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“A cada 12 segundos uma mulher é violentada no Brasil e a cada 2 horas, uma é assassinada. Em sua maioria são crianças e adolescentes, e 80% de seus agressores são pessoas “amadas”: parentes, namorados, maridos e amigos.

[…] 85% a 90% das mulheres violentadas no mundo não denunciam seus agressores. O silenciamento e a invisibilidade prevelacem.” (Jeff Vasques)

Há pouco mais de quinze dias, em um ato político e corajoso, a companheira Moíra publicou o estupro que sofreu quatro anos atrás. O estuprador se chama Vladimir Félix Pacheco, graduado em Geografia pela Universidade Federal da Bahia e trabalha no IBGE. 

O estupro ocorreu na casa dele após uma noite de festa e algumas pessoas terem dormido na sua casa. Na época, o estuprador tinha uma namorada que também dormia na casa.  A violência foi silenciada por muito tempo, como ocorre na grande maioria dos casos. A vítima se cala diante do temor, das implicações físicas e psicológicas.

O processo histórico de coação o qual sofrem as mulheres, forjadas socialmente como o indivíduo frágil, relegadas às tarefas domésticas e subservientes aos homens é responsável por reprimir as potencialidades históricas das mulheres. Esta construção social tem consequências  perversas. Uma dessas, por se configurar uma barreira por vezes intransponível dificulta e/ou impede a insurgência da mulher diante das opressões. No entanto, Moíra fez a diferença, expôs a situação dando voz e força a milhares de mulheres vítimas de estupro no país.

Ao tornar público esse crime, algumas garotas também se posicionaram relatando os casos de abuso sexual já cometidos por Vladimir Félix Pacheco. Infelizmente, esses casos ainda estão restritos às conversas privadas, muitas vezes apenas entre mulheres, afinal sabemos como os opressores agem deixando marcas em suas vítimas ao ponto dessas não conseguirem falar sobre o ocorrido e muito menos denunciar.

Além disso, a justiça burguesa evidencia o quão desprotegida estão as mulheres vítimas de assédios e estupros. Denúncias de estupro prescrevem em seis meses, tempo que não se mostra o suficiente para o processo de reação das vítimas.

Isso afeta a vida das mulheres de maneira tão cruel que no espaço público (pelo simples fato de não poderem, por exemplo, circularem nas ruas sozinhas, ou seja, sem uma figura masculina) e no privado (com pais, irmãos, companheiros ameaçando e/ou as violentando) vai deixando marcas em suas vidas. As agressões sejam elas verbais, físicas ou psicológicas mudam a vida de tantas mulheres,no Brasil e no mundo, porque é uma rotina de violência.

Falamos violência, porque o “psiu, gostosa”, nas ruas, e até mesmo o ” você precisa emagrecer. Esta gorda e feia” (geralmente no âmbito mais íntimo) são formas de agressões expressas em locais diferentes e por pessoas distintas, mas que não deixam de machucar e agredir. Sim, senhores, são maneiras de violentar!!!!  Entretanto, acreditamos que é nossa tarefa revelar e denunciar tais práticas na tentativa de ajudar a expor os agressores e fazer com que tantas outras se identifiquem e encorajem, assim como fez a companheira Moíra, para que outras mulheres não tenham de ficar o resto de suas vidas “pedindo licença” para existir.

Sabemos que o machismo, enquanto produto do sistema patriarcal, não será superado nos moldes do capitalismo. A opressão à mulher alimenta ainda mais o sistema de exploração da classe trabalhadora, colocando-as numa posição de ganhar menos do que homens que ocupam os mesmos cargos. Uma mulher recebe em média 40% a menos do que um homem.

O crime foi exposto ao Coletivo Contra Corrente, há dois anos atrás, quando a companheira Moíra ainda militava na organização. O relato chocou a todos nós, e também encorajou outras companheiras a exporem os seus casos, inclusive expondo estupro e assédios no próprio coletivo que levou a expulsão de outros militantes do CC. Entretanto, nos limitamos, naquele momento, ao choque e a expulsão dos militantes. Pouco avançamos nas discussões e ações práticas em torno da pauta das opressões de gênero (e tantas outras). Foi preciso a exposição individual da companheira para que retomássemos a discussão de forma efetiva internamente.

Contudo, assumimos a crítica de termos nos omitido por tanto tempo a denúncia e o rechaço. Assumimos a crítica, na perspectiva de superarmos os equívocos que reproduzimos: desde às práticas machistas entre os militantes homens do coletivo, à omissão de nos colocarmos publicamente no combate ao machismo. Assumimos a crítica por não dar a cara e os nomes dos militantes expulsos por casos de machismo em diferentes níveis, são eles: Anderson Lobo, Matheus Sampaio e Bruno Novaes. Não devemos blindar os agressores ao passo que as vítimas continuam a temer. Infelizmente reconhecemos que é assim que a sociedade e, ainda pior, as organizações de esquerda vem agindo, ocultando aqueles que oprimem e se ausentando da luta junto às vítimas.

É preciso fazer da autocrítica aqui exposta uma luta contínua na superação destas e tantas outras opressões que se perpetuam e se agudizam na sociedade de classes – desde a naturalização à violência mais explícita. Expomos aqui a nossa intolerância a qualquer forma de opressão, e nos colocamos na mesma trincheira daquelas e daqueles que lutam pela destruição do patriarcado, da sociedade de classes e de suas mazelas.

Todo apoio a Moíra! Todo apoio a tantas outras mulheres que sofreram estupros e abusos de Vladimir! Todo apoio às mulheres, esta luta é de todas nós.

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