Contribuição do Coletivo Outros Outubros Virão sobre a ocupação da Prefeitura de Rio Grande:

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Em várias partes do Brasil eclodiram manifestações[i] contra o preço abusivo das passagens dos ônibus e em Rio Grande não foi diferente. Transformado em mercadoria, o direito de ir e vir está cada dia mais caro. Sob essa ótica, a população Riograndina há anos sofre com o monopólio da empresa Noiva do Mar, são tarifas abusivas, ônibus lotados, horários e itinerários restritos. A Noiva do Mar é uma das 6 empresas do Grupo Benfica, que presta serviços em 15 cidades do Brasil, foi indicado pela Embaixada Brasileira em Moçambique para atuar no país durante a Copa do Mundo de 2010. O grupo arrecada aproximadamente 187 milhões[ii] somente contabilizando as passagens.

Assim, podemos ver a forma dicotômica  da sociedade capitalista: divida entre os detentores dos meios de produção, Burguesia do Grupo Benfica, por exemplo, e os trabalhadores, os quais vendem sua força de trabalho aos burgueses para tornar possível sua locomoção tanto para trabalharem, como para garantirem sua alimentação (ir ao mercado), sua saúde (ir ao hospital), seu estudos (ir à escola) entre tantas outras coisas.

A mobilização

Tendo em vista esse cenário da cidade, foi tirado em Assembleia Geral Estudantil da FURG, no dia 11/07, que haveria  a ocupação da prefeitura como modo de luta para assegurar as seguintes pautas: redução imediata da tarifa de ônibus, garantia da instalação da empresa pública para os transportes e posterior passe livre. O acesso  à  prefeitura foi negado aos 150 manifestantes, estudantes e  trabalhadores, fazendo-se  necessário que a porta fosse forçada para a entrada no prédio. O que se via lá dentro?  O prefeito Alexandre Lindenmeyer e os traços de sua política de cooptação do movimento, supostamente legitimando nossas pautas e assegurando a ocupação, colocando–se a todo o momento como se em luta junto aos manifestantes. Estava presente também, além dos estudantes, trabalhadores e suas pautas, nos cantos e portas, o braço armado do Estado, os policiais do Patrulha de Operações Especiais que se preocupavam em a todo momento intimidar os manifestantes, engatilhando suas armas calibre 12 e impondo seus cassetetes e escudos.

A quem de fato aquele discuso do prefeito beneficia? A quem aqueles escudos protegem? É naturalizado e ecoa pela sociedade a ideia do Estado como conciliador de interesses entre as classes. Em momentos de acirramentos como este, no entanto, fica exposto o real caráter do Estado e a quem ele beneficia. Em meio a gráficos, preços de tarifas e  discussões o que permaneceu irredutível e é por nós naturalizado? Tarifas sobem e descem (mais sobem que descem), no entanto, nos lucros das empresas nunca se mexe. Os lucros são intocáveis e não sofrem ameaças. Mas e o trabalhador? Paga cada dia mais caro por seu direito de ir e vir. Caso as tarifas aumentarem, trabalhe mais ou economize com outra coisa.  Se a luta tem  pautas legítimas, como mesmo disse o senhor prefeito, por que o Batalhão de Choque? É, o Estado não beneficia a imensa maioria da população, beneficia e protege a Noiva do Mar e outros detentores dos meios de produção!

