Coletivos Parceiros


Nossa luta é pela educação

Mais humana possível:

aquela que torne crível

dentro de cada indivíduo

o poder que não existe em sua mão.

(Rafael João)

Este é um documento direcionado àqueles que fazem parte, já fizeram, pensam em fazer, ou mesmo, simpatizam com o grupo “Além do Mito…”, bem como às pessoas que atuam no movimento em um sentido que julgamos próximo ao nosso. O objetivo aqui é apenas fazer alguns apontamentos das estratégias, táticas e organização do grupo, além de desafios postos ao AdM e seus militantes. Não se trata, pois, de um texto que vise somente instigar as pessoas em sua militância no grupo, mas de traçar objetivamente um perfil que desvende algumas mediações necessárias à nossa organização e aos objetivos da luta.

Desde 2005 até hoje, o grupo estudantil “Além do Mito…” passou por várias transformações. Não só em seus quadros, fazendo constantes renovações quantitativas e qualitativas mesmo sempre tendo que lidar com a sazonalidade típica do movimento estudantil, mas mudou também em sua conotação organizativa. Tais transformações muitas vezes não vieram de nossos planos, de nossas vontades. Foram impostas pelos desafios que nos defrontamos, tendo em vista os nossos objetivos traçados. Isto quer dizer apenas que a luta cria contingenciamentos aos quais a organização e as práticas nela empregadas devem responder. Não escolhemos plenamente por qual caminho seguir, muito menos estes vão de acordo com nossas conveniências. Respondemos à luta real, e seus imperativos, com base nos princípios e táticas relativas a ela. Daí que devemos partir para pensar o que é e o que deve ser o “Além do Mito…”.

O AdM surgiu inicialmente impulsionado para se disputar a eleição do DCE, mas ao longo do processo se transubstanciou em algo mais sólido, para além de eleições de entidades ,de modo a colocar as suas pautas e concepção no cotidiano do movimento. O essencial disto é que se manteve porque vários militantes se engajaram em suprir uma necessidade do movimento estudantil que se tornou viva. O AdM tornou possível efetivar uma organização estudantil de porte dentro da UFAL, que fosse a antítese da burocratização, do peleguismo, e que pautasse a universidade pública dentro de uma perspectiva radical classista. Isto não foi pouco, muito menos tudo, apenas conseqüência da militância organizada e de uma conjuntura que propiciou as condições para tal fato.

Este breve histórico (e sua análise) não é somente para reavivarmos nossa memória. A definição do AdM hoje carrega em si este histórico e, não menos importante, junto com as expectativas cunhadas – passadas e presentes – provenientes dele. Enfim, mesmo sabendo que nosso passado não nos condena (pelo contrário), tampouco ele nos isenta de desafios e lacunas que o próprio tempo trata de evidenciar. Tal reconhecimento deve mostrar que nossos propósitos estão obviamente inconclusos, e provavelmente sempre estarão, mas nos obriga a continuar perseguindo-os.

Dos Princípios e concepções:

Defendemos um movimento feito verdadeiramente pela base, sem retórica e sem concessões, ao lado dos trabalhadores na luta de classes e por uma universidade pública, gratuita e de qualidade, que não reproduza meramente o status quo.

O que pode ser problemático é a nossa capacidade de agir com o volume e a profundidade necessários. Ter esta estratégia fixada é uma coisa, outra é dar ressonância e conseqüência maior a ela. Para tanto é preciso ter uma grande militância, que seja ao mesmo tempo: intensa, qualitativa, quantitativa e organizada. Ou seja: precisamos de um número de companheiros (as) que possa dar conta de toda a demanda do movimento; de uma organização que nos propicie agilidade e unidade; de compreensão teórica e capacidade de intervenção política; e, não menos importante, de disposição de luta, pois sabemos que esta se constrói a cada dia. O combate ao praticismo não requer somente uma práxis ideologicamente segura que engendre dialeticamente teoria e prática como meio de transformação, e sim tudo isto inexoravelmente somado a uma militância sempre presente e contínua. Para realizar de fato a concepção de um movimento feito pela base é preciso, antes de tudo, estar nela e dar conseqüência real a todos os passos. Temos que ter na mesma medida uma teoria que corresponda à prática e uma prática que corresponda à teoria. Assim deve ser o dia-a-dia do “Além do Mito…”.

O princípio básico de organização para luta, que inclusive procuramos defender intransigentemente dentro da tentativa – em curso – de reorganização do movimento estudantil deve sempre reafirmar-se: defendemos sem pestanejar um movimento estudantil radical e substancialmente democrático. Radical porque deve levar suas lutas às últimas conseqüências de sua potencialidade, sempre condizente com seu programa e ideologia. Significa também ir às causas, sem sectarismos e nunca se valendo de atalhos fantasiosos. Inerente a isso, buscamos a democracia interna, pois movimento social é para pôr a base em luta, colocando os próprios atores (no nosso caso, os estudantes) como protagonistas diretos de sua luta e organização. Ela é substantiva, pois não-ilusória, sem dicotomizar direção e base, sem se manter na mera retórica fácil.

Este princípio básico não é uma sentença moral apriorística que assumimos apenas por conveniência. Ele se relaciona diretamente aos nossos objetivos de luta norteados pela emancipação humana. Movimentos sociais só podem ser realmente transformadores ao adotarem métodos e práticas organizativas correspondentes com as transformações almejadas. Assim como movimentos de massas, são plenos quando as massas assumem o movimento, tomando consciência de suas necessidades e da luta para superá-las. O princípio de democracia interna substantiva nos movimentos deve percorrer todas as fases da luta.

Da organização interna:

Antes de explicitarmos nossa estratégia e em que sentido devemos direcionar nossas lutas, cabe fazermos uma digressão sobre a organização do grupo. Isso se faz importante principalmente para aqueles que ainda não conhecem propriamente a dinâmica do grupo, além do que a reafirmação de certas práticas é sempre bem vinda.

O “Além do Mito…”consiste em uma organização política, independente (de partidos), que congrega estudantes com uma perspectiva de transformação social e tem como base a teoria marxista. Vale ressaltar que esta relação sempre foi muito importante para dar ao grupo uma boa capacidade de mobilização e coesão. Pois, ao invés do que dizem as críticas destrutivas de nossos opositores, o sectarismo nunca foi característica do grupo. Pelo contrário, sempre pudemos agregar e conviver com as diferenças (inclusive, externamente). Entretanto, a relação entre as partes deve obedecer ao objetivo geral, bem como aos princípios previamente traçados. Ou seja, a base que une a todos no grupo é a nossa referência. Não existem conveniências “táticas” que justifiquem recuos que retorçam esta lógica.

Organizamo-nos para intervir no movimento estudantil local e nacional. Deste modo, se faz necessário que tenhamos uma periodicidade de reuniões para debater e planejar nossas intervenções de modo coerente e qualitativo. Assim, nos reunimos semanalmente para tratar das demandas cotidianas e, a cada seis meses realizamos espaços de formação teórica e organização interna do grupo que denominamos “vivência”.

O grupo é internamente horizontal, tal como busca a construção de um movimento estudantil também horizontal. Desta maneira, não há divisão hierárquica no grupo, apenas dividimos funcionalmente as tarefas quando elas surgem. Não temos os que “pensam” e os que “agem”, todos devem construir igualmente, pensando e agindo. No mais, fazer parte do grupo é, além de coadunar com os seus objetivos e princípios, se auto-reconhecer enquanto membro (inclusive como necessário ao coletivo) e participar da construção do mesmo. Não somos uma organização partidária que venha a centralizar seus militantes ou mesmo escaloná-los em ordem de importância e comprometimento. Construir o “Além do Mito…” é participar organicamentedo grupo para, enquanto tal, intervir no e junto ao ME.

