julho 2013


Há exatos nove anos, acontecia uma ocupação na reitoria da Universidade Federal da Bahia. A pauta era local e, sobretudo, nacional: contra a Reforma Universitária, em defesa de uma universidade pública, gratuita e de qualidade, e da ampliação do direito à educação a toda a sociedade, sem qualquer tipo de exclusão. Nessa reivindicação constava intrinsecamente a luta pela revitalização da universidade e pelo seu não sucateamento, decorrido para justificar privatizações; luta para que os estudantes pudessem ter refeições a preços acessíveis em restaurantes universitários; luta para que se tivesse mais professores efetivos e mais vagas; luta para que o plano de segurança da UFBA fosse efetivamente implementado pelo Reitor (na oportunidade Naomar Almeida); luta pela abertura a todos, ampliação e melhoria das nossas bibliotecas e a luta para que a educação continuasse a ser um direito assegurado a todos e não se tornasse um serviço, como pretendeu essa Reforma Universitária em curso na época.

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Cabe ressaltar que tal mobilização ganhou corpo a partir de manifestações anteriores realizadas pelos residentes e bolsistas de assistência estudantil, assim como na ocupação do prédio da Farmácia-escola, que durou metade do ano de 2006 e teve como motivo principal a incoerência entre o aumento da demanda por mais vagas em residências (assim como em creches, restaurantes, bibliotecas, etc) e a inércia e a insensibilidade do reitorado de Naomar para com o expressivo número de estudantes de todo o interior (e de outros estados) que são atraídos todos os anos para a UFBA, já que estamos no 5º estado mais populoso e um dos menos servidos por universidades públicas do país; e também em 2007, detonada pelas péssimas condições das instalações do então restaurante universitário do corredor da vitória que causaram, inclusive, um perigoso vazamento de gás e fizeram residentes e bolsistas alavancarem a ocupação da reitoria naquele ano para denunciar estes descasos e exigir respostas concretas em detrimento das constantes burocratizações que demonstraram que a via institucional não era suficiente, deixando claro que não estávamos tratando de um problema pontual e casual, mas de um problema estrutural na concepção de universidade que está posta e outra que necessitamos. Ambas as lutas foram fundamentais, por exemplo, para a conquista da única residência universitária da história da UFBA que foi projetada para tal finalidade, entregue ano passado. Hoje tais estudantes se veem novamente obrigados a lutar por avanços nos benefícios oriundos dessa (falta de) assistência – que são o mínimo de condições para sobreviver dentro da universidade –, que não atendem à comunidade como deveria. Como vemos, os problemas com a Assistência Estudantil na UFBA afetam cotidianamente a quem mais precisa dela.

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Como foi percebido em 2004 e também agora em 2013, a tentativa de se institucionalizar as pautas foi fracassada. Burocracias que são postas para obstaculizar tais reivindicações (CONSEPE, CONSUNI, reuniões fechadas com a reitoria etc.) mostraram-se mais uma vez ineficazes. As vias institucionais se esbarram continuamente em seus limites: atravancos e mais atravancos para se resolver fatos simples, porém que mexem na divisão financeira da autarquia, e por isso são tão silenciados e omitidos. A Magnífica Reitora, muito bem servida e alicerçada pelo atual DCE estático, faz vistas grossas e finge que nada está acontecendo, negligenciando o que vem se passando na Universidade Federal da Bahia nessa década de lutas, espelhando como o governo federal enxerga a universidade pública atualmente. Não quer dizer, contudo, que negamos absolutamente a via institucional, porém alertamos que levar o processo unicamente por essa via conduz todo o movimento à falência. É importante perceber que a ocupação do CPD já é uma forma de luta que mostra por onde podemos alcançar o que pautamos!

O atual movimento não deve mais esperar por soluções que virão de cima para baixo somente. Avaliamos que a política de Assistência Estudantil na UFBA é debilitada, porque vivemos numa sociedade desigual e assim o é também na universidade. Portanto, o Coletivo Contra Corrente apoia a luta dos residentes e bolsistas de Assistência Estudantil, afirmando que é instante, sim, de radicalização! Infelizmente está mais do que nítido que as instâncias burocráticas da UFBA não sabem atuar senão pela força de uma ocupação ou organização sólida de seus estudantes. Estaremos ajudando na construção do processo organizativo para conquistarmos incialmente as pautas aqui colocadas – referentes a melhorias na alimentação, transporte, hospedagem etc., todos com suas especificidades e desdobramentos – e depois o marasmo da política arcaica em nossa universidade.

