NÃO é de hoje que a esquerda brasileira aliada aos movimentos sindicais e populares coloca na ordem do dia a questão do petróleo brasileiro. A própria criação da Petrobras tem uma relação com um desses momentos históricos. Momento esse em que se entoavam palavras de ordem: “o petróleo é nosso”, “pela soberania nacional”, “fora ao imperialismo internacional”. Essas palavras de ordem comungavam com a perspectiva estratégica nacional democrática que a maioria dos setores da esquerda brasileira reivindicavam, afirmando a necessidade dos trabalhadores se aliarem a setores da burguesia para impulsionar as tarefas democráticas que não tinham sido concretizadas no Brasil. Eis que numa segunda-feira, 21 de outubro de 2013, os setores de esquerda aliados aos movimentos sindicais e populares voltam às ruas para tentar barrar o “leilão” do campo de libra, e mais uma vez, entoaram as ‘históricas’ palavras de ordem.

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Mais uma vez não houve qualquer possibilidade da correlação de forças pender para o lado dos trabalhadores. O governo do PT passou como um trator sobre os movimentos contra o leilão de Libra. Não conseguimos nem se quer atrasar a martelada final que ocorreu pontualmente tal como o governo anunciara. Com o auxilio do braço armado do Estado1, foi garantido que nenhum trabalhador pudesse atrapalhar a entrega do campo de Libra. Tal é a situação que o então tucano candidato a presidência, Aécio Neves, elogiou o governo, afirmando que o governo do PT reconheceu a importância do capital privado. Mais uma prova de que o governo do partido dos trabalhadores não governa para os trabalhadores; é um governo burguês como outro qualquer2. Em sua luta pela via institucional, centralizando suas energias nas eleições, o PT largou de lado os trabalhadores e se tornou aliado dos ‘antigos’ inimigos. Dessa forma, podemos concluir que o PT e sua base social3 não são mais de esquerda4.ft2

Presenciamos as organizações governistas entoarem as ‘históricas’ palavras de ordem. Cabe a nós entender, dentro da atual conjuntura, o que essas palavras de ordem significam hoje… Os governistas gritam: “Abaixo o leilão de Libra, o petróleo é nosso!”, “o petróleo é do povo!”, “Petrobras é do povo”.

Antes de mais nada, cabe o questionamento: A qual “povo” eles se referem? O povo que vive da exploração do trabalhador (os burgueses)? Ou o povo que vive explorado e oprimido (o trabalhador assalariado)? Tais palavras de ordem, por si só, não respondem a essa pergunta! Caso a intenção seja fazer relação com o povo trabalhador, cabe outro questionamento: Quer dizer que o petróleo que sai dos poços onde só a Petrobras explora pertence ao povo? Ou melhor, quer dizer que a Petrobras, uma empresa multinacional, que não explora somente as riquezas brasileiras, como também as riquezas de outros países, é uma empresa do trabalhador?

 Para começo de conversa, devemos entender que vivemos sobre o regime do capital, em uma sociedade dividida em classes sociais5 em que a extração de mais-valia e a propriedade privada6 são a pedra angular. Dessa maneira, os bens necessários para a vida humana são produzidos por pessoas (trabalhadores) que no final do processo produtivo não são nem de perto os donos desses bens. O petroleiro que tira do fundo da terra o petróleo, assim como o petroleiro que numa refinaria extrai do petróleo a gasolina, ambos devem gastar uma parte de seus salários para colocar gasolina no carro. Sendo assim, fica evidente que, com ou sem leilão7, o petróleo não é nosso, é da burguesia. Devemos entoar, então, “O petróleo tem que ser nosso!”

Outro equívoco é afirmar que a Petrobras é uma empresa estatal, portanto, do povo. Afirmar que a Petrobras é estatal podemos até aceitar, mas daí afirmar que é do povo é como dizer que o elefante e o cachorro são da mesma espécie por serem quadrúpedes.