As únicas diferenças existentes, não implicando em qualquer desigualdade interna, são as naturais, decorrentes da experiência pelo tempo de permanência no movimento. Em outras palavras, é normal que militantes mais antigos no movimento assumam até uma determinada proeminência, se destaquem pela experiência acumulada. Desnecessário discorrer que isto não implica em direção por parte destes, as decisões são sempre de igual responsabilidade e méritos de todos. Já os militantes mais novos, muitas vezes ainda “verdes” no movimento, tendem a ser mais passivos, daí nossa frequente preocupação em estimular o desenvolvimento desses novos militantes. Dessa forma, isso não significa que existe uma linha que demarque uma diferença substantiva entre ambos, colocando-os uns acima dos outros. Enfim, nenhum antagonismo entre “novos” e “antigos” pode ser tolerado. As diferenças existentes são assessórias, portanto a contribuição de cada um é igualmente necessária.

Das estratégias e táticas:

Em termos gerais as estratégias do grupo já foram apontadas, mas cabe aqui discutirmo-las. Tais estratégias estão, obviamente, ligadas essencialmente à gênese do grupo. No decorrer da nossa história, mudamos em ênfases e alcances, todavia os delineamentos gerais já foram dados desde início. Da mesma forma que os limites das nossas estratégias estavam traçados, neste caso não por nós mesmos, mas pela realidade em si (o que não quer dizer que o processo histórico não se reflita neles). É neste sentido que estratégias devem existir na medida do possível, do realizável historicamente. Ou seja, se propor a algo que de fato não esteja no horizonte histórico, não só é burrice, como também é um meio de fracassar nos objetivos mais imediatos e elementares. As estratégias se sustentam em uma precisa leitura da realidade.

Definindo a estratégia do AdM: a) lutar pela perspectiva do Trabalho na universidade, que na sociedade capitalista significa uma universidade pública, gratuita, de qualidade; neste sentido, lutamos contra os ataques Neoliberais à educação superior. Junto a isso, temos um objetivo político-organizativo no qual se traduz pela: b) reorganização do movimento estudantil, no caso a re-formação de um movimento estudantil de esquerda combativo, autônomo e radicalmente a favor dos trabalhadores na luta de classes. A nossa estratégia compõe uma unidade desses dois pólos que estão necessariamente juntos, apesar de não se identificarem.

Mesmo fazendo uma opção de classe pelos trabalhadores, o AdM não é, tal como o ME, revolucionário, por mais que engendremos uma luta anti-capitalista. Nós atuamos sobre a esfera da educação, a partir da qual não se revoluciona a sociedade. Seria um contrassenso imaginar, em um regime capitalista, uma universidade dos trabalhadores. Da mesma forma que uma universidade pública e gratuita não ultrapassa a sociedade de classes do capital. É precisamente por isso que a luta efetiva por uma universidade pública e gratuita atende aos objetivos do Trabalho, desde que relacionada a uma luta que exceda os muros da universidade e que vise aguçar as contradições do capital e fortalecer o Trabalho em todas as esferas sociais.

A luta contra a Reforma Universitária é uma resistência contra os ataques a universidade que temos hoje (ou que tínhamos, visto já o estágio das mudanças). Por muito tempo vivenciamos um momento defensivo do ME contra esses ataques. Apesar de vivermos em uma conjuntura brutalmente contra-revolucionaria ( ou seja, a revolução não está posta na ordem do dia), é necessário que o Movimento estudantil se articule e se fortaleça nacionalmente no intuito de uma atuação ofensiva e propositiva na construção de um projeto de universidade que queremos, sem perder nosso horizonte estratégico, ou seja a superação do Capital

Para atingir a nossa estratégia, em todas as suas dimensões, é preciso empreender táticas que nos encaminhem no seu sentido. É preciso ter claro que por mais que não seja fácil definir exatamente qual tática é mais adequada dentro da complexidade de cada momento, torna-se necessário todo o esforço e estudo para que a partir da leitura mais próxima possível da realidade, adotemos as táticas mais acertadas, visto que táticas equivocadas podem levar a erros e derrotas históricas com consequências extremamente negativas apara a luta de classes. Por mais que dois revolucionários igualmente comprometidos com a causa defendam táticas bem distintas para determinada situação, não significa que as duas são igualmente adequadas. A estratégia visada, com seus inerentes princípios, e o processo histórico circunscrevem os limites possíveis das táticas acertadas. A tática não é meramente uma construção subjetiva. Eis aí nossa principal tarefa e responsabilidade enquanto Grupo “Além do Mito…”.

Aqui seria impossível definir quais táticas visamos adotar além do nível mais abstrato que fizemos. Podemos no máximo apontar alguns modos necessários nos quais elas se inserem. Deste modo, a discussão abaixo é essencial no presente contexto, sendo fundamental para a intervenção do AdM.

As táticas só se constituem enquanto efetivas mediações para os objetivos estabelecidos quando articuladas organicamente. Do contrário, as ações parciais perdem o sentido e tendem a se neutralizar. Portanto, é preciso que encaremos o ME enquanto um todo unitário, por mais que ele tenha suas subdivisões organizativas (entidades de base, geral, de área). A sua intervenção deve se encaminhar em um sentido e para o mesmo fim, sem deixar de resguardar as especificidades próprias de cada campo de atuação. As particularidades de cada curso com seu correspondente movimento ganham dimensão real na totalidade que se inclui. Assim, deve-se direcionar a práxis que deseja apreender o geral e o específico. Não há como intervir no todo sem entender suas partes, bem como as partes são incompreensíveis excluídas da totalidade.

Estamos hoje em luta contra a Reforma Universitária Neoliberal, não apenas contra a precarização deste ou daquele curso. Se limitarmos a luta a um curso qualquer (particularidade) o resultado óbvio é o fracasso, pois implica no não reconhecimento de todo complexo que é responsável pela precarização do curso em questão. Fatalmente não atacaríamos os fatores causais e os seus respectivos agentes decisivos, colocando todo nosso empenho em um beco sem saída. Agora, se articulamos a luta no curso em particular a todo o complexo que faz parte, não só tornamos possível a não- precarização deste ou daquele curso, como ainda aumentamos nossa possibilidade real de vitória total, pois faríamos um embate que contemplaria o sentido geral com suas particularidades. Neste sentido é preciso que a militância do ME direcione sua luta.

O próprio ME deve ser uma unidade orgânica, sem a qual não haverá movimento reorganizado. O “Além do Mito…” visa justamente ser um instrumento para tal. Um instrumento que, por um lado, sozinho não é capaz de garantir estes objetivos, mas que, por outro, é indispensável para essa articulação do ME dentro da UFAL.

A experiência recente do ME da UFAL é demonstrativa, presenciamos o descompasso de interesses entre entidade geral (DCE) e entidades de base (CA´s). De um lado, CA´s e DA´s dispostos à luta, mas que eram podados pela direção do DCE e acabavam sucumbindo às suas próprias limitações. Inclusive as últimas atuações gerais do movimento que tiveram consequências reais foram baseadas em frentes de atuação por fora do Diretório Central dos Estudantes, o qual teve que vir à reboque do próprio movimento, mesmo a contragosto. O inverso, caso acontecesse, se revelaria tão prejudicial quanto, pois um DCE voltado para luta precisa de respaldo nas bases, sendo um pólo de articulação dos CA´s. Do contrário, as entidades só se voltariam para seu próprio umbigo, caminho este que leva, no mínimo, à paralisia e, no máximo, à burocratização e aparelhamento.

Sendo assim, se queremos reorganizar o ME pela base e lutar contra os ataques neoliberais à educação superior precisamos hegemonizar nossas concepções por todo o movimento, em todas as suas instâncias. Isto é, precisamos que nossa militância se faça presente e atuante em todos os níveis, participando em harmonia tanto do movimento em seu próprio curso (junto à sua base) como do movimento geral. O AdM precisa, portanto, ocupar os CA´s e DA´s e o movimento geral, para que – dentro dos princípios acima explicitados – tenha capacidade real de intervenção no ME, fortalecendo-o para a luta. Se ficássemos unicamente junto ao movimento geral acabaríamos nos afastando das bases, sendo então incoerentes com nossas concepções, do mesmo modo que, se nos restringimos aos movimentos de área sacrificaríamos todo o nosso projeto.