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Contribuição do Coletivo Outros Outubros Virão sobre a ocupação da Prefeitura de Rio Grande:

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Em várias partes do Brasil eclodiram manifestações[i] contra o preço abusivo das passagens dos ônibus e em Rio Grande não foi diferente. Transformado em mercadoria, o direito de ir e vir está cada dia mais caro. Sob essa ótica, a população Riograndina há anos sofre com o monopólio da empresa Noiva do Mar, são tarifas abusivas, ônibus lotados, horários e itinerários restritos. A Noiva do Mar é uma das 6 empresas do Grupo Benfica, que presta serviços em 15 cidades do Brasil, foi indicado pela Embaixada Brasileira em Moçambique para atuar no país durante a Copa do Mundo de 2010. O grupo arrecada aproximadamente 187 milhões[ii] somente contabilizando as passagens.

Assim, podemos ver a forma dicotômica  da sociedade capitalista: divida entre os detentores dos meios de produção, Burguesia do Grupo Benfica, por exemplo, e os trabalhadores, os quais vendem sua força de trabalho aos burgueses para tornar possível sua locomoção tanto para trabalharem, como para garantirem sua alimentação (ir ao mercado), sua saúde (ir ao hospital), seu estudos (ir à escola) entre tantas outras coisas.

A mobilização

Tendo em vista esse cenário da cidade, foi tirado em Assembleia Geral Estudantil da FURG, no dia 11/07, que haveria  a ocupação da prefeitura como modo de luta para assegurar as seguintes pautas: redução imediata da tarifa de ônibus, garantia da instalação da empresa pública para os transportes e posterior passe livre. O acesso  à  prefeitura foi negado aos 150 manifestantes, estudantes e  trabalhadores, fazendo-se  necessário que a porta fosse forçada para a entrada no prédio. O que se via lá dentro?  O prefeito Alexandre Lindenmeyer e os traços de sua política de cooptação do movimento, supostamente legitimando nossas pautas e assegurando a ocupação, colocando–se a todo o momento como se em luta junto aos manifestantes. Estava presente também, além dos estudantes, trabalhadores e suas pautas, nos cantos e portas, o braço armado do Estado, os policiais do Patrulha de Operações Especiais que se preocupavam em a todo momento intimidar os manifestantes, engatilhando suas armas calibre 12 e impondo seus cassetetes e escudos.

A quem de fato aquele discuso do prefeito beneficia? A quem aqueles escudos protegem? É naturalizado e ecoa pela sociedade a ideia do Estado como conciliador de interesses entre as classes. Em momentos de acirramentos como este, no entanto, fica exposto o real caráter do Estado e a quem ele beneficia. Em meio a gráficos, preços de tarifas e  discussões o que permaneceu irredutível e é por nós naturalizado? Tarifas sobem e descem (mais sobem que descem), no entanto, nos lucros das empresas nunca se mexe. Os lucros são intocáveis e não sofrem ameaças. Mas e o trabalhador? Paga cada dia mais caro por seu direito de ir e vir. Caso as tarifas aumentarem, trabalhe mais ou economize com outra coisa.  Se a luta tem  pautas legítimas, como mesmo disse o senhor prefeito, por que o Batalhão de Choque? É, o Estado não beneficia a imensa maioria da população, beneficia e protege a Noiva do Mar e outros detentores dos meios de produção!