O prefeito e o último ciclo de lutas

Pouco antes de colocar o batalhão para engatilhar as armas sobre os manifestantes, o Estado – na figura do prefeito do PT – expõe um discurso, conforme já foi dito, de cooptação. Diz que está do nosso lado, do lado dos estudantes e trabalhadores. Mas afinal, o que aconteceu com este partido que cunha nome tão importante, Partido dos Trabalhadores? Qual foi seu trajeto desde movimentos expressivos até este discurso de apaziguamento das massas? Cabe aqui remontarmos a estratégia do Partido dos Trabalhadores: o Projeto Democrático Popular o qual se estrutura, basicamente, em dois eixos. Em um eixo a mobilização das massas e no outro a ocupação do aparelho do Estado para modificá-lo por meio de Reformas até chegar em uma transformação estrutural da sociedade, o Socialismo. Na década de 1980, vimos o PT organizando as lutas dentro do próprio partido e por  meio de instrumentos como a CUT, UNE e o MST. Entretanto, ao longo dos anos, o eixo da disputa institucional foi ficando mais espesso, tornando-se prioridade, vimos reflexo disso em todos esses instrumentos. Os dirigente sindicais saíram de perto dos colegas de sua base para ocuparem cargos, tornando-se vereadores, deputados, prefeitos. Assim, as mobilizações de massa tornaram-se secundárias e os trabalhadores perdidos e desmobilizados. Em 2002, o PT ocupou a instância máxima institucional com o presidente Lula; naquele momento a luta já não era mais pelos trabalhadores, a burocracia não permitiu a concretização das Reformas prometidas, cumprindo somente as reformas exigidas pela burguesia (como as reformas da previdência e da educação), então o Estado mostrou aos trabalhadores, mais uma vez na história, seu caráter de indisputabilidade.

Durante a mobilização  esses aspectos ficaram bastante evidentes: A CUT gritando no carro de som para que os trabalhadores não aderissem à nossa mobilização e movimento de ocupação da prefeitura. E, uma vez na prefeitura, constatamos atuação do PT ao disputar por via institucional a redução da passagem e perder após embates legais, o que contribui para a análise de que o Estado, assim como sua via jurídica,  possui uma burocracia que o coloca a serviço da classe antagônica ao dos trabalhadores. Vivemos na pele o definhamento de um ciclo lutas, por isso mostra-se necessário repensar nossa estratégia de como lutar para transformar a sociedade.

E agora, o que fazer?

É necessário estudo e entendimento do último ciclo de lutas, para superarmos essa forma de organização das lutas dos trabalhadores. É com a movimentação junto a base, coletivamente, que se obtém ganhos. Em diversas cidades a pauta de reduções das passagens foi conquistadas devido a essas mobilizações, essa organização coletiva de estudantes e trabalhadores, colocando na parede os empresários e seu Estado. Neste momento, na nossa luta deve ser junto à base e junto aos trabalhadores e não por meio do Estado. Continuemos nos organizando, pois só a luta muda a vida!

Quando os trabalhadores perderem a paciência – (Mauro Iasi)

As pessoas comerão três vezes ao dia
E passearão de mãos dadas ao entardecer
A vida será livre e não a concorrência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Certas pessoas perderão seus cargos e empregos
O trabalho deixará de ser um meio de vida
As pessoas poderão fazer coisas de maior pertinência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

O mundo não terá fronteiras
Nem estados, nem militares para proteger estados
Nem estados para proteger militares prepotências
Quando os trabalhadores perderem a paciência

A pele será carícia e o corpo delícia
E os namorados farão amor não mercantil
Enquanto é a fome que vai virar indecência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Quando os trabalhadores perderem a paciência
Não terá governo nem direito sem justiça
Nem juizes, nem doutores em sapiência
Nem padres, nem excelências

Uma fruta será fruta, sem valor e sem troca
Sem que o humano se oculte na aparência
A necessidade e o desejo serão o termo de equivalência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Quando os trabalhadores perderem a paciência
Depois de dez anos sem uso, por pura obscelescência
A filósofa-faxineira passando pelo palácio dirá:
“declaro vaga a presidência”!

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[i] http://outrosoutubrosvirao.wordpress.com/?s=mitos+gigante

[ii]http://www.benficabbtt.com.br/views/upload/Informativo_Set_2008_2.pdfvalor estimado pela multiplicação do preço da passagem de 2,60 pelo nº de passageiros transportados mensalmente multiplicado pelo número de meses do ano (x 12)

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