O momento histórico atual sempre é importantíssimo, a conjuntura vivida sempre é extraordinária, os próximos desafios sempre são difíceis e as tarefas sempre estão inconclusas. Nós do AdM não nos negamos a viver tudo isto e, se não conseguimos nos livrar da doença congênita do ME de cair regularmente em refluxos, pelo menos nos organizemos para tornar nosso ápice avassalador!

ALÉM DO MITO QUE LIMITA O INFINITO!

Do Blog: http://grupoalemdomito.blogspot.com.br/

Enquanto diversos cursos da universidade realizam assembleias para apoiar a greve dos professores, para indicar e deliberar por uma greve estudantil em torno de seus próprios problemas, o Diretório Central dos Estudantes (DCE) faz de tudo para impedir que o debate se espalhe pela universidade, usando de sua estrutura burocrática e sob o véu da neutralidade.

Na Assembleia geral dos estudantes do dia 15 de Maio, o DCE rebolou para evitar que os estudantes ali presentes tirassem um indicativo de greve estudantil e, no comando de mobilização, continua a se posicionar da mesma forma.

O indicativo de greve é uma forma de colocar o debate sobre a greve estudantil em pauta. Ele não significa que os estudantes estão em greve, apenas que eles irão debater a questão para se posicionar em uma assembleia futura, podendo nessa assembleia entrar em greve ou não. Esse mecanismo existe para que os próprios estudantes debatam e decidam suas próprias questões, e não meia dúzia de estudantes encastelados na sede do diretório.

Os estudantes que propuseram indicativo de greve na assembleia foram acusados de estar impondo uma greve estudantil goela abaixo dos estudantes da universidade. Ora, quem está tentando impor alguma coisa é o próprio DCE, ao não permitir que o assunto sequer seja debatido.

O diretório, se fosse democrático, já teria soltado um jornal sobre o tema, teria divulgado em seu site, já estaria sistematizando uma pauta de reivindicações e construiria o debate junto aos estudantes, mas não, se contenta em falar em nome dos estudantes, quando esses querem falar por si próprios!

Comando de Mobilização

A assembleia geral criou um comando de mobilização, responsável por incentivar assembleias nos cursos. Nós, junto a outros coletivos e estudantes independentes, viemos cumprindo essa tarefa apesar dos esforços do DCE de obstaculizar esse processo.

Durante as reuniões do comando, os membros da atual gestão do DCE tentam a todo momento impedir o debate sobre greve, depois das reuniões distorcem as deliberações que poderiam ajudar na construção do debate e tratam com desrespeito esse espaço criado pela assembleia dos estudantes.

A próxima assembleia foi convocada pelo DCE no local e horário que mais lhe agradava ao invés de demandar esforços para o local que o comando tinha avaliado como mais viável para a participação dos estudantes, por ser no centro, onde o acesso é melhor. Além disso, mais uma vez não convoca a assembleia para debater o tema de uma possível greve estudantil, querendo com isso calar o rico processo que se desenvolve em sua base – as assembleias dos cursos.

Mas a burocracia não triunfará!

Colegas, atentem para o posicionamento político do DCE e de outras entidades burocratizadas que procuram impedir o debate franco entre os estudantes. Os cursos que ainda não realizaram assembleia podem e devem pressionar seus centros acadêmicos que também tentam calar ao simplesmente não convocar assembleias e nem colocar o assunto em debate!

Os estudantes do curso de Medicina e Psicologia já deflagraram greve. Estudantes de outros cursos como Ciências Sociais, Direito, Engenharia Elétrica, Engenharia Florestal, Engenharia Química, Filosofia, Geografia e História tiraram indicativo de greve, e outros como Biologia, Arquitetura e Biomedicina tem assembleia marcada para discutir a mobilização estudantil.

Debata você também em seu curso! Vamos levar nossas pautas à Assembleia Geral dos Estudantes da UFPR e garantir que ela seja realizada sem o entrave dos burocratas-representantes do movimento estudantil!

Do blog: http://outrosoutubrosvirao.wordpress.com/

“Não serei a poeta de um mundo caduco, tão pouco cantarei um mundo futuro”     

Nunca se falou tanto em “libertação da mulher”. Em todos os lugares , seja nos movimentos sociais insurgentes nos últimos anos, nas igrejas renovadas e progressistas e mesmo nas telenovelas e propagandas da grande mídia. A nova mulher é retratada como cidadã livre, dinâmica e que cada vez mais ocupa seu lugar na sociedade em pé de igualdade com o homem.

Essa tão aclamada “libertação” está intimamente ligada a chamada “segunda onda” feminista, surgida na década de 1960 e que tinha como reivindicação principal o direito a livre sexualidade e reprodução da mulher.

Isso tudo como resultado do processo de fragmentação das lutas gerais para as lutas com centralidade em sujeitos específicos (mulheres, negros, índios, homossexuais, lésbicas, etc). Devido ao novo cenário de pós – crise da década de 1960.

A necessidade de expansão constante do sistema capitalista (atrelado a sua própria lógica), trouxe a possibilidade de integração feminina na esfera pública social como a política, o emprego, entre outros. Ao mesmo tempo, possibilitou a “ruptura” com velhas formas de ideologia. Começa-se a questionar nesse período histórico, por exemplo, o papel do modelo imposto de família no qual ocorre o aprisionamento da mulher na esfera do lar, legitimando tal acontecimento.

A crítica do aprisionamento sexual da mulher, adivinda dessa crítica à moral burguesa, surge nesse contexto de mudanças sociais e transformações de mercado. “Revolução sexual” passa a ser o lema vigorosamente reinvindicado pelas feministas francesas que iam as ruas queimar seus sutiãs e proclamar o direito ao próprio corpo.

Quarenta anos depois, com os “novos mercados” já consolidados, com a democracia burguesa, baseada na cidadania iluminista (direitos e deveres para todos na necessidade de universalizar o acesso ao consumo), a todo vapor, o que se vê concretamente é que , apesar de muitos direitos já conquistados, as mulheres em todo o mundo continuaram responsáveis pela esfera doméstica e sendo vítimas de todas as formas possíveis de violência dentro dessa sociedade.

Evidencia-se então que a crítica moral desconectada da crítica da estrutura sob a qual a sociedade capitalista se assenta – baseada na propriedade privada, exploração do trabalho e valorização do dinheiro para obtenção de mais dinheiro – não é capaz de responder ao nosso tempo.

A crítica a moral “caduca” então, por não saber compreender a sociedade moderna e seus modos de vida atual, tornando-se anacrônica e insuficiente para a luta pela superação da sociedade patriarcal.

Cantar a revolução sexual é, portanto, cantar o “mundo futuro” pois só a partir do momento em que haja uma ruptura radical com a sociedade capitalista patriarcal é que poderá existir um desenvolvimento da sexualidade pleno, capaz de suplantar as relações entre os sexos existentes atualmente.

“Estou presa à vida e olho minhas companheiras, estão abatidas mas nutrem grandes esperanças”

Nesta sociedade, onde os papeis sociais e sexuais, femininos e masculinos, são determinados de acordo com as necessidades do mercado, é onde se localiza a raiz da opressão sobre a mulher moderna: o patriarcado. Ou seja, a dominação masculina baseada na propriedade privada de bens e, claro, da mulher.

Dito isso, é importante a organização feminina que coloque em pauta a relação entre sexo e sociedade, que problematize os ditames machistas da mesma, que reconheça a necessidade da luta ser travada também ao lado dos homens – reprodutores de uma lógica hegemônica – e que reconheça a mulher como alguém que, além de ser explorada como “objeto sexual” também o é como trabalhadora. São fatores importantes para uma real contextualização do machismo, ou seja, enquanto houver sistema de exploração capitalista haverá machismo.