O prefeito e o último ciclo de lutas

Pouco antes de colocar o batalhão para engatilhar as armas sobre os manifestantes, o Estado – na figura do prefeito do PT – expõe um discurso, conforme já foi dito, de cooptação. Diz que está do nosso lado, do lado dos estudantes e trabalhadores. Mas afinal, o que aconteceu com este partido que cunha nome tão importante, Partido dos Trabalhadores? Qual foi seu trajeto desde movimentos expressivos até este discurso de apaziguamento das massas? Cabe aqui remontarmos a estratégia do Partido dos Trabalhadores: o Projeto Democrático Popular o qual se estrutura, basicamente, em dois eixos. Em um eixo a mobilização das massas e no outro a ocupação do aparelho do Estado para modificá-lo por meio de Reformas até chegar em uma transformação estrutural da sociedade, o Socialismo. Na década de 1980, vimos o PT organizando as lutas dentro do próprio partido e por  meio de instrumentos como a CUT, UNE e o MST. Entretanto, ao longo dos anos, o eixo da disputa institucional foi ficando mais espesso, tornando-se prioridade, vimos reflexo disso em todos esses instrumentos. Os dirigente sindicais saíram de perto dos colegas de sua base para ocuparem cargos, tornando-se vereadores, deputados, prefeitos. Assim, as mobilizações de massa tornaram-se secundárias e os trabalhadores perdidos e desmobilizados. Em 2002, o PT ocupou a instância máxima institucional com o presidente Lula; naquele momento a luta já não era mais pelos trabalhadores, a burocracia não permitiu a concretização das Reformas prometidas, cumprindo somente as reformas exigidas pela burguesia (como as reformas da previdência e da educação), então o Estado mostrou aos trabalhadores, mais uma vez na história, seu caráter de indisputabilidade.

Durante a mobilização  esses aspectos ficaram bastante evidentes: A CUT gritando no carro de som para que os trabalhadores não aderissem à nossa mobilização e movimento de ocupação da prefeitura. E, uma vez na prefeitura, constatamos atuação do PT ao disputar por via institucional a redução da passagem e perder após embates legais, o que contribui para a análise de que o Estado, assim como sua via jurídica,  possui uma burocracia que o coloca a serviço da classe antagônica ao dos trabalhadores. Vivemos na pele o definhamento de um ciclo lutas, por isso mostra-se necessário repensar nossa estratégia de como lutar para transformar a sociedade.

E agora, o que fazer?

É necessário estudo e entendimento do último ciclo de lutas, para superarmos essa forma de organização das lutas dos trabalhadores. É com a movimentação junto a base, coletivamente, que se obtém ganhos. Em diversas cidades a pauta de reduções das passagens foi conquistadas devido a essas mobilizações, essa organização coletiva de estudantes e trabalhadores, colocando na parede os empresários e seu Estado. Neste momento, na nossa luta deve ser junto à base e junto aos trabalhadores e não por meio do Estado. Continuemos nos organizando, pois só a luta muda a vida!

Quando os trabalhadores perderem a paciência – (Mauro Iasi)

As pessoas comerão três vezes ao dia
E passearão de mãos dadas ao entardecer
A vida será livre e não a concorrência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Certas pessoas perderão seus cargos e empregos
O trabalho deixará de ser um meio de vida
As pessoas poderão fazer coisas de maior pertinência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

O mundo não terá fronteiras
Nem estados, nem militares para proteger estados
Nem estados para proteger militares prepotências
Quando os trabalhadores perderem a paciência

A pele será carícia e o corpo delícia
E os namorados farão amor não mercantil
Enquanto é a fome que vai virar indecência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Quando os trabalhadores perderem a paciência
Não terá governo nem direito sem justiça
Nem juizes, nem doutores em sapiência
Nem padres, nem excelências

Uma fruta será fruta, sem valor e sem troca
Sem que o humano se oculte na aparência
A necessidade e o desejo serão o termo de equivalência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Quando os trabalhadores perderem a paciência
Depois de dez anos sem uso, por pura obscelescência
A filósofa-faxineira passando pelo palácio dirá:
“declaro vaga a presidência”!

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[i] http://outrosoutubrosvirao.wordpress.com/?s=mitos+gigante

[ii]http://www.benficabbtt.com.br/views/upload/Informativo_Set_2008_2.pdfvalor estimado pela multiplicação do preço da passagem de 2,60 pelo nº de passageiros transportados mensalmente multiplicado pelo número de meses do ano (x 12)

