Trecho do Posfácio da segunda edição do volume 1 de O Capital (sobre o Método)

“Sobre mim que perdi, com ele, o melhor e por quarto décadas o mais constante dos amigos, o amigo a quem devo mais do que palavras permitem dizer, sobre mim recai agora a obrigação de providenciar esta terceira edição, bem como preparar o segundo volume, deixado em manuscrito…” (Engels, Prefacio da terceira edição alemã de O Capital)

“Os resenhistas alemães gritam, obviamente, contra a sofística hegeliana. O Correio Europeu, de Petesburgo, num artigo que examina exclusivamente o método de O Capital (número de maio de 1872, p. 427-436), considera meu método de pesquisa rigorosamente realista, mas meu método de exposição desgraçadamente teuto-dialético. Ela afirma:

“À primeira vista, se julgado pela forma externa de exposição, Marx é o maior filósofo idealista, no sentido germânico, ou seja, no mau sentido da palavra. De fato ele é, porém, infinitamente mais realista do que os seus predecessores na tarefa da crítica econômica. (…) Não se pode, de modo algum, chamá-lo de idealista”.

A melhor resposta que se possa dar ao autor é mediante alguns extratos de sua própria crítica, cuja transcrição poderá interessar a muitos dos meus leitores, para os quais o original russo não seja acessível. Depois de uma citação de meu prefácio da “Contribuição à Crítica da Economia Política” (Berlim, 1859, p.IV – VII), onde eu expus a fundamentação materialista do meu método, continua o senhor autor:

“Para Marx, só importa uma coisa: descobrir a lei dos fenômenos de cuja investigação ele se ocupa. E para ele é importante não só a lei que os rege, à medida que eles têm forma definida e estão numa relação que pode ser observada em determinado período de tempo. Para ele, o mais importante é a lei de sua modificação, de seu desenvolvimento, isto é, a transição de uma forma para outra, de uma ordem de relações para outra . Uma vez descoberta essa lei, ele examina detalhadamente as conseqüências por meio das quais ela se manifesta na vida social. (…) Por isso, Marx só se preocupa com uma coisa: provar, mediante escrupulosa pesquisa cientifica, a necessidade de determinados ordenamentos das relações sociais, e, tanto quanto possível, constatar de modo irrepreensível os fatos que lhe servem de ponto de partida e de apoio. Para isso, é inteiramente suficiente que ele prove, com a necessidade da ordem atual, a necessidade de outra ordem, na qual a primeira inevitavelmente tem que se transformar, que os homens acreditem nisso, quer não, quer eles estejam conscientes disso, quer não. Marx considera o movimento social um processo histórico-natural, dirigido por leis que não apenas são independentes da vontade, consciência e intenção dos homens, mas, pelo contrario, muito lhes determinam as vontades, a consciência e as intenções. (…) Se o elemento consciente desempenha papel tão subordinado na história da cultura, é claro que a crítica que tenha a própria cultura por objeto não pode, menos ainda do que qualquer outra coisa, ter por fundamento qualquer forma ou qualquer resultado consciência. Isso quer dizer que o que pode lhe servir de ponto de partida não é a idéia, mas apenas o fenômeno externo. A critica vai limitar-se a comparar e confrontar um fato não com uma idéia, mas com o outro fato. Para ela, o que importa é que ambos os fatos sejam examinados com o máximo de fidelidade, e que constituam, uns em relação aos outros, momentos diversos de desenvolvimento; mas, acima de tudo, importa que sejam estudadas de modo não menos exato a série de ordenações, a sequência e a conexão em que os estágios de desenvolvimento aparecem. Mas dir-se-á, as leis da vida econômica são sempre as mesmas, sejam elas aplicadas no presente ou no passado. (…) É exatamente isso o que Marx nega. Segundo ele, essas leis abstratas não existem. (…) Segundo ele, pelo contrário, cada período histórico possui suas próprias leis. Assim que ávida já esgotou determinado período de desenvolvimento, tendo passado de determinado estágio a outro, começa a ser dirigida por outras leis. Numa palavra, a vida econômica nos oferece um momento análogo ao da história da evolução em outros territórios da Biologia. (…) Os antigos economistas confundiram a natureza das leis econômicas quando as compararam às leis da Física e da Química. (…) Uma analise mais profunda dos fenômenos demonstrou que organismos sociais se distinguem entre si tão fundamentalmente quanto organismos vegetais e animais. (…) Sim, um mesmo fenômeno rege-se por leis totalmente diversas em conseqüência da estrutura totalmente diversa desses organismos, da modificação em alguns dos seus órgãos, das condições diversas em que funcionam, etc. Marx nega, por exemplo, que a lei da população seja a mesma em todos os tempos e em todos os lugares. Ele assegura, pelo contrário, que cada estágio de desenvolvimento tem uma lei demográfica própria. (…) Com o desenvolvimento diferenciado da força produtiva, modificam-se as circunstâncias e as leis que as regem. Marx, ao se colocar a meta de pesquisar e esclarecer, a partir desta perspectiva, a ordenação econômica do capitalismo, apenas formula, com todo rigor científico, a meta que deve ter qualquer investigação exata da vida econômica. (…) O especifico de tal pesquisa reside no esclarecimento das leis especificas que regulam nascimento, existência, desenvolvimento e morte de dado organismo social e a sua substituição por outro, superior. “E o livro de Marx tem, de fato, tal mérito”.