O movimento feminista combativo é aquele que leva em consideração não somente o papel sexualmente ativo da mulher, que tem sua importância, mas também leva em consideração a exploração das mulheres trabalhadoras e o roubo de seu trabalho, a expropriação das horas de trabalho doméstico, a dupla jornada que explora a mulher demasiadamente, ou seja, pautas que mostram que a lógica de funcionamento dessa sociedade precisa também da subserviência da mulher para se manter em vigor.

Além de reconhecermos a necessidade da libertação sexual, temos que considerar a existência de mulheres que além de desejarem ter “vaginas livres e corações rebeldes”, ou “de fazer sexo anal”, precisam de alimento, educação, pão, terra, entre outros fatores nos quais são deixados de lado e que as mesmas precisam para se “libertarem”.

“Entre elas, considero a enorme realidade, o presente é tão grande, não nos afastemos, não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas 

O direito ao corpo e a sexualidade são pautas centrais para que[m]?

“o cu é meu e eu dou para quem eu quero”, “as vaginas livres, corações rebeldes” são para aquelas que pautam seus direitos por meio de reformas possíveis na norma dominante, esquecendo que a base patriarcal e masculina não mudaram.

Para aquelas que não sofrem diretamente as mazelas das péssimas condições de trabalho, venda do corpo para sobrevivência, violência em todos os âmbitos, velada e naturalizada. Cadê elas neste grito proposto? Continuam em casa como propriedade do patriarca, ou recebendo menos que um homem pelo mesmo trabalho e sofrendo todos os tipos de violências cotidianas.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, as mulheres presentes,
a vida presente.

Tudo isso posto, resta-nos a questão: qual o verdadeiro sentido da marcha das vadias? O que busca para além do questionamento moral/sexual?

Nós, mulheres e homens, não marcharmos por entender que a crítica pela crítica se perde no vazio, que o uso da forma para alertar a sociedade, sem o conteúdo devido não leva a transformação efetiva nenhuma e que a crítica a moral burguesa perdeu-se no tempo e no ocaso precisando ser superada através de ações efetivas que questionem mais do que a moral, que questionem a organização da vida nessa sociedade e o roubo cotidiano de nossas potencialidades humanas, sejam elas sexuais ou não.

Não marcharmos porque ao tirarmos as nossas blusas ou ao gritarmos que “damos para quem quisermos” não superamos a condição de submissão da mulher, não denunciamos à sociedade civil a violência invisível que paira sobre as mulheres trabalhadoras e tão pouco fortaleço a luta de superação dessa sociedade.

Vale lembrar, que enquanto falamos que “todas somos vadias”, esquecemos das mulheres que são “vadias” profissionais, que vendem o próprio corpo porque na sociedade em que vivemos, ou nos tornamos mercadorias ou deixamos de comer.

Entendemos que além de santas, vadias, tias, avós, mães, somos mulheres na busca de uma sociedade onde a igualdade de potencialidade e a possibilidade de sermos únicas esteja plena, uma sociedade de superação, onde não tenha que me submeter a rótulos porque meu corpo não será mercadoria nem tenha que dar satisfações a sociedade sobre o porque de me vestir assim ou assado.

Não marchamos porque lutamos, não apenas por “vaginas livres”, mas por MULHERES LIVRES, livres, inclusive, da condição de mulher.

Juliana Magalhães – Estudante de Ciências Sociais da UECE

Dafne Drumond Boni – Estudante de Psicologia da UFPR

Lucas Vidal – Estudante de Ciências Sociais da UECE

Ana Paula – Estudante de Ciências Sociais da UFC

“EU VEJO UM MUSEU DE GRANDES NOVIDADES…”

 

            Em agosto-setembro de 2011, o contexto de grave precarização do Ensino Superior impeliu aos professores da UFAL, a exemplo dos docentes de outras Universidades Federais, a deflagrarem uma greve por tempo indeterminado. Apesar de se ter um comando de greve composto por professores politicamente progressistas e bem intencionados, esta deflagração se deu, para a grande maioria dos professores, por insatisfação pessoal diante dos salários defasados e da cabal ausência de condições adequadas para o exercício da profissão que por consciência das necessidades e limites que se punha diante do movimento docente.

            Naquele momento, não obstante as deliberações de varias assembléias pelo país terem sido contrárias ao reajuste salarial de 4%, o ANDES aceitou a proposta do governo, com aval, dentre outras seções locais, da ADUFAL, o que implicava no esvaziamento da pauta da mobilização, pois os professores estavam apenas atentos à questão do seu salário; mas o problema é mais profundo, quando percebemos que estas condições salariais e de ensino, sua precarização, o aumento inconseqüente do número de alunos, desembocando no progressivo sucateamento da Universidade Pública é conseqüência de nossas ações no passado, como por exemplo a aceitação do REUNI em 2007.

                Após quase uma semana da deflagração da assembléia passada, na qual vários professores permaneceram em atividade normal – não sendo possível perceber, de fato, o clima de greve na UFAL -, houve nova assembléia onde votou-se pelo fim da greve. Ao fim, em linhas gerais, aquela mobilização serviu para mostrar que a categoria docente ainda é pouco capaz de provocar um movimento que retire a universidade dos trilhos da inércia cotidiana e a ponha no caminho da luta. A situação de agora nos relembra muito este passado recente.

                Hoje, depois de sete meses do ocorrido, o movimento docente sente novamente a necessidade de utilizar desta ferramenta de reivindicação – greve – para lutar pela garantia de suas exigências.  Os docentes da UFAL aprovaram, na última assembleia, a greve por tempo indeterminado que tem início neste dia 17 de maio de 2012. Nós estudantes, nos colocamos lado a lado nesta luta, apoiando e nos disponibilizando para construir as mobilizações, tal como fizemos nos processos anteriores, por entender que as reivindicações são legítimas e necessárias e que fazem parte da luta em defesa de uma educação pública, gratuita e de qualidade, onde é dever também do estudante tomar um posicionamento. Porém este apoio não pode ser feito de forma acrítica.

                Contudo existem algumas particularidades que esse momento de início de greve nos coloca na obrigação de apontar, por compreender a importância das pautas e a necessidade de que elas sejam atendidas. Desde que saiu o encaminhamento do ANDES de possível greve geral, não vimos acontecer em nossa universidade (tal como greve passada) atividade alguma por parte dos professores, além das assembléias tardias convocadas pela ADUFAL e das paralisações isoladas cumprindo com o calendário nacional, que viabilizasse uma ampla discussão aprofundada acerca da greve. Passamos por um momento de extrema apatia onde, salvo algumas poucas exceções, nem se chegou a debater o assunto em sala de aula. Este fato, incrementado pela forma como esta fora conduzida, se reflete na última assembléia dos docentes, onde após a votação da deflagração da greve, antecedida apenas por seis falas, houve um significativo esvaziamento do auditório, restando poucos professores para dar andamento às atividades. Deste modo, concluímos que não obtivemos um processo de avanço na politização da comunidade acadêmica, o que nos faz visualizar uma greve na qual a maioria dos professores irá para suas casas e os estudantes, por não enxergarem outra opção, também assumirão as férias forçadas, enquanto que a direção do sindicato busca negociar com o governo federal, até que seja feito um acordo e se reestabeleça a dinâmica normal da universidade.

                No fim da assembléia, o restante dos estudantes lá presentes foram convocados pela direção do DCE para uma assembléia estudantil no dia seguinte pela manhã, na intenção de tirar o posicionamento dos discentes sobre a greve e de que maneira se inserir nesse processo. A assembléia foi convocada com menos de 24 horas para mobilizar todo o campus. Implicando em sérias conseqüências para o acontecimento desta. O resultado foi uma reunião ampliada do DCE, não atingindo quórum para caracterizar uma assembléia. Estas duras críticas são para nós extremamente fundamentais para que nosso apoio seja sincero e construtivo, logo, elas não significam uma tentativa de enfraquecer, mas de fortalecer o movimento grevista, apontando os erros para que possamos avançar na luta.

