mínimo de qualidade estão sendo onerados nas construções de gigantes inúteis, inúteis ao menos para os nossos objetivos, mas um grande negócio para a FIFA e seus sócios.
Diante da constatação desses elementos da conjuntura, megaeventos como lógica destrutiva, o sucateamento da educação, a intensa repressão policial e ao mesmo tempo uma retomada das greves e da rua como local de reinvindicação dos trabalhadores, aparentemente poderíamos não relacionar todos esses fatos, mas no atual cenário essa ligação entre eles é evidente. Fica a questão: o que exatamente cabe à nós estudantes nesse momento? Qual nossa real capacidade diante desses acontecimentos? E, sabendo das nossas capacidades, qual é a nossa tarefa?
Primeiro devemos medir nossas forças, há uma condição histórica que limita nossas ações, vejamos quanto transtorno causa aos patrões uma greve de trabalhadores rodoviários, em poucos dias o impacto é tremendo, e uma greve de estudantes, podemos citar o caso concreto da recente greve na UECE (Universidade Estadual do Ceará), durou três meses até os estudantes conseguirem negociar com o governo do Estado, e ainda assim, poucas reivindicações foram atendidas. Percebemos assim, que os as conquistas estudantis sem o conjunto da classe tendem a ser curtas, que a conquista final se dá com o triunfo do conjunto da classe.
Outro limite é conjuntural, pois hoje os estudantes encontram-se fragmentados sem nenhuma entidade nacional que consiga nos agrupar, e fazer valer nossas reivindicações, dizendo de outra maneira “não podem se vestir com nossos sonhos” logo, não podemos admitir que “falem em nosso nome”, mas, se o problema é não termos uma entidade, fica questão por que não criamos uma? Por que não é um simples ato de vontade, se criarmos um instrumento que não seja construído com o conjunto dos estudantes essa nova entidade pode se limitar à ser mais uma logomarca e um adesivo, e nossas necessidades de organização vão além desses adornos.
O panorama é este, um limite histórico nos coloca como coadjuvante nas lutas, pois nossa força máxima só aparecerá junto à classe trabalhadora, e outro – conjuntural -nossas poucas forças estão fragmentadas e por isso não conseguimos ser relevantes, mas esses limites não querem dizer que há tarefas a serem cumpridas, entendemos que o caminho mais sólido, porém o mais difícil para superar, é o que chamamos de trabalho de base.
Por trabalho de base entendemos a atuação cotidiana nos nossos locais de estudo, pois só compartilhando diariamente os problemas vividos pelos nossos colegas é que entenderemos quais as demandas que podem impulsionar a luta, mas isso só não basta, é necessário estudar para entender melhor a realidade, entender o projeto de educação que está sendo implementado e a quais interesses ele serve, entender que educação na qualidade que sonhamos não se realiza nessa sociedade, por isso devemos lutar também por outra sociedade, é preciso socializar com os nosso colegas as conclusões de nossos estudos por diversos meios, em conversas no corredor, em textos publicados no curso ou em grupos de estudo.
Cotidianamente precisamos conversar com nossos colegas sobre as dificuldades e os problemas que enfrentamos na universidade. Trabalhar as questões cotidianas com os colegas é fomentar as reflexões sobre o curso, a universidade, sobre o que ele está fazendo ali. É através dessa conversa, de espaços que debatam temas pertinentes, que o estudante começa a perceber que os problemas que pareciam ser só dele ou do seu grupo de amigos na verdade são de todos os estudantes, em todas as universidades. A culpa disso é esse projeto de educação superior minimalista e temos que dar uma resposta a isso. Temos que dizer um grande não a esse ensino precarizado, quantas vezes for necessário
As jornadas de junho mudaram a conjuntura brasileira. A discussão política volta a interessar a juventude. Esse fato evidencia que a tarefa do momento é continuar a conscientizar nossos colegas, a estudar mais sobre como essa sociedade funciona, a pensar melhor que caminho devemos seguir, e, principalmente, a se colocar em movimento pela luta por uma sociedade que não haja exploração do homem pelo homem, e que o esporte não seja mais um evento na televisão e sim faça parte da vida de todo trabalhador. Só assim futuras Copas serão realmente do povo e para o povo.

Este texto foi produzido pela Articulação Nacional, composta por:
Coletivo Outros Outubros Virão
Lutar e Construir
Resistência Socialista
Contra Corrente

¹ Folha de Italva – 11/04/14
² Globo Esporte – 30/01/14
³ Portal Popular da Copa – 19/02/14


O Dia da Mulher e o lento, meticuloso trabalho feito para elevar a autoconsciência da mulher trabalhadora estão servindo à causa, não da divisão, mas da união da classe trabalhadora.”(KOLLONTAI)

17502006_l7sSGMais um 8 de março chegou e, junto com a data, surgem todas aquelas ‘homenagens’ às mulheres: homenagens a sua delicadeza e sensibilidade, a seus incríveis papéis como mães, esposas, ao grande avanço que deram no mercado de trabalho, nas universidades etc, etc. Mas afinal, há o que se comemorar? As mulheres são maioria no planeta, estão entre as mais pobres (mais de 70%), mais exploradas, com os mais baixos salários e ainda precisam carregar uma tripla jornada de trabalho (trabalho, cuidadoras do lar e nas tarefas de reprodução da espécie). Elas carregam o duro fardo de serem duplamente oprimidas: pelo capital e pela escravidão do lar.