As três últimas semanas não passaram desapercebidas no calendário nacional. Desde a terça-feira (11) – marcada pela truculência da polícia paulistana em cima dos mais de 5 mil manifestantes que foram às ruas pedir a redução da tarifa do transporte, além do apoio da mídia à repressão e manutenção desta dois dia depois (13) agora em 20 mil manifestantes – uma onda nacional de manifestações tem ocupado grande parte dos centros urbanos e sido comentadas nos noticiários oficiais e nas redes sociais, ora com críticas incisivas ora com aclamações. A pauta inicial? A redução da tarifa do transporte público que, seguindo a regra clássica de mais lucro ad infinitum nas mãos dos empresários, aumentou em várias cidades, em média, 0,20 centavos. Que não era apenas pelos 0,20 centavos, os manifestantes deixaram claro desde o primeiro momento. O debate mais amplosobre mobilidade urbana, animado pelo Movimento pelo Passe Livre (MPL) em alguns lugares e por Frentes Contra o Aumento da Passagem em outros, envolve desde financiamento dos serviços públicos até planilha de gastos e prioridades, passando ainda pelo papel que o Estado deve cumprir diante de demandas como moradia, saúde, educação e, claro, transporte público.Manifestação aumento onibus1-GABRIELA BILÓ-FUTURA PRESS

As manifestações em São Paulo e Rio de Janeiro fortemente reprimidas, foram o fato político que serviu como mote para a deflagração de protestos que ocorreram a nível nacional acerca da problemática das altas tarifas do transporte público. O aumento das passagens dificultou a vida de vários estudantes e trabalhadores que sim, sentiram a dificuldade de pagar vinte centavos, mas muito mais que isso, cansaram das imposições da burguesia em sua ânsia por lucro. Em Fortaleza, Feira de Santana, Salvador, São Paulo, Porto Alegre, Curitiba e outras cidades, acompanhamos e construímos a luta contra o aumento das passagens, bem como outras revindicações que levaram a população às ruas. Entre elas, com uma grande expressão, os impactos da copa no Brasil, como os despejos e os investimentos públicos em locais que não são prioritários para a população, como em saúde e educação.

E a violência nas manifestações?

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Ouvimos bastante sobre a tal violência das manifestações. Essa palavra que nos remete quase diretamente a roubos, assassinatos, tráfico de drogas (que se passam majoritariamente na periferia das cidades grandes devido à desigualdade social gerada pelo capitalismo) deve ser mais bem compreendida, diferenciando o que chamamos nós de violência, e o que os aparelhos da classe dominante (como a mídia) chamam de violência.

O que seria matar 1 bilhão de pessoas por falta de alimentos e 25 milhões por se alimentarem de comida ruim enquanto a humanidade já produz o suficiente para alimentar 12 bilhões de pessoas, senão uma forma extrema de violência?  Trabalhadores são violentados cotidianamente para gerarem lucro aos seus patrões todos os dias. Essa, a violência, é necessária para que os exploradores dominem os explorados. Mesmo a república burguesa mais democrática é um grande instrumento dos dominantes sobre os dominados, que ora se apresenta aparentemente de forma mais consensual, mas também atua repressivamente quando necessário.

Ficou claro nas últimas semanas como o Estado continua desempenhando seu caráter classista, exercendo todo o seu poder para garantir os interesses de quem de fato manda no país, a burguesia. Ficou claro também que seu papel não é a neutralidade entre as classes, fazer a simples “mediação” entre elas,  mas que seu caráter já é por si só repressor e dominante. Não faz diferença significativa quem está sentado na cadeira da presidência ou em seus outros níveis burocráticos, a ordem geral é “manter a ordem”.

Assim, vimos que o Estado tem utilizado todos seus aparatos – militares e ideológicos – para usar o cenário de protestos a seu favor e, quando necessário, reprime brutalmente a população, principalmente nas manifestações em cidades onde ocorrem jogos da Copa das Confederações. No último dia 20 de Junho, quando mais de um milhão de pessoas fizeram a manifestação no Rio de Janeiro, foram reprimidos pela tropa de choque em meio a uma avenida às escuras, com as luzes dos postes apagados. Isso mostra como o aparelho repressor (a tropa de choque) estava em sintonia com o governo e com a iniciativa privada (na figura da Light, companhia elétrica do Rio). Isto sim é uma enorme violência!

