Hoje, 29 de maio, comemora-se o dia do Geógrafo (e do Estatístico) em homenagem à fundação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (à época, Instituto Nacional de Estatística), no ano de 1936.

A geografia, por ter no espaço geográfico seu principal objeto de estudo, possui uma relativa importância na compreensão da relação orgânica entre a humanidade e a natureza e, consequentemente, na análise do trabalho e do desenvolvimento das forças produtivas por todo o globo terrestre. Inclusive, para a percepção de como a apropriação da natureza e das técnicas desenvolvidas pela humanidade se dá de forma extremamente desigual e combinada por todo o planeta, gerando, como consequência do atual modo de produção hegemônico, uma ocupação do espaço (das terras, das águas e das riquezas minerais, etc) que é produto da luta de classes.

Desta forma, a geografia sempre foi utilizada, antes de mais nada, pelos aparelhos estatais (notadamente os imperialistas) para o conhecimento e controle dos territórios a serviço dos detentores dos meios de produção. Mas, todo esse arcabouço teórico e técnico da geografia (assim como da história – centralmente -, da economia, da psicologia, da química, da sociologia, da biologia, etc) pode e deve ser colocado a disposição do proletariado em sua missão histórica de destruir nossa velha sociedade e reconstruir uma nova sociedade em que a centralidade esteja nas necessidades humanas e não nas do capital.

Como uma das tarefas centrais hoje é combater as perspectivas pós-modernas e fenomenológicas (que retiram a centralidade da ciência no materialismo histórico e dialético e se proliferam como um câncer na geografia), este texto vem a contribuir com um debate, a partir da análise concreta do espaço, sobre o discurso ideológico que a burguesia e seu Estado tanto praticam a cerca da famigerada seca:

A cerca

a cerca

Pra além de, finalmente, aprender a diferença entre um bode e um carneiro, as recentes oportunidades que estou tendo de percorrer esta Bahia têm me permitido entrar em contato mais diretamente com algumas das maiores contradições a que o capital submete nossa população.

A primeira e mais aparente destas (aquelas que se estabelecem em decorrência da contradição principal capital X trabalho) é a que ocorre entre o capital e [o acesso] a terra. Sendo esta a principal causadora da maior e mais longa de todas as catástrofes da porção ao nordeste da república tupiniquim: a famigerada seca.

Não é tarefa fácil tentar olhar para o horizonte e conseguir enxergar o fim de certos latifúndios onde imperam a monocultura ou, na maioria das vezes, onde a cerca não cerca nada de produtivo para a humanidade. Mas tarefa difícil, com certeza, é encontrar os verdadeiros donos de algumas destas propriedades. É muita terra em que sua função social de produzir alimentos e garantir a moradia não é nem sequer questionada de tão naturalizada que esta forma de apropriação já se encontra. Em diversos pontos, como nesta foto, podemos ver a água que deveria correr e devolver a vida aos tão intermitentes rios da caatinga ser represada da forma mais egoísta possível. É tanta água pra pouca gente e tanta gente tendo que se submeter às falcatruas do processo de distribuição de água pelos carros-pipa, quando se conta com esta sorte, claro.

Também não posso deixar de mencionar o coronelismo que ainda insiste em reinar por diversas bandas. Em algumas delas da forma mais arcaica e que até nos faz lembrar daqueles personagens caricatos criados por Jorge Amado. Tive que me deparar, inclusive, com um ser destes que [infelizmente!] é prefeito de um município e trata este como se fosse a extensão do seu quintal de casa, em que só ele manda e desmanda. Em tantos outros cantos encontramos o aparelhamento de prefeituras da forma mais expansiva possível, como na utilização das máquinas que deveriam cuidar das precárias estradas que contribuem pra isolar mais ainda determinadas populações, mas que estão muito ocupadas na manutenção das vias que cortam suas próprias terras e as de seus cúmplices. Falar de compra de votos, intimidações (‘enrabamentos’) e trabalhos análogos a escravidão (meios não capitalistas de reprodução do capital) já é redundância.

Enquanto isto as gigantescas reservas minerais de toda a região se esvaem pelas ferrovias e estradas enriquecendo as grandes corporações internacionais (sim, o capital não tem pátria) e trazendo todo tipo de contradição típica de uma sociedade baseada no consumismo (como mendigagem, roubos, etc). As riquíssimas fauna e flora já não contam com tantos trinca-ferros e as barrigudas. Em breve o município de Nordestina (com a recente descoberta de uma – gigantesca – mina de diamante) passará pelo mesmo processo de devastação ambiental que encontramos na Serra de Itiúba (cromo) e em Santaluz (ouro), como exemplo. E embora as imensas usinas de Paulo Afonso se encontrem a poucos quilômetros, não são poucas as casas (algumas até de taipa) que ainda nem possuem energia elétrica.

O sertão não é pobre, muito menos o problema é a irregularidade das chuvas… mas sim o processo de apropriação dos meios de produção (como a terra) por uma classe e o caráter essencialmente desigual e combinado do seu desenvolvimento. A maior seca dos últimos 50 anos é, na realidade, o agravamento de um histórico processo de modelo de sociedade em que as necessidades humanas não são prioridades mas sim as necessidades do capital.

É muita terra sem gente… é muita gente sem terra…

Anderson Lobo

Geógrafo e militante do Coletivo Contra Corrente

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