Embora vejamos um 8 de março de comemorações e pequenos atos que reivindicam apenas direitos políticos, nem sempre foi assim. O dia internacional da mulher nasceu das mulheres trabalhadoras, de uma experiência real da classe. Foi a partir da auto-organização das mulheres, em conferências internacionais que são construídas na Internacional Comunista, que o dia internacional das mulheres é criado, e que tem sua data finalmente escolhida em 1921(durante vários anos, cada país tinha autonomia para escolher uma data para o Dia da mulher), em lembrança a greve das tecelãs, que foi o grande estopim do começo da primeira fase da revolução russa (a revolução de fevereiro). A experiência da revolução russa trouxe alguns avanços importantes para as mulheres russas, como a criação de infantários públicos, cozinhas e lavanderias coletivas, igualdade legal etc, mas, depois da experiência stalinista e de todo retrocesso que ela trouxe para as mulheres soviéticas, o dia internacional da mulher perdeu todo o seu caráter classista e combativo.

mulheres. RR

Perdido o caráter de classe do dia internacional das mulheres e a organização internacional das mulheres socialistas, o que restou foi o movimento feminista sufragista, liberalista, pequeno-burguês e reformista para dar conta da organização das mulheres, que, a partir de então, assume um caráter particular que não dialoga com a totalidade social e, portanto, não consegue avançar nas discussões de classe. A crença na possibilidade da emancipação real das mulheres a partir de reformas no sistema, a partir de aquisições de direitos é o que move esses “novos movimentos feministas”, mas como disse muito bem o Lênin:

O capitalismo alia à igualdade puramente formal a desigualdade econômica e, portanto, social. Essa é uma de suas características fundamentais hipocritamente dissimulada pelos defensores da burguesia e pelos liberais (…)

Mas, mesmo no que se refere à igualdade formal (igualdade diante da lei, a “igualdade” entre o bem nutrido e o esfaimado, entre o possuidor e o espoliado), o capitalismo não pode dar prova de coerência. E uma das manifestações mais eloquentes de sua incoerência é a desigualdade entre o homem e a mulher.” (LÊNIN)

Diante disso, compreendemos que o movimento feminista deve lutar por interesses comuns a classe trabalhadora, mas sem esquecer que existem demandas que estão relacionadas a demandas da classe, mas apresentam características especificas das mulheres, como sua condição de mãe, ‘esposa’ e ‘dona-de-casa’. Eis a grande diferença entre as feministas burguesas e as socialistas: enquanto as primeiras reivindicam direitos políticos, inclusive o direito de explorar outras mulheres, as segundas reivindicam direitos para todos os trabalhadores, a emancipação de toda sua classe:

Qual o objetivo das feministas burguesas? Conseguir os mesmos avanços, o mesmo poder, os mesmos direitos na sociedade capitalista que possuem agora os seus maridos, pais e irmãos. Qual o objetivo das operárias socialistas? Abolir todo o tipo de privilégios que derivem do nascimento ou da riqueza. À mulher operária é-lhe indiferente se o seu patrão é um homem ou uma mulher.
As feministas burguesas demandam a igualdade de direitos sempre e em qualquer lugar. As mulheres trabalhadoras respondem: demandamos direitos para todos os cidadãos, homens e mulheres, mas nós não só somos mulheres e trabalhadoras, também somos mães. E como mães, como mulheres que teremos filhos no futuro, demandamos uma atenção especial do governo, proteção especial do Estado e da sociedade.”(
KOLLONTAI, A.)

A sociedade capitalista é caracterizada pelo trabalho assalariado e extração de mais-valia, construindo relações sociais em que a sociedade é dividida em classes sendo duas principais: aquelas que produzem e vendem sua força de trabalho e aquelas que detém os meios de produção e compram a fora de trabalho. É importante para os burgueses (aqueles que compram a força de trabalho) criar e reproduzir formas de opressão para extrair mais valia da força de trabalho. A força de trabalho feminina executa na mesma jornada de trabalho as mesmas tarefas que a força de trabalho masculina e tem um salário menor. Combater a opressão de gênero é um elemento necessário para combater a classe burguesa. Como comunistas, defendemos o fim do Estado e consequentemente o fim das classes sociais; e não a sua reforma, por isso acreditamos que o movimento feminista não pode fugir disso. Não é a organização das mulheres, de classes distintas, que nos levará a uma emancipação real, é a organização das mulheres trabalhadoras, numa perspectiva socialista que nos levará. Como disse o Iasi , “a luta das mulheres tem um caráter estratégico na transformação integral da sociedade”.