 

“Movimento sem organização”? Pra quem serve a ‘neutralidade’ do movimento…

Se é verdade que há anos não víamos tanta gente nas ruas do país nem tamanha multiplicidade de pautas que vão, atualmente, desde “Fora Corrupção” a posições contrárias aos investimentos exorbitantes para a Copa do Mundo de 2014 feito pelo governo federal, é verdade também que a sensação que nos chega junto com a onda de mobilizações é a de um terrível soco no estômago. Na medida em que avançava em número, criou corpo e voz dentro das manifestações gritos de ordem do tipo “Fora Partidos” ou “O povo unido governa sem partido”, chegando, inclusive a ocorrer agressões físicas à militantes que insistiam em levantar suas bandeiras. Alegando-se via redes sociais se tratar de um movimento “apartidário” e na perspectiva de “evitar oportunismos”, o movimento ganha máscaras, perde o colorido e paulatinamente fica marcado por uma onda verde e amarela que, ao som do hino nacional, rechaça, renega e rasga qualquer bandeira em tom vermelho. A esquerda aturdida, confusa e muito pouco preparada de modo geral, se colocou a resistir da forma que pôde. Mas é preciso compreender, antes de tudo, que isso tem uma razão de ser.

Muito dizemos sobre o ciclo de lutas do qual o PT foi protagonista e que marca na classe trabalhadora a apatia, a falta de envolvimento político, a passividade, entre outros. O conteúdo dessa forma é também construído socialmente nesses últimos anos e expressa a ideologia burguesa de diversas formas. Vemos hoje nas manifestações tentativas sinceras de mudança  de “algo que está errado” e na aparência disso, acaba-se chegando também a pautas que aparentemente mudam as coisas, mas na verdade acabam mantendo a sociedade exatamente como está.  Assim, percebemos uma onda conservadora – já que não questiona mudanças radicais – que está parasitando as mobilizações. Ainda, vemos uma pequena burguesia pautando as mobilizações para seus objetivos políticos que se apresentam de forma caótica, mas no plano de fundo é o mesmo: a necessidade de um lugar no Estado burguês.

Dito isso, nesse interim da criminalização das movimentações através de uma onda de pacifismo que cercam as mobilizações, o Estado democrático e popular utiliza-se de diversas formas para criminalizar os movimentos e organizações de esquerda. Exemplo disso, é a grande mídia: primeiramente criminaliza as manifestações, afirmando os protestos contra o aumento das tarifas e à copa como violentos; já num segundo momento, se coloca como apoiadora das movimentações, enfatizando que a grande maioria quer uma manifestação pacífica e quem está causando toda violência são os vândalos (muitos deles policiais infiltrados): afirma assim, que a culpa  da violência é sempre de um “pequeno grupo de arruaceiros” e que o movimento em si é importante, é o “gigante acordando”.

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A luta histórica de quem nunca dormiu

Por mais que exista o discurso de que o “gigante acordou”, há aqueles que há tempo estão acordados, na luta pelo direito e emancipação dos trabalhadores. Os movimentos de esquerda, mesmo com toda repressão e políticas de cooptação da direita, não se retiram da luta. Lutamos! Seja por pautas econômicas e imediatas – necessárias e fundamentais na luta de classes -, seja pelo horizonte histórico em defesa da nossa classe. Em momentos de repressão, como no governo Vargas e ditadura militar, os movimentos de esquerda não negaram suas bandeiras. Sabemos que não foi de uma hora para outra que conseguimos o direito de livre organização politica!

Sabemos que não foi de uma hora para outra que conseguimos o direito de livre organização politica. A história nos mostra que a bandeira vermelha é um símbolo mais que necessário e que expressa essa luta dos que sempre se mantiveram acordados. O vermelho é a cor da bandeira francesa pintada com o sangue dos trabalhadores que foram brutalmente atacados pela burguesia, quando esta assumia o poder na revolução do século XIX. As bandeiras representam o movimento de luta da classe trabalhadora e, por isso, não podemos jamais baixá-las!

Existem indivíduos que constroem suas organizações há muito tempo, que entendem que a mudança da sociedade passa, necessariamente, por militantes organizados que pensam e agem todos os dias na destruição desta sociedade e na construção de uma nova. Não descartamos a existência de partidos que irão tentar tomar proveito da situação para agitar suas bandeiras eleitoreiras, que só buscam a autoconstrução de indivíduos pontuais (e não da sociedade), estes são os oportunistas. Mas não difamemos aqueles que estão ali como companheiros, vamos buscar entendê-los e perceber que não estão nas manifestações para tirar proveito no momento oportuno das eleições burguesas, os revolucionários organizados não acreditam na democracia burguesa, a utilizam (ou não), como uma ferramenta para construção de um projeto muito maior, o Socialismo.

