Olá estudantes e trabalhadores,

Nós somos o coletivo Outros Outubros Virão, um coletivo nacional de estudantes que atua em diversas universidades do país e tem como objetivo contribuir na organização do movimento estudantil (ME), para que esse encampe lutas diretas contra o Estado e a classe dominante, responsáveis pela precarização e sucateamento de nossas universidades. Além disso, dado o  caráter classista das lutas dos estudantes – trabalhadores em formação –, buscamos vincular  o movimento estudantil  aos movimentos classistas dos trabalhadores para aliarmos nossas forças e contribuirmos para a construção de uma nova forma de sociedade. Ao escrevermos esse texto, pretendemos expor nosso posicionamento sobre a União Nacional dos Estudantes (UNE), tendo em vista a proximidade de seu 53º Congresso Nacional, o CONUNE.

A UNE e o último ciclo de lutas da classe

Criada em 1938, a UNE já cumpriu um importante papel de organização nas lutas estudantis, estando, em vários momentos de sua história, ao lado dos trabalhadores. Durante os anos de chumbo, provou da repressão, tendo sido desmantelada em 1968. Desde sua refundação, a entidade passa a trilhar o mesmo caminho que outras organizações criadas pela classe trabalhadora, como a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Partido dos Trabalhadores (PT): esse caminho inicia em um movimento combativo, classista, de lutas nas ruas e respaldado por milhões de trabalhadores e trabalhadores em formação. Progressivamente, à medida que o capital amplia os graus de exploração sobre os trabalhadores a partir da década de 1980, através de um novo ciclo de reestruturação, intensificação e cooptação do trabalho, a maior parte dos militantes e correntes que dirigem esses instrumentos começa a mudar a forma de atuação. Frente às dificuldades do novo período, ao invés da organização das lutas, greves, enfrentamentos contra os patrões e os governos, privilegia-se a busca de acordos, negociações e centra-se a militância na disputa eleitoral. Ao chegarem aos governos, os antigos militantes tornam-se administradores que colaboram para a retirada de direitos dos trabalhadores e precarização das políticas públicas como educação, saúde, previdência etc. Gradativamente o movimento da classe, juntamente com esses instrumentos, vai dando uma forte guinada para a direção oposta que estava seguindo acabando por trocar os embates diretos por acordos de gabinetes. Ao fim observamos a ampla disputa eleitoral, o distanciamento das bases e a conciliação entre as classes.

O movimento da UNE nesse período foi umbilicalmente ligado a todo esse cenário: as reuniões de gabinete com representantes do governo passam a pesar mais que a mobilização organizada e direta dos estudantes; o recebimento de verba federal e a cooptação da entidade acorrentam os embates diretos e fazem com que a entidade seja um braço do Estado no movimento estudantil, organizando a defesa de programas federais criados para deixar nossas condições de estudo ainda mais precarizadas. Um exemplo bem atual dessas ações se dá na última greve da educação, em 2012, a maior dos últimos 10 anos. Nela a UNE insistiu em negociar em separado com o Governo pautas diferentes daquelas retiradas nas assembleias de base dos estudantes do país e centralizadas no Comando Nacional de Greve Estudantil. Com isso, a entidade deslegitimou a greve, um dos processos mais ricos em crescimento político e organizativo do ME nos últimos anos. Além da defesa do desmantelamento da educação pública, a UNE posiciona-se favorável aos altos investimentos na educação privada, permitindo o enriquecimento dos grandes empresários Todas essas atitudes, associadas ao mais alto nível de burocratização para se manter defensora dos interesses da classe dominante, geraram um inevitável distanciamento entre a entidade e os estudantes da base das universidades. E, hoje, o abismo que separa ambos é tão grande que, nas principais mobilizações do movimento estudantil nos últimos anos – como greves e ocupações -, a UNE, ao invés de potencializar as lutas, passou a atravancá-las, assumindo, mais uma vez, o lado que não é dos estudantes e trabalhadores. Um exemplo marcante dessa atitude foi a UNE se posicionar a favor da reforma universitária em 2007, enquanto várias ocupações de reitoria ocorriam pelo Brasil. Além de tudo isso, como mais um dos resultados desse movimento de cooptação, vemos os diversos rompimentos de executivas de curso com a entidade.

Sendo assim, hoje, com tamanho atrelamento ao Estado brasileiro, aceitando volumosas quantias de dinheiro dos atuais governantes, defendendo com unhas e dentes todos os projetos federais que precarizam a educação, será que é possível a UNE ainda ser considerada a entidade que representa a nós – estudantes?

Seria a UNE um instrumento em disputa?

Há coletivos e organizações de estudantes que defendem a natureza disputável da UNE, deslocando a militância para os congressos da entidade, promovendo eleições para tiragem de delegados nas universidades, levando estudantes da base para esses espaços. Ainda que neguem, ao fazerem isso esses setores do movimento estudantil seguem reoxigenando, periodicamente, uma entidade que já não nos serve mais. Seguem financiando esse instrumento e legitimando essa maneira ultrapassada de se fazer Movimento estudantil, seguem colocando as críticas somente à corrente majoritária da UNE (União da Juventude Socialista – UJS) e não à entidade em si. Criam a falsa expectativa de que, ao ser direção dessa entidade, mudarão o caráter da mesma. Enfim, defendem o não rompimento com a UNE e, assim, ajudam a manter a referencia do ME em uma entidade que necessita ser superada, tanto pela forma quanto pelo conteúdo.

Ao analisarmos a realidade, podemos dizer que conhecemos duas formas de luta bem distintas e seus consequentes desdobramentos: enquanto os acordões de gabinete, as disputas internas em Conselhos ou outros órgãos do Estado e as negociações engravatadas levam à perda da capacidade de articulação e enfrentamento dos estudantes, a história já nos mostrou que é a luta direta, organizada e autônoma do movimento estudantil que traz conquistas reais para nós, fazendo-nos mudar aspectos de uma realidade.

Entendendo que a forma de luta hoje escolhida pela Une é a que se dá na obscuridade das vias institucionais e na burocracia lamacenta do Estado, não mais legitimamos tal entidade.

Defendemos:

Que o movimento estudantil deixe de compor essa entidade e de referenciá-la entre os estudantes. Nesse momento, não defendemos a criação de novas entidades, já que isso deve ser resultado de movimentos reais de luta dos estudantes, apresentando-se como uma resposta à necessidade de organizar essas lutas em âmbito nacional. Percebemos que hoje, infelizmente, essa movimentação ainda não se coloca nas bases dos estudantes e a criação de uma entidade seria artificial. Avaliamos que nossa tarefa é estar no dia a dia dos estudantes, no seu local de estudo, discutindo e problematizando cada contradição dessa sociedade que se expressa nos mais diversos âmbitos de nossas vidas. Devemos contribuir para colocar os estudantes em movimento, para que – coletivamente e de forma ativa – possamos conseguir melhorias na Educação e ter avanços na organização dos estudantes. É centrando forças nos locais de estudo, que potencializaremos as lutas estudantis e ampliaremos sua capacidade de enfrentamento. Entendemos que a mobilização deve ser feita de forma autônoma e livre dos acordos com o estado e a classe dominante.

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