Compartilhamos aqui nota do Outros Outubros Virão

cabecalho

Nos últimos meses a comunidade acadêmica da UNESPAR esteve envolta na seguinte discussão: onde será a sede da Universidade? Em Curitiba, como deliberado pelo Conselho Universitário em 2011, ou em Paranavaí, a partir de decisão do governador do estado? Na terça, 04/06, foi decidido na Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP) que a sede será em Paranavaí, conforme indicação do governador. Para os estudantes, funcionários e professores da FAP que participaram do processo de reivindicação a sensação que fica é de imobilização – toda a movimentação feita não faz diferença para a decisão dos deputados?

Para evitar descrenças ou frustrações, é importante entendermos que a ALEP não é o foco de mudanças da realidade. Pelo contrário, a sua função primordial, assim como a de toda estrutura estatal, é a ordem da sociedade, ou seja, mantê-la tal como é.

Nossa sociedade é capitalista e dividida em duas classes: os proprietários e os trabalhadores. A manutenção da sociedade tal como ela é se refere, fundamentalmente, à manutenção da classe burguesa (proprietários) na sua posição de classe dominante (dona dos meios em que produzimos vida), ainda que em detrimento de melhores condições de trabalho e vida, direitos e vontades da classe trabalhadora – como expresso neste acontecimento na UNESPAR.

Na universidade isso se expressa de várias formas, como no fato das decisões sobre destinação de verba pública serem norteadas pelo interesse da classe dominante: seja priorizar as áreas acadêmicas diretamente ligadas à produção de conhecimento industrial e comercial, seja priorizando a instalação de fábricas ao desenvolvimento de espaços acadêmicos ou culturais. O próprio debate sobre a Autonomia Universitária e as decisões do COU deixou clara esta relação. Mesmo prevista por lei como instância deliberativa da Universidade, interesses externos à Universidade redefiniram o decidido no COU, bastando a indicação contrária do Governador para que a questão fosse encaminhada para ser discutida pelos deputados na ALEP e deliberada de acordo com esses outros interesses.

Além disso, a universidade cumpre uma função que não é a libertação humana, mas a formação dos trabalhadores, nos qualificando para diferentes atividades. Portanto, somos parte da classe trabalhadora, professores, funcionários, e estudantes (trabalhadores em formação). O Estado (ALEP e toda a estrutura governamental) tem em seu objetivo fundamental a manutenção da sociedade como está, atendendo os interesses da classe dominante. Então, como lutar pelos interesses da nossa classe? Como melhorar nossa realidade acadêmica, nossa formação como trabalhadores da arte, as condições de estudo, trabalho e vida?

Antes de tudo, é importante ressaltar que o Estado não é contra os trabalhadores, mas a favor da burguesia. Isso significa que até podemos ter conquistas na ALEP e outros, mas tais mudanças são mais facilmente desfeitas e dependeremos de boa vontade daqueles que votarão nossas pautas. A nossa ferramenta de mudança é outra: é o envolvimento e a participação de trabalhadores e trabalhadores em formação, que em grande mobilização exigem solução para suas demandas.

Foi assim que os estudantes da UFPR conquistaram suas pautas: o RU que hoje tem café da manhã, almoço e janta nem sempre foi uma realidade, mas resultado de várias lutas, greves e ocupações de reitoria. Ainda na UFPR, no ano passado (marcado pela greve de várias instituições federais de ensino superior) docentes, discentes e técnicos da UFPR conquistaram pautas conjuntas, tais como auxílio-creche para os estudantes e para a comunidade acadêmica, e o posicionamento do Conselho Universitário contrário à EBSERH (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares).

Outro exemplo em Curitiba de mobilização que conseguiu vitórias foi a campanha de lutas de 2012 dos professores municipais: a campanha dirigida pelo sindicato contou com uma greve de 2 dias, a participação de mais de 6 mil professores e quase 20% de aumento nos salários, que não eram reajustados há mais de 10 anos (conheça mais sobre esse processo no site do SISMMAC). Quem esteve na praça Nossa Senhora de Salette no dia 14 de março do ano passado, dia da paralisação de técnicos e docentes da FAP junto com outras universidades estaduais, deve lembrar quantas pessoas estavam reunidas na outra ponta da praça, em frente à Prefeitura.

E a luta continua!

Ainda há muitas pautas necessárias para consolidar uma Universidade que esteja comprometida com uma formação de qualidade. A assistência estudantil é uma delas: a UNESPAR é a terceira maior universidade estadual em número de estudantes, mas o que ela oferece para garantir que esses estudantes permaneçam na graduação e possam dedicar-se aos seus cursos? Assistência Estudantil não é sonho, é necessidade!

Ainda que as mobilizações não tenham garantido a sede da reitoria em Curitiba, nem a Autonomia Universitária do Conselho Universitário, a FAP/UNESPAR com certeza teve saldos do processo, pois cada vez mais aprendemos a nos organizar e lutar pelas melhorias na formação dos trabalhadores da arte.

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