Aos que hoje acordam precisamos esclarecer tudo que ocorreu e que viemos fazendo ao longo desse tempo de sono tão profundo. A luta contra a ditadura nos anos 70, as greves de diversas categorias na década de 80, a luta contra as privatizações da década de 90 e diversas outras, trouxeram conquistas históricas para a classe trabalhadora. Em 2012, houve a maior greve de todos os tempos das Universidades Federais e de inúmeras categorias do Serviço Público Federal. O próprio MPL, que iniciou os atos contra o aumento da tarifa, já existe há oito anos e nesse período sempre se colocou em luta, mesmo com tantos outros adormecidos.

Afinal, a qualidade de questões como Transporte, Saúde e Educação é fundamental para que possamos viver com mínimas condições. As lutas travadas ao longo da história pela conquista dessas direitos para os trabalhadores mostra que se ficarmos parados, cada vez  teremos menos.

Toda essa mobilização coloca em evidência contradições do próprio capitalismo: com ele desenvolvemos inúmeras tecnologias a fim de plantar, vestir, transportar mais e melhor, entretanto, em nome do lucro da burguesia, só temos acesso a essas e outras produções sociais da humanidade a custos muito altos, e assim somos impedidos de ter qualidade em aspectos fundamentais de nossas vidas! Há precarização e destruição dos serviços públicos, ao mesmo tempo em que há priorização de investimentos em empresas privadas. Há, porém, passividade transformando-se em atividade. Quem está nas ruas hoje, está aprendendo na prática da vida que não se mexer não significa apenas ficar no mesmo lugar, mas perder cada vez mais. Ir pra rua, reivindicar melhorias, questionar o que está colocado é um importante aprendizado para todos nós! Ainda  temos muito a avançar, mas, sem dúvidas, esse processo mostra a necessidade de organização da esquerda e de mobilização da população em geral. Aquilo que tanto afirmamos vem ficando mais palpável: só a luta muda a vida! É em movimento e de forma organizada que conseguimos conquistas reais, com passos firmes rumo a superação dessa sociedade!

Articulação Nacional

HISTÓRICO
A Articulação Nacional (AN) começa a apresentar seu esboço no final de 2011, resultado da relação entre alguns coletivos do Movimento Estudantil: Além do Mito, Contra Corrente, Lutar e Construir, Outros Outubros Virão e um grupo de estudantes do Ceará – hoje, Resistência Socialista.
A demanda dessa articulação vem da análise de que esses coletivos teriam muito a contribuir uns com os outros com o intuito de potencializar a atuação e intervenção na realidade, além de socializar a formação teórica acumulada por cada coletivo.
A partir dessa relação, já tivemos alguns frutos importantes. Durante a greve nacional que ocorreu em 2012, lançamos duas edições do Além do Que se Vê, um jornal produzido pelos coletivos que compunham a AN. Esses jornais trazem nossa análise sobre a movimentação, bem como outros debates que fundamentam nossa ação. Além disso, em março de 2013, realizamos um Seminário presencial, para afinar alguns debates e sistematizar nossos acúmulos. A partir desse seminário, foi produzido o presente documento, que visa tornar pública a AN, bem como explicar o que nos une. Devemos salientar que aqui apresentamos sínteses sucintas de nossas concepções, que não devem dar conta de explicar a fundo cada um dos temas.

O QUE É A ARTICULAÇÃO NACIONAL
A AN é uma articulação entre coletivos do Movimento Estudantil que busca potencializar nossa organização, buscando alternativas de discussão e atuação para além das entidades nacionais que se colocam hoje. Fazemos a troca de debates, de formas de atuação, de análises e formulações, visando interferir de maneira conjunta e qualificada no ME nacional. É importante salientar que a AN não se propõe a ser uma entidade, mas um espaço qualificado de debate e aprimoramento das ações.

PRINCÍPIOS DA AN
A Articulação Nacional atua e se organiza a partir de quatro princípios:

1. Referencial teórico marxista utilizando o Método Materialista Histórico Dialético:
Para que tenhamos intervenções qualificadas e análises coerentes da realidade, precisamos nos utilizar de um método, o qual delineia nossa forma de ver e compreender o mundo. Avaliamos que o mais avançado para isso é o Método Materialista Histórico Dialético, a partir do qual pode-se compreender a realidade como histórica, determinada socialmente, datada e sempre em movimento. Além disso, a perspectiva marxista coloca a luta de classes como central para a compreensão do movimento da sociedade capitalista, fundamentalmente formada por duas classes antagônicas: burguesia e proletariado.