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LÊNIN, V.I. O dia internacional da mulher ( 1920, in: O socialismo e a emancipação da mulher. Editorial Vitória, 1956.

KOLLONTAI, Alexandra. O dia da mulher.

IASI, Mauro. Olhar o mundo com os olhos de mulher?

Compartilhamos aqui o material para discussão na chapa de oposição nas eleições do SINDPETRO, a Chapa 1, A chapa da categoria: Reconstrução; Independência e Ação (http://chapadacategoria.wordpress.com/). 

Falar hoje que o sindicalismo brasileiro, de um modo geral, é combativo, ativo e que se coloca ao lado dos trabalhadores nas lutas contra o capital, é no mínimo mentira! Dizer que a CUT1 e sua representante no movimento dos trabalhadores da Petrobras a FUP2 são organizações que se colocam contra o patronato e contra o governo na luta por melhores condições de vida e trabalho é querer enganar toda a categoria petroleira. Hoje está cada vez mais clara a relação CUT & governo Petista e a relação FUP & gerência da empresa. É uma relação no mínimo promíscua e nefasta.

De modo a garantir a “governabilidade”, a CUT foi capaz de entregar de mão beijada vários de nossos direitos3. E de modo análogo a FUP faz negociatas por debaixo do pano com a alta gerência da Petrobras, de modo a frear o descontentamento dos trabalhadores da categoria. É nesse ritmo que, nos oito anos de governo Lula e nos quatro anos de governo Dilma, a classe trabalhadora foi massacrada pelo grande capital e seus representantes.

Cabe então duas perguntas: 1) Por que que defendemos um movimento sindical autônomo em relação ao governo e a empresa? 2) Por que a CUT e a FUP no campo teórico defendem essa autonomia, mas isso não se realiza na prática?

  1. Pois a luta dos trabalhadores é histórica, dessa maneira historicamente a classe trabalhadora verificou que não há forma de conciliar os interesses do patronato com os interesses dos trabalhadores. São interesses antagônicos, os patrões tem por objetivo explorar cada vez seus trabalhadores, e os trabalhadores lutam para resistir a essa exploração. Os trabalhadores também perceberam a que classe o Estado capitalista defende, obviamente a classe dos capitalistas – os patrões. Dessa maneira a real intenção em pautar a autonomia frente ao Estado e a empresa, é que sabemos a quem o Estado defende e quais são os interesses dos empresários.
  2. Embora a CUT, e consecutivamente a FUP, posicionem-se no campo da teoria a favor dos trabalhadores, na prática verifica-se que essas entidades estão completamente atreladas ao estado burguês. Esse atrelamento é marcado pelo imposto sindical, pela indicação de nomes nas diversas secretarias e ministérios do governo, pela aceitação de dinheiro de empresas, devido aos dirigentes possuírem cargo de confiança dentro do governo. Com a FUP não é diferente, hoje ela indica gerente, apoia ex-presidente da empresa, acaba com greve, não constrói atos unificados, apoia os leilões do petróleo. Isso se deu devido à leitura que essas entidades fazem do governo do PT. Elas partem do pressuposto que o governo petista é um governo que se coloca ao lado dos trabalhadores, daí, segundo eles, defender o governo é defender os trabalhadores. Se algum dia o PT se colocou ao lado dos trabalhadores, pós-eleição de Lula, isso deixou de ser verdade. O marco desse processo é a “carta aberta ao povo brasileiro” em que Lula se compromete com a classe dos capitalistas em honrar o pagamento da dívida, e dar continuidade ao governo antecessor, o de FHC, não é atoa que nos oito anos de governo Lula ocorre uma atração imensa de capital estrangeiro e paralelo a isso uma derrota sistemática da classe trabalhadora. Sendo assim a CUT e a FUP, andam na contra-mão da luta dos trabalhadores, ou seja, no atual cenário essas entidades se colocam ao lado dos patrões.

Por isso, devemos perguntar qual é o lado que a chapa candidata defende, pois não achamos possível conciliar os interesses da categoria com os interesses do patrão. E essa resposta deve está na ponta da nossa língua. A chapa 1 da categoria construção, independência e ação, está ao lado das trabalhadoras e dos trabalhadores, quer sejam ativos, aposentados ou pensionistas. A FUP e sua chapa, ao contrário, estão do outro lado. É fácil chegarmos a essa conclusão, vejamos:

  1. Nós lutamos intensamente pelo aumento real em nosso salário base;
  2. Nós defendemos a conversão da RMNR em salário base;
  3. Nós defendemos a reabertura do Plano PETROS para toda a categoria, achamos que a repactuação foi um ataque aos direitos da categoria;
  4. Nós defendemos a AMS para pai e mãe;
  5. Nós defendemos a redução da jornada de trabalho, sem redução de salário;
  6. Nós defendemos a primeirização das atividades da PETROBRAS, através de concursos e a consequente redução da terceirização;
  7. Nós somos contra os leilões de PETRÓLEO, pois achamos que TODO O PETRÓLEO TEM QUE SER NOSSO, e quando falamos NOSSO, nos referimos ao povo brasileiro;
  8. Defendemos uma PETROBRAS pública e 100% estatal;
  9. Nós somos contra a utilização da PETROBRAS para atender os interesses de grupos políticos.