Ao descrever de modo tão acertado e, tanto quanto entre em consideração a minha aplicação pessoal do mesmo, de modo tão benévolo aquilo que o autor chama de “meu verdadeiro método”, o que descreveu ele senão o método dialético?

É, sem dúvida, necessário distinguir o método de exposição formalmente do método de pesquisa. A pesquisa tem de captar detalhadamente a matéria, analisar suas varias formas de evolução e rastrear sua conexão íntima. Só depois de concluído esse trabalho é que se pode expor adequadamente o movimento real. Caso se consiga isso, e espelhada idealmente agora a vida da matéria, talvez possa parecer que se esteja tratando de uma construção a priori.

Por sua fundamentação, meu método dialético não só difere do hegeliano, mas é também a sua antítese direta. Para Hegel, o processo de pensamento, que ele, sob nome de idéia, transforma num sujeito autônomo, é o demiurgo do real, real que constitui apenas a sua manifestação externa. Para mim, pelo contrário, o ideal não é nada mais que o material, transposto e traduzido na cabeça do homem.

Há quase trinta anos, quando ele ainda estava na moda, critiquei o lado mistificador da dialética hegeliana. Quando eu elaborava o primeiro volume de O Capital, epígonos[i] aborrecidos, arrogantes e medíocres, que agora pontificam na Alemanha culta, se permitiram tratar Hegel com o bravo Moses Mendelssohn tratou Espinosa na época de Lessing, ou seja, como um “cachorro morto”. Por isso, confessei-me abertamente discípulo daquele grande pensador e, no capítulo sobre o valor até andei namorando aqui e acolá os seus modos peculiares de expressão. A mistificação que a dialética sofre nas mãos de Hegel não impede, de modo algum, que ele tenha sido o primeiro a expor as suas formas gerais de movimento, de maneira ampla e consciente. É necessário invertê-la, para descobrir o cerne racional dentro do invólucro místico.

Em sua forma mistificada, a dialética foi moda alemã porque ela parecia tornar sublime o existente. Em sua configuração racional, é um incomodo e um horror para a burguesia e para os seus porta-vozes doutrinários, porque, no entendimento positivo do existente, ela inclui ao mesmo tempo o entendimento da sua negação, da sua desaparição inevitável; porque apreende cada forma existente no fluxo do movimento, portanto também com seu lado transitório; porque não se deixa impressionar por nada e é, em sua essência, critica e revolucionária.

O movimento, repleto de contradições, da sociedade capitalista faz-se sentir ao burguês pratico de modo mais contundente nos vaivéns do ciclo periódico que a industria percorre e em seu ponto culminante – a crise geral. Esta se aproxima novamente, embora ainda se encontre nos estágios preliminares, e, tanto pela sua presença quanto pela intensidade de seus efeitos, há de enfiar a dialética até mesmo na cabeça dos parasitas afortunadas do novo Sacro Império Teuto-Prussiano.”

Londres, 24 de janeiro de 1873

Karl Marx

[i] Marx refere-se aí aos filósofos burgueses alemães Buchner, Lange, Duhring, Fechner e outros. (N. da Ed. Alemã)

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