                Por isso, propomos uma mobilização comprometida, que a greve não seja sinônimo de férias e que não se reduza a uma pauta salarial. Mas, também, que reflita na prática a falta de condições adequadas de trabalho no cotidiano da universidade. Que a mobilização em conjunto com todos os outros setores da universidade – já que, todos são atingidos pela precarização – culminem no atendimento das pautas e na conscientização de todos quanto aos processos de sucateamento que estão se dando nas universidades públicas brasileiras. É necessário colocar, nesta greve, como discussão constante e como pauta, problemas referentes a este sucateamento do Ensino Superior Público, pois possibilita a unificação das categorias, fortalecendo ainda mais a luta.

 

Assina esse texto: Grupo Além do Mito, Gustavo (Comunicação Social), Fernando (Filosofia) e Jadson (Psicologia).

“Esse  jornal  tem  como  objetivo  apresentar  e explicar  para  o  conjunto  das  universidades e  faculdades  a  conjuntura  que  estamos inseridos  em  2012,  da  possível  greve  nacional de servidores e professores e as causas dessa mobilização.  Para  tanto,  fazemos  um  pequeno resgate  de  como  nossa  educação  chegou  ao nível de sucateamento que está.  (…)

Fazemos este material com coletivos que atuam em diversos estados, e nas mais diferentes realidades, por entendermos que não estamos isolados. Os problemas que vivemos diariamente nos nossos locais de estudo estão relacionados com o modo que nossa educação e a nossa sociedade se estruturam, e, mesmo com suas particularidades, todos os locais tem dificuldades semelhantes.

Temos direito ao acesso ao que a humanidade produz de mais avançado e não a uma educação sucateada. Temos o direito à pesquisa de qualidade e não à reprodução técnica. Temos direito à permanência na Universidade e ao acesso universal, não às bolsas miseráveis e assistência estudantil precária. Temos direito à construção de um conhecimento crítico, e não à reprodução dos valores e normas vigentes. E vamos lutar por esses direitos. Nossa luta é uma só, precisamos reivindicar melhores condições de estudo e ao mesmo tempo apoiar as reivindicações de melhores condições de trabalho para servidores, professores e terceirizados, sem nos esquecermos de todas as mudanças que nossa sociedade precisa passar para termos verdadeiramente uma educação de qualidade.”

Além do Mito

ContraCorrente

Lutar e Construir

Outros Outubros Virão

Baixar na íntegra: Além do que se vê

Ler Online: http://www.slideshare.net/MatheusSampaio/jornal-alm-do-que-se-v


É com muito prazer e respeito que escrevemos esta carta aos camaradas do Coletivo Contra Corrente – Salvador/BA. Principalmente porque, este momento que vivemos, é o momento crucial na reorganização do movimento estudantil (M.E) e da esquerda brasileira. Há aqueles que acreditam que não estamos passando por um processo de reorganização do ME. Destes, discordamos claramente. Há outros, que enxergam neste processo um problema sério de direção política. Também discordamos. Para nós, do Coletivo Nacional Barricadas Abrem Caminhosa reorganização do movimento estudantil teve seu momento paradigmático com a subida do Governo do PT ao poder. Ali, foi colocada para a classe a possibilidade de caminhar rumo as conquistas dos trabalhadores. Mas não foi isso que aconteceu nem o que vem acontecendo. O projeto político tocado pelo PT nada junto ao interesses do capital, oprimindo a classe e a sua juventude.

A Reforma Universitária do Governo Lula imposta nas Universidades Públicas Federais veio de contramão às reformas que o movimento de educação sempre pautou. Para o Movimento Estudantil Nacional era necessário ir às ruas para combater tal projeto e reafirmar à sociedade a universidade que queremos: Pública, Gratuita e de qualidade. Por outro lado, a ferramenta nacional dos estudantes (UNE) que, diga-se de passagem, já vinha traçando o caminho do governismo e da burocracia há tempos, se posicionou claramente a favor da Reforma e consequentemente, contra as greves, paralisações e mobilizações estudantis que ocorreram em 2007/2008 na tentativa de barrar o Reuni. Não conseguimos o que queríamos. Mas, ficou claro para o movimento estudantil que a luta se faz por fora da institucionalidade, através da ação direta e da desobediência civil.

Para nós, não há condições reais de retomar a UNE para o campo combativo, assim como acreditam alguns setores. Porém, os seus fóruns ainda atraem estudantes (em sua maioria de universidades particulares) que só tem como referência política a UJS/PCdoB. Para tanto, compreendemos que é necessário levar para estes fóruns uma outra concepção de ME, que denuncie o governismo e a farsa da UNE e convoque os estudantes para a luta diária em defesa da educação.

Por outro lado, fazemos a avaliação de que o processo de reorganização do ME não se dá somente pela construção de uma nova entidade e/ou discussão superestrutural da ferramenta (UNE x ANEL), mas principalmente pela aglutinação de setores que estão contra o processo de reconfiguração do mundo do trabalho e da educação. É o momento de buscarmos a unidade política através das ações concretas, das formulações em conjunto e das discussões fraternas. É momento da unidade na luta.

Para nós, é muito gratificante receber o convite dos/das camaradas do Coletivo Contra Corrente para contribuirmos com os debates políticos que serão travados neste fim de semana, de 6 a 8 de maio de 2011. Infelizmente, não tivemos condições materiais e pessoais para enviarmos militantes para participar do seminário, porém escrevemos esta humilde carta para, primeiramente, agradecer o convite e deixar claro que coletivos estudantis como o Contra Corrente são essenciais no processo de reorganização do movimento estudantil.

Nós, do coletivo nacional Barricadas Abrem Caminhos, estamos dispostos a estreitar os laços de unidade com as companheiras e companheiros do coletivo na construção de outros espaços que possam contribuir com a luta do ME. De antemão, deixamos aqui, a possibilidade de fazermos um seminário para aprofundarmos e formularmos em conjunto análises sobre a educação e restruturação do mundo do trabalho. Recentemente, montamos um núcleo na cidade de Cachoeira (BA) o que pode facilitar o contato entre o Barricadas e o Contra-Corrente.

Por fim, desejamos um ótimo seminário de formação a todas e todos e dizer que estamos firmes na luta, em defesa da educação, caminhando Contra Corrente,montando Barricadas e abrindo caminhos para um sociedade livre, justa e socialista.

UNE ou ANEL – Eis a questão?

Após o Congresso Nacional de Estudantes, ocorrido em 2009, no qual se fundou a Assembléia Nacional dos Estudantes Livre – ANEL, nunca tinha se apresentado, em Alagoas, a necessidade tão premente de responder à questão acerca da construção ou não dessa entidade como nos últimos quatro ou cincos meses. Identificamos que as razões do fenômeno mencionado já apontam para a resposta a ser dada a esse questionamento, ainda que ambas não se esgotem.

Entretanto, o propósito do presente texto é, antes de tudo, contribuir para a discussão acerca do processo de reorganização do movimento estudantil, sem perder de vista em nenhum momento, que atualmente a ANEL se apresenta enquanto principal experiência desse processo, por mais que com ele não se identifique por completo. Entendemos assim, pois, em primeiro lugar, que a ANEL, e o PSTU, foram responsáveis por reduzir a discussão que envolve o processo de reorganização do movimento estudantil à experiência por eles construída. Em segundo lugar, a ANEL, nesses dois anos de fundação, se mostrou incapaz de aprofundar a tendência necessária de rompimento cabal com a União Nacional dos Estudantes – UNE. Desenvolveremos esses elementos mais adiante.

Noutro documento (Para onde foi a reorganização?) já expusemos, quando fizemos uma análise circunstanciada do Congresso Nacional dos Estudantes, os passos dados pelo movimento de reorganização até a fundação da ANEL, passando pela CONLUTE, pela Frente de Luta Contra a Reforma Universitária e, pelo Encontro Nacional de Estudantes. Neste texto não iremos nos repetir, porém, é extremamente necessário que se resgate os debates sobre conjuntura nacional, concepção de movimento estudantil, entidade nacional surgida na base, entre outros que estiveram outrora na ordem do dia.