Agora basta avaliar qual dessas propostas acima a FUP e sua chapa tem compromisso real. Por isso não se engane, pergunte aos outros candidatos e candidatas DE QUE LADO VOCÊ SAMBA?

1Central única dos trabalhadores. Fundada em 1983.
2Federação única dos petroleiros. Fundada em 1993.
3A restruturação da previdência; O congelamento de salários; Aumentos salariais menores que a inflação; A aposentadoria especial.

É perceptível a falta de compromisso com os diversos estudantes da Universidade Federal da Bahia, e mais uma vez a reitoria revela a latente questão do descaso com o qual discentes são tratados por esta instituição.

Sabe-se que bolsistas e residentes há muitos anos se mobilizam indignados com a ausência de compromisso com as pautas e suas prorrogações intermináveis. Diante do cenário de distanciamento, inércia e da insensibilidade do reitorado (atualmente de Dora Leal) fizeram com que residentes e bolsistas alavancassem uma ocupação do CPD em Julho de 2013 a fim de denunciar descasos e exigir respostas concretas em detrimento das constantes burocratizações que demonstravam que a via institucional não era suficiente. É importante perceber que a ocupação do CPD foi uma forma de luta que revelou por onde puderam alcançar o que estava pautado.

No entanto, a reitoria continua não honrando compromissos e simplesmente negligenciando as pautas que se arrastam. A reitoria não cumpriu com os prazos e nem deu respostas as seguintes reivindicações:

  1. Reforma imediata e ampliação do RU Ondina atendendo aos 10 pontos referentes a estrutura e funcionamento do Ru exigidos pela vigilância sanitária; Além disso as reformas não foram efetivadas e o semestre 2013.2 já iniciou e o R.U continua fechado!!!

Prazo: 26 de julho de 2013

  1. Acessibilidade da frota do BUZUFBA

Prazo: 26/setembro

Informam que tais medidas dependem do parecer da procuradoria federal. Se responsabilizam pela fiscalização dos ônibus. Há um documento a parte que informa que serão 3 ônibus e 2 micros.

DORA

É preciso deixar claro que não estamos tratando de um problema pontual e casual, mas de um problema estrutural na concepção de universidade que está posta e outra que necessitamos. Como vemos os problemascom a Assistência Estudantil na UFBA afetam cotidianamente a quem mais precisa dela, portanto magnífica reitora: ASSIM NÃO DÁ! SEM ASSISTÊNCIA NÃO TEM COMO ESTUDAR!

INTERTEXTO

Primeiro levaram os negros

Mas não me importei com isso

Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários

Mas não me importei com isso

Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis

Mas não me importei com isso

Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados

Mas como tenho meu emprego

Também não me importei

Agora estão me levando

Mas já é tarde.

Como eu não me importei com ninguém

Ninguém se importa comigo.

(Bertold Brecht)

Faremos aqui uma análise introdutória sobre o processo de construção de uma Unidade de Polícia Pacificadora, conhecida por UPP, dentro da UNEB para ‘atender’ o bairro da Engomadeira. Esta formulação não dará conta de elementos necessários para compreensão do problema (como o extermínio da população negra e uma crítica a como o Projeto Democrático Popular ainda influencia nas análises de alguns grupos), mas tentaremos trazer a tona os elementos centrais de nossa análise.

Antes, é necessário lembrar que vivemos em uma sociedade em que a apropriação do espaço urbano não é voltada para atender as necessidades sociais, mas para que os setores de circulação do capital no espaço urbano extraiam a maior quantidade de lucro possível. Na cidade de Salvador, não é difícil visualizar as contradições geradas a partir disso, pois, ao mesmo tempo que vemos grandes arranha-céus em regiões de encosta no Campo Grande e no Corredor da Vitória, vemos também anualmente os noticiários trazendo manchetes sobre os desmoronamento de inúmeras casas nas encostas das periferias por não terem a mesma infraestrutura dos grandes prédios do centro. A essa questão dão como resposta o fato de ser uma construção desordenada em áreas de risco, ao invés de deixar claro que o problema está nas condições de apropriação destes espaços. A humanidade já desenvolveu a capacidade de produzir grandes obras em regiões não favoráveis (como encostas), mas, quando está em jogo o interesse pelo lucro, é possível ter favelização ao mesmo tempo em que há grandes empreendimentos.

calabar

É na lógica de garantir a melhor estrutura (hospitais, escolas, teatros, shoppings, farmácias) para os espaços em que há mais circulação de capitais – no caso de Salvador são as regiões turísticas e comerciais – que se potencializa um processo de ‘urbanização’ em algumas partes da cidade (Barra, Ondina, Rio Vermelho, Pituba, Iguatemi) e favelização em outras partes (Pirajá, Cajazeiras e, entre tantas outras, Periperi). As áreas favelizadas próximas às regiões em que o capital vem se desenvolvendo são as primeiras a sofrerem intervenções do Estado para que se adequem às novas necessidades do capital, como acontece com o Calabar nas imediações da Barra (assim como o Nordeste de Amaralina para o Rio Vermelho e para a Pituba).

