Compartilhamos aqui uma formulação do coletivo Outros Outubros Virão sobre a tarifa zero.

 

cabecalho

“Do rio que tudo arrasta,
diz-se que é violento.
Mas ninguém diz violentas 
as margens que o comprimem.”

Bertolt Brecht

Diariamente o trabalhador é obrigado a se locomover dentro de sua cidade, tanto para trabalhar, como para garantir sua alimentação (ir ao mercado), sua saúde (ir ao hospital), seu estudo (ir à escola), etc. Ou seja, deslocar-se de um lugar para outro é uma necessidade absoluta e irrefutável. Sob o sistema capitalista, no entanto, onde tudo se transforma em mercadoria visando o lucro, essa necessidade passou a ser um produto que precisa ser comprado para se ter acesso. Hoje, no Brasil, o transporte público é apenas subsidiado pelo Estado – a maior parte é tarifada e paga pelo próprio passageiro.

O aumento dessa tarifa foi o estopim das manifestações que vemos hoje espalhadas pelo Brasil e pelo mundo. O reajuste de R$ 0,20 na cidade de São Paulo, por exemplo, chegou a obrigar alguns trabalhadores a deixar de fazer refeições para conseguir pagar o novo valor das passagens. Indignada, a população foi às ruas cobrar a redução da tarifa – e foi massacrada.

Em mobilização, principalmente nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, os manifestantes foram vítimas da mais covarde repressão policial. Alguma novidade? Na verdade não. A sociedade capitalista é dividida em duas classes principais: burguesia, que detém os meios de produção e por isso é dominante, e proletariado, que por não ter nada além de sua força de trabalho é obrigada a vendê-la à burguesia. As duas classes vivem em conflitos constantes e, para não se devorarem mutuamente, surge o Estado, aparentemente acima de todos os conflitos. Neutro na aparência, o Estado na verdade atua em defesa da classe dominante e cumpre o papel de manutenção da ordem, ou seja, a manutenção dos privilégios da burguesia. Privatiza setores, aumenta tarifas, com o argumento de defender um suposto interesse geral, o que sabemos não ser possível, afinal, as classes antagônicas têm, consequentemente, interesses antagônicos. Quando os trabalhadores dizem não a essas falsas soluções e se levantam, o Estado se utiliza de seu braço armado (polícia ou exército) para fazer valer suas decisões.

Isso pode ser observado didaticamente com o movimento atual: os donos das empresas dos transportes são os que se beneficiam com o atual aumento, e o Estado – seja ele representado pelo PSDB, PT ou suas variantes, oposições, coligações – defende ferrenhamente seus interesses, sem economizar violência para isso. Ao mesmo tempo, o discurso do governo para a classe trabalhadora, de democracia e de melhoria das condições de vida da população, tornam-se totalmente o seu oposto, ou seja, o Estado mostra a quem serve.

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Os atos são a resposta que uma parcela dos estudantes (trabalhadores em formação) e dos trabalhadores têm dado à sequencial precarização das condições de vida a qual são submetidos diariamente em nome do lucro de poucos. Os aumentos sucessivos na exorbitante tarifa de transporte não garantem melhores condições de trabalho para motoristas, cobradores e metroviários, que cada vez mais têm sua saúde prejudicada devido ao alto nível de estresse a que são submetidos. A completa falta de estrutura do transporte público das cidades contribui para isso e é intolerável não só para quem nele trabalha, mas também para aqueles que dele se utilizam para chegar a seus locais de trabalho e estudo.

A mídia também tem cumprido bem o seu papel de manutenção ideológica da ordem. Criminaliza os instrumentos de luta que de fato são eficazes e que historicamente tem arrancado melhores condições de vida aos trabalhadores, mostram os manifestantes como “violentos” e dizem que isso tira deles toda a razão. Por vezes coloca como exagerada a ação da polícia, mas dificilmente se coloca a favor dos que lutam, tampouco aponta a violência a que são submetidos diariamente trabalhadores e usuários desse sistema de locomoção nada satisfatório.

Por esses motivos, damos total apoio às movimentações contra o aumento de tarifa, e colocamos nosso repúdio à criminalização dos manifestantes e à repressão da qual têm sido vítimas.

A luta é pela tarifa zero!

Diante da violência documentada que sofreram os manifestantes, com vídeos e fotos chocantes, o movimento ganhou corpo que há muito tempo não se via no país. Despontaram atos, passeatas e mobilizações em diversas cidades, a cada dia agregando um número maior de pessoas. Outras classes, pra além da trabalhadora, também se inscreveram na tentativa de sair na frente, de manter ou aumentar seus privilégios, até de forma oportunista.

Foi assim que uma pauta concreta, possível de ser alcançada – e por isso mesmo capaz de alavancar um processo de lutas ainda maior e mais intenso – perdeu força em meio a uma grande geleia amorfa de reivindicações, deixou de ser só sobre o aumento da tarifa e passou, de forma muito abrangente, a abarcar saúde, educação, corrupção… Isso significa, sim, que existe um sentimento de insatisfação geral. Mas considerando que o senso comum tende mais ao discurso da classe dominante, foi mais fácil para ela cavar seu espaço e dar um novo tom ao movimento. Agora os protestos abarcaram também um discurso pacifista, nacionalista e moralista, o hino nacional se transformou em palavra de ordem e as pautas começam a se esvaziar e se evaporar em “pela reforma política”, “contra a corrupção”, “contra a PEC X, Y e Z”.

Parte do movimento agora se esconde atrás de uma suposta neutralidade para pregar o apartidarismo. Erguendo suas próprias bandeiras, seja do Brasil, de um estado ou de uma pauta específica, esse setor nega que as organizações políticas tenham bandeiras nos atos, ameaçam e apedrejam quem se posiciona abertamente. Na mais otimista das hipóteses, a posição dita neutra fortalece a posição dominante. Mas o que também acontece é que as mobilizações por mudanças reais podem adquirir um caráter vazio, não mais pacíficos, mas passivos. O resultado é a abertura de espaço para a burguesia mais reacionária, que pode ganhar corpo e criar um espaço meramente nacionalista e carregado de muito preconceito.

Não me agradam as pátrias.
Nada me dizem as fronteiras,
talvez por serem bordadas em sangue
no corpo da minha bandeira.

Se tenho alguma sina,
que seja, então, brasileira,
mas antes do verde e amarelo
quero a aquarela inteira.

À Pátria que me pariu!
Mauro Iasi

Mas as centenas de milhares nas ruas do país nos mostram que ainda há muito para ser feito. O Coletivo Outros Outubros Virão se coloca em luta é contra a exploração diária que sofre o trabalhador, contra o gasto gigante que temos que ter para nos locomover, contra o absurdo de ter que trabalhar para pagar o transporte para ir trabalhar. O momento é de fortalecer a pauta: pela tarifa zero!

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