Sendo assim, nossa análise, no presente texto, não se deterá na especificidade do 1º Congresso da ANEL, mas intentará expor uma leitura desta entidade nos seus aspectos mais gerais, tendo eles sidos expressados ou não nesse espaço nacional.

Dos primeiros sinais de vida…

Não obstante o DCE da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas ter deliberado pela sua construção em meados de outubro de 2010, podemos afirmar que a ANEL somente despontou na cena política estudantil de Alagoas no dia 19 de março de 2011, quando foi realizada sua primeira Assembleia Estadual.Isso porque esta entidade não pode se afirmar enquanto não tinha sido iniciada a reestruturação regional do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado.

Ou seja, enquanto o PSTU esteve enfraquecido em sua organização no movimento estudantil, a construção e os debates acerca da ANEL não surgiam no horizonte próximo dos estudantes. Exigiu-se que uma subjetividade, mesmo que coletiva, organizada num partido, forjasse uma necessidade que não estava objetivamente posta, comprometendo, deste modo, a própria prática concreta, uma vez que os passos dessa entidade estarão seriamente limitados no que diz respeito ao atendimento dos principais objetivos reservados à entidade que deveria surgir do processo de reorganização. Aspecto, este, anunciado desde o CNE, em 2009.

No que toca aos debates, a Assembleia Estadual foi inaugurada a partir das falas de quatro membros do PSTU que tentaram traçar a linha de abordagem de quatro bandeiras. Eram elas: o apoio e a inspiração nas revoltas árabes, a luta por Assistência Estudantil e contra o Novo Enem, o combate às Organizações Sociais e, a necessidade de fazer surgir e fortalecer a ANEL enquanto alternativa a UNE.

Pois bem, diante da conjuntura geral de duas, das três universidades públicas do Estado, havia um número sensivelmente maior de pessoas presentes – vários deles estudantes secundaristas – na assembleia com a ânsia de discutir e traçar medidas concretas na luta contra o Novo Enem. Porém, a discussão mais importante do espaço se deu de maneira completamente desorganizada, tanto no que diz respeito à análise e clareza acerca do projeto, quanto na incapacidade dos companheiros do PSTU em direcionar a discussão e apontar possíveis caminhos, demonstrando, naquele momento, que a principal tarefa era apenas propagandear a ANEL.

Ademais, naquele último eixo fizemos uma intervenção para problematizar o papel da ANEL e a concepção de entidade que estava sendo defendida pelo companheiro, afirmando que era imprescindível, para que pudéssemos compreender corretamente o ser da ANEL, que compreendêssemos, antes de tudo, a dinâmica e a luta dos elementos que compuseram e compõe sua gênese. Atentando para o fato de que o exercício de análise dos elementos genéticos da ANEL não se resume à critica ao momento de sua fundação – o CNE – mas, sobretudo, é o apontamento das limitações de seu desenvolvimento a partir da compreensão de seus elementos constitutivos.

O CNE, em 2009, representava o passo mais organizativo, ainda que inseguro, do processo de reorganização do Movimento Estudantil. O que significa dizer que existia (e ainda existe) um enorme leque de temas, posicionamentos, concepções de mundo, de organização, de luta… etc. que precisavam ser remontados, ou melhor, reorganizados na consciência objetivamente posta dos estudantes. Discutir esses temas, tirar nossos posicionamentos, ou seja, redefinir nossos princípios fundamentais é – ou deveria ser – o primeiríssimo momento do primeiro passo, visto que reorganizar, na nossa concepção, é organizar de tal forma que se crie o novo. E para que o que se crie seja realmente novo – e não uma reatualização do velho – é indispensável construir novas bases, novos princípios. Ou como deixamos bem claro anteriormente: “As tarefas postas para o Congresso envolviam, pois, o debate acerca de uma gama de temas que, muito além da necessidade de uma Nova Entidade, envolviam os princípios que norteavam a reorganização, seus métodos, bandeiras políticas, concepções de mundo, de educação e mesmo de ME.” (Para onde foi a reorganização?, 2009).

Infelizmente, não foi o que aconteceu no CNE. A clara hegemonia do PSTU nos espaços do Congresso assim como na própria Comissão Organizadora, marcou claramente como o Congresso e sua organização foram fortemente influenciadas pela política tirada pelo partido. Não queremos com isso dizer que é ilegítimo estar em maioria – ou nada que flutue perto disso – queremos apontar a forte responsabilidade do partido quanto à criação e ao desenvolvimento do Congresso. Nada mais óbvio e sensato, uma vez que o Congresso é feito pelos estudantes que estavam presentes, e se a maioria dos presentes tinha no PSTU a semelhança do que há de mais avançado nas lutas – orgânicos do partido ou não – para esses, a posição do partido seria a mais acertada, a que deve guiar esse passo da reorganização.

A soma da estrutura inicial com outros acontecimentos que tornaram, no mínimo, complicado o decorrer do Congresso nos mostra o quanto a organização do CNE se afasta do objetivo que queremos atingir. Como, por exemplo, a inclusão de mesas em momentos desapropriados pela falta de tempo, enquanto que houve momentos sem nenhuma programação; supressão de GT’s, que sem dúvidas são os espaços dos mais valiosos para as discussões – inclusive para as minorias; a divisão da leitura das Teses em dois espaços, com a supressão do segundo; e tantos outros detalhes mais ricos estão expostos em nosso texto de avaliação já citado.

Na plenária final se concretiza a aparência conturbada do CNE. Iniciada com a votação dos consensos tirados dos GT’s e das Teses que puderam ser analisadas, ao invés de prosseguir, discutir e votar, depois disto, os pontos de dissenso – como conjuntura, gênero, educação e cultura – assim firmando boas bases, embora ainda imaturas, para o Novo Movimento Estudantil, o PSTU apresenta uma questão de ordem e propõe que a pauta sobre a criação ou não de uma Nova Entidade fosse adiantada e, mais uma vez, essa proposta é atendida. Ou seja, o partido propôs que fosse votada a criação de uma Nova Entidade sem antes, ao menos, discutir os novos eixos que iriam erguê-la!

Ora, se uma Entidade não pode erguer-se sem eixos, e se só foi discutido uma parte do seu conteúdo, deixando os dissensos – parte mais importante para essa composição – escancaradamente de lado, essa parte que falta só pode ser preenchida pelos velhos conteúdos, pelas velhas práticas, pelo Velho Movimento. Já nesse primeiro momento, o piso desta Nova/Velha Entidade já se apresentava liso e escorregadio.

Ademais, quando a proposta que defendia a criação da nova entidade foi aprovada, a partir da tese que era numericamente inferior, diante das demais teses, todos os demais setores, minoritários, se viram isolados da articulação nacional do processo de reorganização, enfraquecendo, assim, a própria construção deste. O fato do PSTU ser o setor majoritário deste processo implica numa maior responsabilidade sobre os rumos e os passos que esse processo venha a dar. Isso precisa ser constantemente lembrado.

ANEL no Movimento Estudantil

É certo que a avaliação que fizemos sobre o CNE em 2009 não estava petrificada e que nossa posição, inclusive a respeito da ANEL, pode sofrer alterações durante o decorrer da história. Mas, para isso, a Entidade teria que lutar arduamente na tarefa de reverter determinações que sua gênese impõe em seu desenvolvimento. Avaliamos, já em 2009, que não era frutífero para o ME se arriscar nessa tarefa, pois a possibilidade de mais uma derrota histórica se faz tão presente e tão forte que acabaria por colocar em risco os poucos avanços já conseguidos até agora, inclusive com a importante colaboração do PSTU.

Nossa posição continua a mesma unicamente pelo motivo de que a ANEL está caminhando justamente por onde sua conturbada gênese determina. Isso significa que não tem conseguido reverter por completo essas determinações, nem nos mostra indicações de uma objetiva potencialidade para tal. Ou seja, continua afastada do que pretendemos para a reorganização.

