A20141013101204pós mais de três meses de paralisação, diante do histórico processo de apassivamento das lutas, realizado pelo PT, PCdoB e, mais recentemente, Consulta Popular (Levante Popular da Juventude), através do DCE, muitos estudantes entendem que é natural um desgaste do movimento grevista estudantil. Enquanto isso, para nós que continuamos na luta, fazendo piquetes, paralisações, atos e ocupações, nos locais de estudo e nas praças, não há alternativa para a conjuntura de cortes nas verbas da educação senão a greve; outro fator que justifica tal mobilização é o fechamento do planejamento anual orçamentário, e o Governo Federal novamente afirmando que não haverá dinheiro para a educação neste ano. As conquistas históricas advindas de nossas lutas não serão suprimidas se houver a clareza de que somente retornaremos às nossas atividades com a segurança de que nossos direitos não serão cortados. Mesmo com a certeza de que a greve deve (e vai) continuar, colocamos aqui uma problematização:

Por que ela não segue tão forte quanto se espera?

Primeiramente, as razões nítidas do “campo governista”, ou seja, aqueles (as) que defendem e blindam ferrenhamente o governo Dilma de críticas, alegando que “a culpa não é de Dilma, e sim do Ministro da Fazenda, Joaquim Levy”, fingindo não saber que Levy, ex-diretor do Bradesco, é convictamente um dos membros mais importantes do governo para assegurar que os banqueiros e financiadores de campanha terão seus lucros garantidos, independentemente de uma “crise econômica”. Tais defensores do governo alegam, ainda, que “criticar o governo é dar margem ao golpe da direita”, como se cortar verbas da saúde e educação, ampliar as privatizações no país e esmagar os direitos dos trabalhadores com, por exemplo, a PL da terceirização, o programa de proteção ao “emprego” (que reduz os salários em 30%, sendo 15% pagos pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador) e as alterações brutais no seguro-desemprego, atendimento a saúde do trabalhador e pagamento do abono salarial não fossem políticas de direita!

O primeiro elemento que podemos apontar para entender porque a greve não segue forte é, então, o processo de esvaziamento político das lutas na UFBA por parte principalmente dos setores governistas, que, além de falsearem a realidade, alegando “golpes de direita” que, neste momento, estão fora de cogitação, defendem os interesses dos patrões e governos para atacar a classe trabalhadora e precarizar a Educação Pública. Para esses, a greve é só mais um espaço para afirmar o que o governo já diz “estamos sem dinheiro”, o que não é verdade visto que o governo não deixou de investir na educação privada! Pior do que falsear a realidade, é quando esses setores se colocam para burocratizar os espaços de luta e organização dos estudantes, fazendo assembleias não deliberativas ou deixando de estabelecer pautas para a greve.

As motivações para a greve não seguir forte acima colocadas já bastariam para explicar porque o movimento anda tão esvaziado. Há, contudo, outras explicações: alguns (mas) lutadores (as), inseridos (as) inclusive no seio da própria esquerda, que, na pressa de “nacionalizar a greve a todo custo”, mesmo com um cenário incipiente de universidades paralisadas e/ou mobilizadas (16 de 64, o que representa somente 25%), acabam repetindo vícios de um ciclo de movimento estudantil que desejamos enterrar, isto é, práticas de representatividade, personalismo e movimentos superestruturais de direção, como a criação de instrumentos nacionais de mobilização que não são síntese de um movimento amplo e massivo – portanto reconhecido e exigido por todos (as) –, e sim da necessidade urgente que paira apenas sobre a cabeça de uma parcela minoritária de estudantes.assistencia1

Eles (as) perdem-se, consequentemente, daquilo que faz uma greve ter força: ação direta – bandejão, piquete, panfletagem, atos locais –, potencializar a luta nos seus locais de estudo (debates, assembleias recorrentes, troca de análises das pautas entre os cursos), acúmulo maior sobre as pautas históricas dos estudantes da Universidade (ampliação das fichas e diminuição do valor do RU, ampliação da frota do BUSUFBA, aumento de vagas na creche, aumento do valor das bolsas de assistência estudantil, entre outras). Através das ações nos cursos, da ação direta, da formação política e do trabalho de base, podemos  agitar, debater as pautas e pressionar a reitoria por respostas concretas, e num movimento crescente, impor a reversão dos cortes! Na própria marcha de Brasília, os estudantes da UFPR e da UFAL defenderam a tese de que não era o momento de nacionalizar a luta, mas de focar a atuação nos locais para mobilizar e potencializar a greve. Esse é o movimento que acreditamos ser o mais adequado para fazer com que a greve tenha força e que reverta os cortes que o governo fez.

Depois de um hiato de participação na militância da UFBA, nós, do Coletivo Contra Corrente, estamos retomando nossas ações, priorizando os locais de estudo e de trabalho. Entendemos que o processo de reorganização do movimento estudantil está em curso, gerando vários produtos que são importantes para as poucas lutas que estamos conseguindo fazer nos últimos tempos. O intuito é retomar e avançar no acúmulo histórico que temos e uma das conclusões necessárias de reafirmar é que  luta é a única forma de barrar e reverter os cortes! É com independência do governo, autonomia em relação a partidos e organizando a luta em cada local de estudo que enfrentaremos os ataques do Estado que, claramente, estão a serviço do capital e contra os trabalhadores e estudantes. É preciso avançar nas pautas, garantir uma mobilização permanente nos nossos locais, para não “partirmos do zero” em outros momentos de ascenso, como temos a impressão de estar fazendo sempre. É necessária Articulação Nacional? Sim, mas partindo de uma demanda real de todos (as) os (as) estudantes! Queremos nacionalizar a greve, mas estamos juntos daqueles e daquelas que fazem trabalho na base cotidianamente, e não em movimento de direções nem defesa do governo!