Uma das estratégias usadas pelo Estado para desapropriar e expulsar as populações dessas regiões é a construção de UPPs. Trata-se de um projeto que pretende instituir polícias comunitárias em regiões favelizadas como forma de desarticular quadrilhas que antes controlavam estes territórios. Entretanto, não é difícil observar que essa pretensão é uma farsa de caráter hediondo que revela uma das macabras facetas do Estado ao falsear a realidade, impondo como causa geradora da violência, única e exclusivamente, o tráfico de drogas. Desse modo, justifica o genocídio de habitantes de periferias, normalmente trabalhadores e seus filhos – quase sempre descriminados por serem negros – em nome de uma “pacificação” que atenda aos interesses dos grandes empresários e das grandes corporações.

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As UPPs são, desse modo, um mecanismo do Estado de controle social de áreas desassistidas de serviços básicos como saúde, educação, pavimentação e transportes, lazer entre outros tantos, mas que marginalizadas pelas condições materiais de seus moradores e criminalizadas pelo tráfico de drogas, são vistas como pontos chaves para a intervenção policial. É preciso ressaltar que tais intervenções se reduzem ao pobre e ineficaz debate sobre segurança pública existente no país, que aponta como sendo a solução dos problemas a efetivação de mais policiais e intervenções mais ofensivas. Apesar de novas roupagens essa “nova forma” de controle social vem com o mesmo conteúdo de toda ação policial: a opressão via força e a coação via legitimação da polícia enquanto força pública mantenedora da ordem.

Sabemos que a real intenção dessa atitude é tirar do foco o cerne da questão: a existência da favelização como resultado de um processo histórico de dominação de uma classe sobre toda a riqueza que é produzida pelo trabalho de outra classe. O papel do Estado é servir a classe dominante, usando de sua estrutura política, jurídica e militar para perpetuar a relação de exploração. Essa é a raiz de tantos problemas (tráfico de drogas, altos índices de violência urbana, etc) que aparentemente se colocam como contradições a serem resolvidas sem romper com os marcos do capital.

A construção de uma UPP na UNEB para intervir na região do Cabula e Engomadeira decorre das necessidades de se construírem novas alternativas de acesso para as regiões do Iguatemi, da Paralela e Acesso Norte, como a construção da via expressa e da linha Viva. Nessas áreas, estão surgindo diversos empreendimentos como shoppings, condomínios, centros empresariais, o que vem a “justificar” a necessidade de uma base comunitária na região.

Não é a primeira vez que nos deparamos com as contradições reveladas a partir da construção de UPP’s. No Brasil, cada vez mais há um incremento no número dessas unidades evidenciando que o seu papel é controlar as atividades em determinados locais a fim de reduzir a criminalidade (lê-se impor austeramente a política repressora e punitiva da polícia). Tais contradições dão base para que se constituía um movimento de embate à postura da UNEB que, em momento algum, consultou aos seus membros, acatando, de cima para baixo, uma decisão do governo do Estado.

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O que se vê na UNEB é a interferência do estado da Bahia na ‘autonomia’ universitária, construindo uma unidade policial com o intuito de vigiar e criminalizar os moradores do entorno da universidade. A comunidade acadêmica desconhece como se deu esse processo. É sabido que as Universidades em geral contradizem o seu discurso ao produzir conhecimento para benefício de uma parcela privilegiada, na grande maioria dos casos, e, quando tem caráter de intervenção social, normalmente não se coloca em uma perspectiva de criticar a sociedade capitalista e nem de combatê-la.

Compreendendo todas as circunstâncias redigidas, o Coletivo Contra Corrente apóia o ato contra a instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora da Universidade do Estado da Bahia. Entretanto, a luta não se encerra na universidade, é preciso estar junto com a comunidade de Engomadeira, articulados contra essa ação. Sabemos que tais intervenções, além dos problemas imediatos como exterminío e aumento das abordagens violentas, tende a interferir no processo de organização dos moradores. Diante disso, ressaltamos a importância dos moradores da Engomadeira, trabalhadores e estudantes da UNEB, manterem-se organizados de forma autônoma perante essa política pacificadora.

Há exatos nove anos, acontecia uma ocupação na reitoria da Universidade Federal da Bahia. A pauta era local e, sobretudo, nacional: contra a Reforma Universitária, em defesa de uma universidade pública, gratuita e de qualidade, e da ampliação do direito à educação a toda a sociedade, sem qualquer tipo de exclusão. Nessa reivindicação constava intrinsecamente a luta pela revitalização da universidade e pelo seu não sucateamento, decorrido para justificar privatizações; luta para que os estudantes pudessem ter refeições a preços acessíveis em restaurantes universitários; luta para que se tivesse mais professores efetivos e mais vagas; luta para que o plano de segurança da UFBA fosse efetivamente implementado pelo Reitor (na oportunidade Naomar Almeida); luta pela abertura a todos, ampliação e melhoria das nossas bibliotecas e a luta para que a educação continuasse a ser um direito assegurado a todos e não se tornasse um serviço, como pretendeu essa Reforma Universitária em curso na época.

