As três últimas semanas não passaram desapercebidas no calendário nacional. Desde a terça-feira (11) – marcada pela truculência da polícia paulistana em cima dos mais de 5 mil manifestantes que foram às ruas pedir a redução da tarifa do transporte, além do apoio da mídia à repressão e manutenção desta dois dia depois (13) agora em 20 mil manifestantes – uma onda nacional de manifestações tem ocupado grande parte dos centros urbanos e sido comentadas nos noticiários oficiais e nas redes sociais, ora com críticas incisivas ora com aclamações. A pauta inicial? A redução da tarifa do transporte público que, seguindo a regra clássica de mais lucro ad infinitum nas mãos dos empresários, aumentou em várias cidades, em média, 0,20 centavos. Que não era apenas pelos 0,20 centavos, os manifestantes deixaram claro desde o primeiro momento. O debate mais amplosobre mobilidade urbana, animado pelo Movimento pelo Passe Livre (MPL) em alguns lugares e por Frentes Contra o Aumento da Passagem em outros, envolve desde financiamento dos serviços públicos até planilha de gastos e prioridades, passando ainda pelo papel que o Estado deve cumprir diante de demandas como moradia, saúde, educação e, claro, transporte público.Manifestação aumento onibus1-GABRIELA BILÓ-FUTURA PRESS

As manifestações em São Paulo e Rio de Janeiro fortemente reprimidas, foram o fato político que serviu como mote para a deflagração de protestos que ocorreram a nível nacional acerca da problemática das altas tarifas do transporte público. O aumento das passagens dificultou a vida de vários estudantes e trabalhadores que sim, sentiram a dificuldade de pagar vinte centavos, mas muito mais que isso, cansaram das imposições da burguesia em sua ânsia por lucro. Em Fortaleza, Feira de Santana, Salvador, São Paulo, Porto Alegre, Curitiba e outras cidades, acompanhamos e construímos a luta contra o aumento das passagens, bem como outras revindicações que levaram a população às ruas. Entre elas, com uma grande expressão, os impactos da copa no Brasil, como os despejos e os investimentos públicos em locais que não são prioritários para a população, como em saúde e educação.

E a violência nas manifestações?

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Ouvimos bastante sobre a tal violência das manifestações. Essa palavra que nos remete quase diretamente a roubos, assassinatos, tráfico de drogas (que se passam majoritariamente na periferia das cidades grandes devido à desigualdade social gerada pelo capitalismo) deve ser mais bem compreendida, diferenciando o que chamamos nós de violência, e o que os aparelhos da classe dominante (como a mídia) chamam de violência.

O que seria matar 1 bilhão de pessoas por falta de alimentos e 25 milhões por se alimentarem de comida ruim enquanto a humanidade já produz o suficiente para alimentar 12 bilhões de pessoas, senão uma forma extrema de violência?  Trabalhadores são violentados cotidianamente para gerarem lucro aos seus patrões todos os dias. Essa, a violência, é necessária para que os exploradores dominem os explorados. Mesmo a república burguesa mais democrática é um grande instrumento dos dominantes sobre os dominados, que ora se apresenta aparentemente de forma mais consensual, mas também atua repressivamente quando necessário.

Ficou claro nas últimas semanas como o Estado continua desempenhando seu caráter classista, exercendo todo o seu poder para garantir os interesses de quem de fato manda no país, a burguesia. Ficou claro também que seu papel não é a neutralidade entre as classes, fazer a simples “mediação” entre elas,  mas que seu caráter já é por si só repressor e dominante. Não faz diferença significativa quem está sentado na cadeira da presidência ou em seus outros níveis burocráticos, a ordem geral é “manter a ordem”.

Assim, vimos que o Estado tem utilizado todos seus aparatos – militares e ideológicos – para usar o cenário de protestos a seu favor e, quando necessário, reprime brutalmente a população, principalmente nas manifestações em cidades onde ocorrem jogos da Copa das Confederações. No último dia 20 de Junho, quando mais de um milhão de pessoas fizeram a manifestação no Rio de Janeiro, foram reprimidos pela tropa de choque em meio a uma avenida às escuras, com as luzes dos postes apagados. Isso mostra como o aparelho repressor (a tropa de choque) estava em sintonia com o governo e com a iniciativa privada (na figura da Light, companhia elétrica do Rio). Isto sim é uma enorme violência!

 

“Movimento sem organização”? Pra quem serve a ‘neutralidade’ do movimento…

Se é verdade que há anos não víamos tanta gente nas ruas do país nem tamanha multiplicidade de pautas que vão, atualmente, desde “Fora Corrupção” a posições contrárias aos investimentos exorbitantes para a Copa do Mundo de 2014 feito pelo governo federal, é verdade também que a sensação que nos chega junto com a onda de mobilizações é a de um terrível soco no estômago. Na medida em que avançava em número, criou corpo e voz dentro das manifestações gritos de ordem do tipo “Fora Partidos” ou “O povo unido governa sem partido”, chegando, inclusive a ocorrer agressões físicas à militantes que insistiam em levantar suas bandeiras. Alegando-se via redes sociais se tratar de um movimento “apartidário” e na perspectiva de “evitar oportunismos”, o movimento ganha máscaras, perde o colorido e paulatinamente fica marcado por uma onda verde e amarela que, ao som do hino nacional, rechaça, renega e rasga qualquer bandeira em tom vermelho. A esquerda aturdida, confusa e muito pouco preparada de modo geral, se colocou a resistir da forma que pôde. Mas é preciso compreender, antes de tudo, que isso tem uma razão de ser.