Nos dois últimos anos, desde sua fundação, nenhuma grande luta foi travada pela entidade onde não tivesse o PSTU. Aliás, ela não existe onde não há o partido, a entidade é feita quase que exclusivamente pelo partido socialista dos trabalhadores unificado, ainda que não seja a maioria de fato. A construção recente da ANEL/Alagoas representa bem isto – a necessidade da construção de uma entidade nacional vem à tona quando o partido volta a se reestruturar no estado.

Isso está mais do que claro, quando, no começo do texto, afirmamos que a necessidade premente de responder sobre construir ou não a “Nova” Entidade, dentro de Alagoas, se faz exatamente no momento em que o PSTU aqui cresce. É espantosamente confusa como a extrema urgência dessa questão surge há, no máximo, cinco meses, apesar da sua criação datar de 2009? Para nós, não.

Cabe aqui relembrarmos um dos principais argumentos do PSTU – senão o maior deles – para se fundar uma nova entidade em 2009: precisamos de uma nova entidade para potencializar as lutas que estão decorrendo do ascenso do ME nacional. Ora, parece que esta tarefa (potencializar as lutas) não foi o que se pode verificar nestes dois últimos anos.

A ANEL configura uma entidade representativa dos estudantes, em nível nacional, que depois de concebida vem buscar sua legitimação na base. Como pode, então, uma entidade que não tem seu reconhecimento no seio estudantil ser representativa? O debate de seus militantes quase sempre forja uma conjuntura não existente. Não temos uma base que reclame uma entidade de porte nacional somente porque a União Nacional dos Estudantes não serve mais para fazer luta.

Uma vez afastada da base, o que segura a Entidade em pé são as táticas tiradas dentro do partido, que faz com que seus muitos militantes cerrem os dentes e saiam para a militância com o objetivo último de anunciar a ANEL a todo custo, propagandear suas bandeiras, agitá-las o máximo possível para que todos possam ver que uma nova alternativa de direção está posta, agora só falta segui-la para conquistar as vitórias estudantis. É por isso que de 2009 até o início de 2011 não estava na pauta do dia a sua construção, não havia esse questionamento, pois a base dos estudantes não sente essa necessidade, ou não acha possível dentro da atual conjuntura. E hoje, essa questão não é colocada pela base, mas sim pelos próprios militantes do partido que exauridos de esperar o reconhecimento da base, perguntam-se, eles próprios, o motivo pelo qual todos os demais estudantes não a constroem.

Como a ANEL não tem esses posicionamentos fundamentais reconfigurados e nasce em um contexto de intensa crise de consciência, por mais que eles anunciem, levantem e balancem a bandeira mais correta possível, aquela realidade não está para os estudantes. E nem pode estar sem uma cuidadosa e gradual elevação dessa consciência. Defendendo muitas das vezes a bandeira correta, os militantes que constroem a ANEL certamente se estranham no meio do caminho: com a bandeira acertada em mãos, digna do Novo, realizam ações “dignas” do Velho; fruto de uma leitura fragmentada da realidade, não conseguem compreender a ocorrência de tal fenômeno, buscando explicações aparentemente plausíveis para justificar tais práticas, na tentativa de acalmar suas próprias mentes e dar uma resposta aos militantes mais sérios diante dessas afirmações dicotômicas produzidas pela própria Entidade. Por exemplo, quando, não raramente, atribuem grande parte da culpa da necessidade dessas práticas indignas aos setores que não constroem a ANEL e por isso enfraquecem as pernas da mesma.

Uma vez criada a Entidade que defende as bandeiras mais acertadas possíveis, o PSTU acha que o que falta é divulgar a ANEL dentro de atos, através de listas de e-mails, em falas em público e no convite para seu congresso. Como se os estudantes estivessem todos plenamente conscientes do que devem fazer, maturado todo o debate pertinente a uma reorganização e só o que falta é que alguém chegue e apresente uma Entidade nova que balança as bandeiras corretas – e nesse momento, como em um passe de mágica, os estudantes se sentiriam tão identificados que o processo de lutas em pouco tempo começaria a eclodir.

Do Congresso Nacional da ANEL

O primeiro Congresso Nacional da Entidade foi realizado na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro nos dias de 23 a 26 de junho deste ano. O Congresso contou com a participação de meados 1700 estudantes, sendo 1200 deles delegados, além de professores e trabalhadores.

O Grupo “Além do Mito…”, por entender que se tratava de um espaço nacional importante da reorganização da nossa categoria, deliberou pelo enviou de observadores ao congresso. Essa deliberação também serviria para nos fornecer uma maior riqueza de detalhe e uma maior quantidade de elementos para aprimorar nossa avaliação.

Estava muito claro para nós, porém, antes do início do Congresso, que este seria um espaço em certo sentido privilegiado, diferenciado, receptáculo de debates, mesas, e pessoas disposta a discutir e elaborar políticas para o movimento estudantil sob uma perspectiva de esquerda e combativa. Foi de fato, um momento que certamente ficará guardado na memória dos militantes lá presentes, pois toda a estrutura do Congresso e as experiências lá ocorridas estão muito longe do que acontece no nosso cotidiano da militância estudantil. O contato com pessoas desconhecidas que, mesmo aparentemente, compartilham de um mesmo objetivo, ou a contribuição de pessoas que não eram estudantes, as falas e até as discussões ocorridas, certamente emocionaram, se não a todos, a esmagadora maioria dos congressistas. E tudo isso por certo contribui na identificação do militante para com a Entidade.

Pois bem, pousando-se o olhar sob o fato com uma maior riqueza de detalhes, percebemos que titulá-lo como positivo ou negativo não é tão simples assim. Na UFAL, se ampliarmos o campo de análise, esses mesmos militantes, inclusive os delegados tirados para o Congresso, fizeram parte de um processo muito conturbado no contato com o ME.

A tiragem de delegados não foge a essa regra e, como se não bastasse a insuficiência da discussão, na UFAL existiram tristes realidades como delegados sendo eleitos no último dia antes do Congresso – no curso de Geografia – e até mesmo a espantosa notícia de estudantes delegados que mal sabiam o que iriam fazer no Rio de Janeiro, ou, que iria sem ao menos saber que sua ida ao Congresso era como delegado.

Para se ter uma idéia, Em 2009, durantes as discussões que envolveram a eleição para delegados do Congresso Nacional de Estudantes, o Centro Acadêmico de História, reconhecendo a impossibilidade de se realizar um debate adequado com a base estudantil no espaço de tempo disponível à época, deliberou por não enviar delegados, mas observadores, pois, tal postura não coadunava com a concepção de novo movimento estudantil por eles praticada.

Além disso, pudemos perceber que os GT’s reservados aos debates fundamentais acerca da nova entidade, do processo de reorganização do ME, de seu histórico e de concepção de entidade não conseguiram aprofundar a leitura do processo como um todo, na qual pudéssemos construir a partir dela, expressando a completa incompreensão do papel que um novo instrumento deveria cumprir.

É desses fatos concretos que tiramos a afirmativa exposta anteriormente de que a ANEL não consegue romper totalmente com as práticas da UNE, ou seja, não consegue reverter a determinação histórica de sua conturbada gênese, apesar de terem programas rigorosamente diferentes entre si.

Diante disso, somos forçados a concluir, no que diz respeito ao processo de reorganização do movimento estudantil, que a ANEL em nada avançou na principal tarefa posta em face desse processo, a saber, a negação/superação dos métodos e concepções que balizam a teoria e a prática da União Nacional dos Estudantes.

UNE ou ANEL: não é esta a questão

Convivendo a ANEL com a base estudantil, conseguindo delegados para seu congresso na grande maioria das vezes sem dar chances para o conhecimento da totalidade do processo que envolve a Entidade e ocultando suas falhas, o PSTU tenta forjar a realidade: cria a falsa polêmica UNE x ANEL.