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Cabe ressaltar que tal mobilização ganhou corpo a partir de manifestações anteriores realizadas pelos residentes e bolsistas de assistência estudantil, assim como na ocupação do prédio da Farmácia-escola, que durou metade do ano de 2006 e teve como motivo principal a incoerência entre o aumento da demanda por mais vagas em residências (assim como em creches, restaurantes, bibliotecas, etc) e a inércia e a insensibilidade do reitorado de Naomar para com o expressivo número de estudantes de todo o interior (e de outros estados) que são atraídos todos os anos para a UFBA, já que estamos no 5º estado mais populoso e um dos menos servidos por universidades públicas do país; e também em 2007, detonada pelas péssimas condições das instalações do então restaurante universitário do corredor da vitória que causaram, inclusive, um perigoso vazamento de gás e fizeram residentes e bolsistas alavancarem a ocupação da reitoria naquele ano para denunciar estes descasos e exigir respostas concretas em detrimento das constantes burocratizações que demonstraram que a via institucional não era suficiente, deixando claro que não estávamos tratando de um problema pontual e casual, mas de um problema estrutural na concepção de universidade que está posta e outra que necessitamos. Ambas as lutas foram fundamentais, por exemplo, para a conquista da única residência universitária da história da UFBA que foi projetada para tal finalidade, entregue ano passado. Hoje tais estudantes se veem novamente obrigados a lutar por avanços nos benefícios oriundos dessa (falta de) assistência – que são o mínimo de condições para sobreviver dentro da universidade –, que não atendem à comunidade como deveria. Como vemos, os problemas com a Assistência Estudantil na UFBA afetam cotidianamente a quem mais precisa dela.

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Como foi percebido em 2004 e também agora em 2013, a tentativa de se institucionalizar as pautas foi fracassada. Burocracias que são postas para obstaculizar tais reivindicações (CONSEPE, CONSUNI, reuniões fechadas com a reitoria etc.) mostraram-se mais uma vez ineficazes. As vias institucionais se esbarram continuamente em seus limites: atravancos e mais atravancos para se resolver fatos simples, porém que mexem na divisão financeira da autarquia, e por isso são tão silenciados e omitidos. A Magnífica Reitora, muito bem servida e alicerçada pelo atual DCE estático, faz vistas grossas e finge que nada está acontecendo, negligenciando o que vem se passando na Universidade Federal da Bahia nessa década de lutas, espelhando como o governo federal enxerga a universidade pública atualmente. Não quer dizer, contudo, que negamos absolutamente a via institucional, porém alertamos que levar o processo unicamente por essa via conduz todo o movimento à falência. É importante perceber que a ocupação do CPD já é uma forma de luta que mostra por onde podemos alcançar o que pautamos!

O atual movimento não deve mais esperar por soluções que virão de cima para baixo somente. Avaliamos que a política de Assistência Estudantil na UFBA é debilitada, porque vivemos numa sociedade desigual e assim o é também na universidade. Portanto, o Coletivo Contra Corrente apoia a luta dos residentes e bolsistas de Assistência Estudantil, afirmando que é instante, sim, de radicalização! Infelizmente está mais do que nítido que as instâncias burocráticas da UFBA não sabem atuar senão pela força de uma ocupação ou organização sólida de seus estudantes. Estaremos ajudando na construção do processo organizativo para conquistarmos incialmente as pautas aqui colocadas – referentes a melhorias na alimentação, transporte, hospedagem etc., todos com suas especificidades e desdobramentos – e depois o marasmo da política arcaica em nossa universidade.

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As três últimas semanas não passaram desapercebidas no calendário nacional. Desde a terça-feira (11) – marcada pela truculência da polícia paulistana em cima dos mais de 5 mil manifestantes que foram às ruas pedir a redução da tarifa do transporte, além do apoio da mídia à repressão e manutenção desta dois dia depois (13) agora em 20 mil manifestantes – uma onda nacional de manifestações tem ocupado grande parte dos centros urbanos e sido comentadas nos noticiários oficiais e nas redes sociais, ora com críticas incisivas ora com aclamações. A pauta inicial? A redução da tarifa do transporte público que, seguindo a regra clássica de mais lucro ad infinitum nas mãos dos empresários, aumentou em várias cidades, em média, 0,20 centavos. Que não era apenas pelos 0,20 centavos, os manifestantes deixaram claro desde o primeiro momento. O debate mais amplosobre mobilidade urbana, animado pelo Movimento pelo Passe Livre (MPL) em alguns lugares e por Frentes Contra o Aumento da Passagem em outros, envolve desde financiamento dos serviços públicos até planilha de gastos e prioridades, passando ainda pelo papel que o Estado deve cumprir diante de demandas como moradia, saúde, educação e, claro, transporte público.Manifestação aumento onibus1-GABRIELA BILÓ-FUTURA PRESS