2. Concepção de Estado:
Compreendemos que o Estado é resultado da sociedade de classes e, em qualquer época, defende os interesses da classe dominante. Na sociedade capitalista, dividida em burguesia e trabalhadores – antagonicamente inconciliáveis –, o Estado desenvolve-se de diferentes maneiras, utilizando, em alguns momentos mais e em outros menos, de seus instrumentos para reprimir a classe trabalhadora. Entendemos que só o proletariado é a classe por excelência revolucionária, capaz de iniciar o processo que resultará em uma tomada violenta do poder, a destruição da estrutura do Estado burguês, a implementação da ditadura do proletariado, que cria as condições para o desaparecimento das classes e consequentemente o definhamento do Estado e a construção do Comunismo.
Para isso, avaliamos que as experiências que colocaram a disputa do Estado burguês como meio estratégico demonstraram que essa via leva a derrotas da classe trabalhadora, que, ao invés de culminar na ruptura revolucionária, apresenta-se como forma de conciliação de classes, submetendo o proletariado aos interesses da burguesia. Além disso, é uma questão de princípio não disputar o Estado burguês (não acreditamos que essa disputa seja possível), mas não é um princípio não utilizar de alguns meios, como a via eleitoral, para divulgação do programa socialista. Essa questão deve ser parte da análise de conjuntura e elaboração da estratégia e das táticas em cada momento concreto.

3. Análise do ciclo e perspectiva de superação do Projeto Democrático Popular (PDP):
Compartilhamos da análise de que a esquerda brasileira hoje reproduz uma forma de militância que precisa ser superada. Essa forma, em que expressa um conteúdo reformista, afasta os movimentos de uma perspectiva de superação dessa sociedade, e é fruto do último ciclo de lutas da classe trabalhadora construído através do desenvolvimento do Partido dos Trabalhadores (e suas expressões no Movimento Sindical e Estudantil – CUT e UNE, respectivamente) num movimento de distanciamento da base e entrada no aparelho do Estado. Esse desenvolvimento contém em si as contradições da classe no momento histórico em que ocorreu e mostra o caminho que hoje avaliamos como desviante de nossa luta principal.
Nossa avaliação é que a reprodução de uma militância em que se faz pelos estudantes apenas, deixando-os como meros seres votantes, que escolhem seus representantes, educa-os a não se mobilizarem e atuarem coletivamente. Herdeiros que somos desse ciclo, o submetemos à crítica e buscamos superar o afastamento da base, o personalismo, o tarefismo, a agitação vazia de conteúdo, a falta de estudo, entre outros, tão característicos da forma como somos socialmente formados para a militância.

4. Concepção de Movimento Estudantil (ME):
Entendemos o ME como setor policlassista e a universidade como reprodutora das relações capitalistas, mas que ainda nos possibilita atuar no sentido de avançar na consciência de classe, ligando as pautas do ME à realidade da luta de classes. Os estudantes devem ser aliados da classe trabalhadora e atuar no ME compreendendo que ele não deve ser um fim em si mesmo.
O ME, então, deve cumprir o papel fundamental de fomentar a formação de novos quadros comunistas, por ser um espaço de experimentação, de enfrentamentos e que expressa as contradições do capitalismo.
Nesse sentido, pautamos a necessidade da atuação no ME ser associada à organização e ao processo de reorganização da classe trabalhadora, para não cairmos no erro de uma luta fragmentada da classe, nem lutarmos apenas por melhorias reformistas na Educação.

SOBRE A PARTICIPAÇÃO NA AN
A participação de novos coletivos na AN se dará a partir de debates internos dos coletivos que a compõem a partir dos seguintes critérios:
– Atuação no Movimento Estudantil que paute sua reorganização, priorizando o trabalho de base.
– Concordância em que a AN atue de acordo com seus princípios.
O afastamento de coletivos da AN se dará com base na discussão e avaliação interna da AN a partir da análise dos princípios, dos critérios e da organização interna.