Devemos nos lembrar de que na sociedade capitalista, os governos são escolhidos para melhor gerir os interesses do capital. Não há um exemplo sequer na história que exemplifique o inverso. Não há até hoje nenhum governo que foi eleito pelo voto que garantiu o rompimento com o capital. Há sim exemplos históricos que mostram que somente pela força e ação revolucionária do proletariado podemos superar8 a sociedade capitalista. Dessa maneira, uma empresa estatal9 é uma empresa capitalista que visa o lucro, a extração da mais-valia de seus trabalhadores, e que é gerida pelo governo burguês para atender aos interesses da grande burguesia. Isso é fácil de constatar no movimento sindical dos petroleiros. Caso a Petrobras fosse uma empresa do povo, seria necessário que os seus trabalhadores ano após ano continuassem na luta por melhores salários ou por melhores condições de vida, ou ainda contra possíveis forma de opressão dentro da empresa? Ou ainda se é do povo… por que os trabalhadores terceirizados não são integrados a empresa?

Esse discurso só fortalece a visão empresarial da Petrobras; a visão de que seus trabalhadores não são trabalhadores, são ‘acionistas’ da empresa. A visão de que a empresa é nossa, de que a riqueza por ela produzida é para o bem social. 

Pura bobagem!

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Ou alguém se engana de que a ureia produzida pelas fábricas de fertilizantes da Petrobras é para fertilizar o solo do agricultor familiar do sertão nordestino? Devemos entender que embora a Petrobras não tenha um dono explícito, ela é gerida para atender os interesses da grande burguesia, há de se ver pelo presidente dos acionistas privados, que é nada mais nada menos, que o senhor Gerdau, dono de um dos maiores complexos siderúrgicos do país. O nosso grito deveria ser “Devemos tomar a Petrobras dos empresários”, ou ainda, “A Petrobras não é nossa!”

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1 O exército, força nacional, marinha, aeronáutica, polícia militar, civil e federal; enfim todo o complexo civil-militar brasileiro.

2 Obviamente com suas especificidades de como gerir o Estado, e de como ludibriar os trabalhadores.

3 Com isso, estamos querendo inserir a CUT (Central Única dos Trabalhadores) a UNE (União Nacional dos Estudantes), o PCdoB (Partido comunista do Brasil), a CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil), a Consulta Popular; enfim todas as organizações que tem uma relação fisiológica com o governo.

4 De um modo geral, isso é verdade, entretanto nos pormenores ainda reconhecemos que há algumas poucas tendências dentro do PT que ainda se encontram à esquerda. Não é para essas tendências a nossa crítica, mas não há como negar que, ao mesmo tempo que estão tentando fazer críticas ao transformismo burguês do PT, legitimam a falsa noção de que ainda é democrático (por ter várias correntes) ou que ainda pode lutar pelos trabalhadores. Quando não reduzem sua atuação a ‘legitimação’ mentirosa, perdem-se nos marcos burocráticos do partido, tentando disputá-lo.

5 Em termos simples, temos de um lado a classe possuidora dos meios de produção, a burguesia, e do outro a classe que não possui nada a não sua força de trabalho, o proletariado. A burguesia compra a força de trabalho do proletariado e se utiliza dela de modo a produzir mais riquezas do que aquela gasta na sua compra.

6 Entendemos por propriedade privada, a propriedade dos meios de produção e subsistência da sociedade capitalista. Não se trata de questionar a necessidade do indivíduo possuir objetos necessários para sua vida, como a sua escova de dente. Trata-se de questionar a necessidade de um indivíduo possuir bens como uma fábrica, uma fazenda, um prédio.

7 A luta contra o leilão é estratégica para impedir que o petróleo seja entregue nas mãos do capital estrangeiro. Mas, de forma alguma, podemos nos enganar que o petróleo nas mãos do capital ‘nacional’ seja melhor.

8 Estamos nos referindo criticamente a revolução russa, precisamente aos momentos iniciais da revolução: a instituição dos sovietes, a universalização da educação, da arte e etc. Embora o que se sucedeu até o pós-Stalin não seja nem de longe uma referência do que seja o socialismo.

9 Obviamente há especificidades do jeito de tratar seus trabalhadores ou do jeito de investir seus recursos que difere uma empresa estatal de uma empresa privada. Mas, na essência, na relação Capital X Trabalho, não se diferenciam em nada.

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