As manifestações em São Paulo e Rio de Janeiro fortemente reprimidas, foram o fato político que serviu como mote para a deflagração de protestos que ocorreram a nível nacional acerca da problemática das altas tarifas do transporte público. O aumento das passagens dificultou a vida de vários estudantes e trabalhadores que sim, sentiram a dificuldade de pagar vinte centavos, mas muito mais que isso, cansaram das imposições da burguesia em sua ânsia por lucro. Em Fortaleza, Feira de Santana, Salvador, São Paulo, Porto Alegre, Curitiba e outras cidades, acompanhamos e construímos a luta contra o aumento das passagens, bem como outras revindicações que levaram a população às ruas. Entre elas, com uma grande expressão, os impactos da copa no Brasil, como os despejos e os investimentos públicos em locais que não são prioritários para a população, como em saúde e educação.

E a violência nas manifestações?

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Ouvimos bastante sobre a tal violência das manifestações. Essa palavra que nos remete quase diretamente a roubos, assassinatos, tráfico de drogas (que se passam majoritariamente na periferia das cidades grandes devido à desigualdade social gerada pelo capitalismo) deve ser mais bem compreendida, diferenciando o que chamamos nós de violência, e o que os aparelhos da classe dominante (como a mídia) chamam de violência.

O que seria matar 1 bilhão de pessoas por falta de alimentos e 25 milhões por se alimentarem de comida ruim enquanto a humanidade já produz o suficiente para alimentar 12 bilhões de pessoas, senão uma forma extrema de violência?  Trabalhadores são violentados cotidianamente para gerarem lucro aos seus patrões todos os dias. Essa, a violência, é necessária para que os exploradores dominem os explorados. Mesmo a república burguesa mais democrática é um grande instrumento dos dominantes sobre os dominados, que ora se apresenta aparentemente de forma mais consensual, mas também atua repressivamente quando necessário.

Ficou claro nas últimas semanas como o Estado continua desempenhando seu caráter classista, exercendo todo o seu poder para garantir os interesses de quem de fato manda no país, a burguesia. Ficou claro também que seu papel não é a neutralidade entre as classes, fazer a simples “mediação” entre elas,  mas que seu caráter já é por si só repressor e dominante. Não faz diferença significativa quem está sentado na cadeira da presidência ou em seus outros níveis burocráticos, a ordem geral é “manter a ordem”.

Assim, vimos que o Estado tem utilizado todos seus aparatos – militares e ideológicos – para usar o cenário de protestos a seu favor e, quando necessário, reprime brutalmente a população, principalmente nas manifestações em cidades onde ocorrem jogos da Copa das Confederações. No último dia 20 de Junho, quando mais de um milhão de pessoas fizeram a manifestação no Rio de Janeiro, foram reprimidos pela tropa de choque em meio a uma avenida às escuras, com as luzes dos postes apagados. Isso mostra como o aparelho repressor (a tropa de choque) estava em sintonia com o governo e com a iniciativa privada (na figura da Light, companhia elétrica do Rio). Isto sim é uma enorme violência!

 

“Movimento sem organização”? Pra quem serve a ‘neutralidade’ do movimento…

Se é verdade que há anos não víamos tanta gente nas ruas do país nem tamanha multiplicidade de pautas que vão, atualmente, desde “Fora Corrupção” a posições contrárias aos investimentos exorbitantes para a Copa do Mundo de 2014 feito pelo governo federal, é verdade também que a sensação que nos chega junto com a onda de mobilizações é a de um terrível soco no estômago. Na medida em que avançava em número, criou corpo e voz dentro das manifestações gritos de ordem do tipo “Fora Partidos” ou “O povo unido governa sem partido”, chegando, inclusive a ocorrer agressões físicas à militantes que insistiam em levantar suas bandeiras. Alegando-se via redes sociais se tratar de um movimento “apartidário” e na perspectiva de “evitar oportunismos”, o movimento ganha máscaras, perde o colorido e paulatinamente fica marcado por uma onda verde e amarela que, ao som do hino nacional, rechaça, renega e rasga qualquer bandeira em tom vermelho. A esquerda aturdida, confusa e muito pouco preparada de modo geral, se colocou a resistir da forma que pôde. Mas é preciso compreender, antes de tudo, que isso tem uma razão de ser.

Muito dizemos sobre o ciclo de lutas do qual o PT foi protagonista e que marca na classe trabalhadora a apatia, a falta de envolvimento político, a passividade, entre outros. O conteúdo dessa forma é também construído socialmente nesses últimos anos e expressa a ideologia burguesa de diversas formas. Vemos hoje nas manifestações tentativas sinceras de mudança  de “algo que está errado” e na aparência disso, acaba-se chegando também a pautas que aparentemente mudam as coisas, mas na verdade acabam mantendo a sociedade exatamente como está.  Assim, percebemos uma onda conservadora – já que não questiona mudanças radicais – que está parasitando as mobilizações. Ainda, vemos uma pequena burguesia pautando as mobilizações para seus objetivos políticos que se apresentam de forma caótica, mas no plano de fundo é o mesmo: a necessidade de um lugar no Estado burguês.