Tenta, dessa maneira, forjar a realidade com ideias “mortas”, pois, ao colocar a centralidade do problema da reorganização repousada sobre essa falsa questão, o partido cria uma compreensão aparente da realidade, existente apenas nas ideias. Uma vez consolidada a superação formal da UNE, já que a superação material é ainda tarefa da reorganização, o PSTU, ao colocar dessa forma, pressupõe a superação plena da UNE e, como se não bastasse, torna sinônimo ANEL e Reorganização. Tal postura do partido é passada aos militantes da ANEL que a reproduzem em grande escala, dando certo ar de veracidade e legitimidade, pois aparentemente afasta do PSTU a responsabilidade de ter criado tal polêmica, pintando tal falsidade como “o discurso dos próprios estudantes”.

Pensando dessa forma em relação às duas entidades, os estudantes incentivados pelos problemas do seu curso, da sua Universidade e da sociedade, e que acabaram de entrar na vida universitária, ou até mesmo militantes mais antigos do ME, que não tem claro a totalidade dos acontecimentos que compõem a Entidade,logicamente passam a construir a Entidade.

Ao acreditar na veracidade dessa polêmica, junto com a metade da verdade da história referente a UNE, esses estudantes se ligam a ANEL. Acreditando, dessa forma, estarem no pico da contribuição para a reorganização e com isso colocam-se à disposição de defender a ANEL com unhas e dentes – uma atitude louvável, se não fosse baseada num equívoco. O que termina por acontecer é a manifestação cada vez mais clara das práticas do Velho Movimento. Agora, mascarado de novo, consegue convencer os estudantes com a ajuda dessa falsa polêmica. Além disso, espalham essa notícia como questão de vida ou morte, agora ou nunca, UNE ou ANEL, de maneira mais ampliada a cada novo estudante que desliza e cai na sua armadilha, comprometendo, dessa forma, toda a reorganização e o próprio Movimento Estudantil.

Antes de pedir passagem, o NOVO precisa aprender a falar…

De tudo quanto foi exposto, gostaríamos de chamar atenção para alguns pontos finais. O primeiro deles é que estamos operando uma discussão de entidade fundada em bases distintas daquela levada a cabo pelo PSTU, setor hegemônico do ANEL. Essa distinção se evidencia quando percebemos que a partir do momento no qual o partido leva a frente um projeto de reorganização materializado na ANEL, indicando a radicalidade de suas bandeiras, sua autonomia financeira e a democracia interna enquanto elementos que a distingue da UNE, compreendemos que sua análise da reorganização fundamenta-se em parte da realidade e dos sujeitos que nela atuam.

Ou seja, há uma falha metodológica realizada pelo partido quando lê a conjuntura olhando apenas as entidades que nela habitam, quando enxergam, apenas, a expressão formal da imbricação real de aspectos subjetivos e objetivos, sem levar em conta a gama de elementos articulados que dão base a essa superestrutura. Nessa linha o PSTU continuará identificando as vitórias da entidade sempre que esta ocupar um espaço que antes estava “vazio”, sempre que ela for o vetor responsável por colocar algo onde antes não existia nada. Ou melhor, sua própria criação é enxergada enquanto vitória, pois, anteriormente, não havia uma entidade de caráter nacional que defendesse a luta contra a reforma universitária, por exemplo.

Interessante perceber que sob esta perspectiva o debate perde muito de sua riqueza e acaba se reduzindo a um mero procedimento de análise quantitativa, quando precisaríamos lutar, diuturnamente, pela conquista dos elementos qualitativos. Repetimos, é positivo que estudantes antes apáticos, hoje estejam olhando para o mundo de maneira mais crítica e tentando se organizar para praticar coletivamente essa crítica. Contudo, a questão que precisa ser respondida por todos os setores que fazem parte desse processo é: quanto a experiência dos dois anos da ANEL acumulou para o movimento de negação/superação, de rompimento, não apenas com a UNE, mas com tudo que ele representa?

Disto, extrai-se a ilação que, malgrado toda a propaganda operada pelo PSTU, o novo ainda não está pedindo passagem, na verdade, ele possui sérias dificuldades para aprender a falar, seu antigo idioma continua a lhe perturbar, suas palavras, na nova língua, precisam ser traduzidas a partir da velha, quando não ocorre de serem cognatas, ele permanece incapaz de formular frases autonomamente, sob a lógica da nova língua e, por isso, não consegue superar o velho….

Indo além da falsa questão…

Desde quando existe, já dentro do processo de reorganização e rompido com a UNE, o grupo vem consolidando sua concepção de movimento, sempre voltado para a base dos estudantes. A necessidade de uma entidade que supere a UNE está pressuposta desde o momento em que a mesma não pode mais ser a nossa representação. Nega-se, deste modo, suas práticas de movimento distanciadas da base, burocráticas, institucionalizadas e é feito o debate sobre o total desmantelamento do aparelho que um dia foi o comitê de estudantes organizados com o intuito de mudar as condições de educação, bem como a sociedade em que vivem.

Sendo o grupo “Além do Mito…”, de forma sucinta, um grupo de estudantes que se organizam para estudar e atuar politicamente, na Universidade Federal de Alagoas, por uma universidade realmente pública, gratuita, laica, de qualidade e socialmente referendada, com o objetivo de trazer à tona as contradições da sociedade reproduzidas dentro das Universidades, lutar contra as diversas formas de opressões, utilizando-se do processo de tomada de consciência dos estudantes, numa perspectiva classista, a ANEL não corresponde à nossa concepção de ME.

O processo de reorganização, na nossa visão, impactado negativamente pela criação da nova entidade, não estanca aí. A ANEL não é o produto final da reorganização e sim um de seus frutos. Dirigem-se a nós como se a questão fosse construir a UNE ou construir a ANEL, mas a questão correta é construir a UNE ou estar comprometido com o processo de reorganização. Não nos sentimos forçados a construir a ANEL quando esta não atende às necessidades dos estudantes, que em nossa opinião é participar e reconhecer o ME, e, através da base, fazer movimento de práticas e condutas diferenciadas daquelas que todos nós queremos combater.

Que fique bem claro, contudo, que a Assembleia Nacional dos Estudantes Livre não é nossa inimiga. Isto não poderia ser quando se constrói a reorganização. Assim, nós construiremos taticamente junto com a ANEL, quando assim for necessário, mas não podemos nos abster da crítica à mesma, por mais dura que seja, muito menos construir algo que é paradoxal à concepção do próprio grupo.

Nossa tarefa ainda é de reestruturar as bases para um Novo Movimento Estudantil, estreitar o máximo possível nossas concepções, redefinir nosso posicionamento, clarear nosso objetivo, ou seja, elevar a consciência dos estudantes para que assim torne objetivamente possível uma entidade de representação dos estudantes em âmbito nacional. Dessa maneira, teremos ideias vivas e coerentes, pois possíveis de serem colocadas em prática.

Não estamos com isso, excluindo a necessidade de uma articulação de caráter nacional. Isso sempre foi e é o horizonte do grupo. Alias, cabe relembrar nossa proposta no CNE em 2009: Criar um mecanismo que pudesse reunir nacionalmente os setores comprometidos na defesa da universidade pública brasileira. Isso — para que fique bem claro — exclui obrigatoriamente a UNE, pois a mesma não passa de um braço do Estado no ME.

Portanto, reafirmamos a extrema urgência em unificarmos todos os setores comprometidos neste defesa para que possamos minimamente somarmos forças neste momento de descenso do ME, tanto nacionalmente quanto em cada estado do país. Este primeiro passo é importantíssimo para este momento defensivo que estamos vivenciando na esquerda como um todo.


Grupo Além do Mito…

Julho de 2011

 

Texto retirado do Blog do Coletivo Além do Mito

http://grupoalemdomito.blogspot.com/2011/07/tese-do-grupo-alem-do-mito-une-ou-anel.html

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