Muito dizemos sobre o ciclo de lutas do qual o PT foi protagonista e que marca na classe trabalhadora a apatia, a falta de envolvimento político, a passividade, entre outros. O conteúdo dessa forma é também construído socialmente nesses últimos anos e expressa a ideologia burguesa de diversas formas. Vemos hoje nas manifestações tentativas sinceras de mudança  de “algo que está errado” e na aparência disso, acaba-se chegando também a pautas que aparentemente mudam as coisas, mas na verdade acabam mantendo a sociedade exatamente como está.  Assim, percebemos uma onda conservadora – já que não questiona mudanças radicais – que está parasitando as mobilizações. Ainda, vemos uma pequena burguesia pautando as mobilizações para seus objetivos políticos que se apresentam de forma caótica, mas no plano de fundo é o mesmo: a necessidade de um lugar no Estado burguês.

Dito isso, nesse interim da criminalização das movimentações através de uma onda de pacifismo que cercam as mobilizações, o Estado democrático e popular utiliza-se de diversas formas para criminalizar os movimentos e organizações de esquerda. Exemplo disso, é a grande mídia: primeiramente criminaliza as manifestações, afirmando os protestos contra o aumento das tarifas e à copa como violentos; já num segundo momento, se coloca como apoiadora das movimentações, enfatizando que a grande maioria quer uma manifestação pacífica e quem está causando toda violência são os vândalos (muitos deles policiais infiltrados): afirma assim, que a culpa  da violência é sempre de um “pequeno grupo de arruaceiros” e que o movimento em si é importante, é o “gigante acordando”.

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A luta histórica de quem nunca dormiu

Por mais que exista o discurso de que o “gigante acordou”, há aqueles que há tempo estão acordados, na luta pelo direito e emancipação dos trabalhadores. Os movimentos de esquerda, mesmo com toda repressão e políticas de cooptação da direita, não se retiram da luta. Lutamos! Seja por pautas econômicas e imediatas – necessárias e fundamentais na luta de classes -, seja pelo horizonte histórico em defesa da nossa classe. Em momentos de repressão, como no governo Vargas e ditadura militar, os movimentos de esquerda não negaram suas bandeiras. Sabemos que não foi de uma hora para outra que conseguimos o direito de livre organização politica!

Sabemos que não foi de uma hora para outra que conseguimos o direito de livre organização politica. A história nos mostra que a bandeira vermelha é um símbolo mais que necessário e que expressa essa luta dos que sempre se mantiveram acordados. O vermelho é a cor da bandeira francesa pintada com o sangue dos trabalhadores que foram brutalmente atacados pela burguesia, quando esta assumia o poder na revolução do século XIX. As bandeiras representam o movimento de luta da classe trabalhadora e, por isso, não podemos jamais baixá-las!

Existem indivíduos que constroem suas organizações há muito tempo, que entendem que a mudança da sociedade passa, necessariamente, por militantes organizados que pensam e agem todos os dias na destruição desta sociedade e na construção de uma nova. Não descartamos a existência de partidos que irão tentar tomar proveito da situação para agitar suas bandeiras eleitoreiras, que só buscam a autoconstrução de indivíduos pontuais (e não da sociedade), estes são os oportunistas. Mas não difamemos aqueles que estão ali como companheiros, vamos buscar entendê-los e perceber que não estão nas manifestações para tirar proveito no momento oportuno das eleições burguesas, os revolucionários organizados não acreditam na democracia burguesa, a utilizam (ou não), como uma ferramenta para construção de um projeto muito maior, o Socialismo.

Aos que hoje acordam precisamos esclarecer tudo que ocorreu e que viemos fazendo ao longo desse tempo de sono tão profundo. A luta contra a ditadura nos anos 70, as greves de diversas categorias na década de 80, a luta contra as privatizações da década de 90 e diversas outras, trouxeram conquistas históricas para a classe trabalhadora. Em 2012, houve a maior greve de todos os tempos das Universidades Federais e de inúmeras categorias do Serviço Público Federal. O próprio MPL, que iniciou os atos contra o aumento da tarifa, já existe há oito anos e nesse período sempre se colocou em luta, mesmo com tantos outros adormecidos.

Afinal, a qualidade de questões como Transporte, Saúde e Educação é fundamental para que possamos viver com mínimas condições. As lutas travadas ao longo da história pela conquista dessas direitos para os trabalhadores mostra que se ficarmos parados, cada vez  teremos menos.

Toda essa mobilização coloca em evidência contradições do próprio capitalismo: com ele desenvolvemos inúmeras tecnologias a fim de plantar, vestir, transportar mais e melhor, entretanto, em nome do lucro da burguesia, só temos acesso a essas e outras produções sociais da humanidade a custos muito altos, e assim somos impedidos de ter qualidade em aspectos fundamentais de nossas vidas! Há precarização e destruição dos serviços públicos, ao mesmo tempo em que há priorização de investimentos em empresas privadas. Há, porém, passividade transformando-se em atividade. Quem está nas ruas hoje, está aprendendo na prática da vida que não se mexer não significa apenas ficar no mesmo lugar, mas perder cada vez mais. Ir pra rua, reivindicar melhorias, questionar o que está colocado é um importante aprendizado para todos nós! Ainda  temos muito a avançar, mas, sem dúvidas, esse processo mostra a necessidade de organização da esquerda e de mobilização da população em geral. Aquilo que tanto afirmamos vem ficando mais palpável: só a luta muda a vida! É em movimento e de forma organizada que conseguimos conquistas reais, com passos firmes rumo a superação dessa sociedade!

Articulação Nacional

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