Dito isso, nesse interim da criminalização das movimentações através de uma onda de pacifismo que cercam as mobilizações, o Estado democrático e popular utiliza-se de diversas formas para criminalizar os movimentos e organizações de esquerda. Exemplo disso, é a grande mídia: primeiramente criminaliza as manifestações, afirmando os protestos contra o aumento das tarifas e à copa como violentos; já num segundo momento, se coloca como apoiadora das movimentações, enfatizando que a grande maioria quer uma manifestação pacífica e quem está causando toda violência são os vândalos (muitos deles policiais infiltrados): afirma assim, que a culpa  da violência é sempre de um “pequeno grupo de arruaceiros” e que o movimento em si é importante, é o “gigante acordando”.

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A luta histórica de quem nunca dormiu

Por mais que exista o discurso de que o “gigante acordou”, há aqueles que há tempo estão acordados, na luta pelo direito e emancipação dos trabalhadores. Os movimentos de esquerda, mesmo com toda repressão e políticas de cooptação da direita, não se retiram da luta. Lutamos! Seja por pautas econômicas e imediatas – necessárias e fundamentais na luta de classes -, seja pelo horizonte histórico em defesa da nossa classe. Em momentos de repressão, como no governo Vargas e ditadura militar, os movimentos de esquerda não negaram suas bandeiras. Sabemos que não foi de uma hora para outra que conseguimos o direito de livre organização politica!

Sabemos que não foi de uma hora para outra que conseguimos o direito de livre organização politica. A história nos mostra que a bandeira vermelha é um símbolo mais que necessário e que expressa essa luta dos que sempre se mantiveram acordados. O vermelho é a cor da bandeira francesa pintada com o sangue dos trabalhadores que foram brutalmente atacados pela burguesia, quando esta assumia o poder na revolução do século XIX. As bandeiras representam o movimento de luta da classe trabalhadora e, por isso, não podemos jamais baixá-las!

Existem indivíduos que constroem suas organizações há muito tempo, que entendem que a mudança da sociedade passa, necessariamente, por militantes organizados que pensam e agem todos os dias na destruição desta sociedade e na construção de uma nova. Não descartamos a existência de partidos que irão tentar tomar proveito da situação para agitar suas bandeiras eleitoreiras, que só buscam a autoconstrução de indivíduos pontuais (e não da sociedade), estes são os oportunistas. Mas não difamemos aqueles que estão ali como companheiros, vamos buscar entendê-los e perceber que não estão nas manifestações para tirar proveito no momento oportuno das eleições burguesas, os revolucionários organizados não acreditam na democracia burguesa, a utilizam (ou não), como uma ferramenta para construção de um projeto muito maior, o Socialismo.

Aos que hoje acordam precisamos esclarecer tudo que ocorreu e que viemos fazendo ao longo desse tempo de sono tão profundo. A luta contra a ditadura nos anos 70, as greves de diversas categorias na década de 80, a luta contra as privatizações da década de 90 e diversas outras, trouxeram conquistas históricas para a classe trabalhadora. Em 2012, houve a maior greve de todos os tempos das Universidades Federais e de inúmeras categorias do Serviço Público Federal. O próprio MPL, que iniciou os atos contra o aumento da tarifa, já existe há oito anos e nesse período sempre se colocou em luta, mesmo com tantos outros adormecidos.

Afinal, a qualidade de questões como Transporte, Saúde e Educação é fundamental para que possamos viver com mínimas condições. As lutas travadas ao longo da história pela conquista dessas direitos para os trabalhadores mostra que se ficarmos parados, cada vez  teremos menos.

Toda essa mobilização coloca em evidência contradições do próprio capitalismo: com ele desenvolvemos inúmeras tecnologias a fim de plantar, vestir, transportar mais e melhor, entretanto, em nome do lucro da burguesia, só temos acesso a essas e outras produções sociais da humanidade a custos muito altos, e assim somos impedidos de ter qualidade em aspectos fundamentais de nossas vidas! Há precarização e destruição dos serviços públicos, ao mesmo tempo em que há priorização de investimentos em empresas privadas. Há, porém, passividade transformando-se em atividade. Quem está nas ruas hoje, está aprendendo na prática da vida que não se mexer não significa apenas ficar no mesmo lugar, mas perder cada vez mais. Ir pra rua, reivindicar melhorias, questionar o que está colocado é um importante aprendizado para todos nós! Ainda  temos muito a avançar, mas, sem dúvidas, esse processo mostra a necessidade de organização da esquerda e de mobilização da população em geral. Aquilo que tanto afirmamos vem ficando mais palpável: só a luta muda a vida! É em movimento e de forma organizada que conseguimos conquistas reais, com passos firmes rumo a superação dessa sociedade!

Articulação Nacional

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